quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Amizade e "cobranças": apego excessivo + insegurança emocional

"Como as plantas, a amizade não deve ser muito nem pouco regada." - Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), escritor brasileiro.

A ideia para o artigo de hoje surgiu no comecinho do ano, numa conversa com minha amiga Nadia. A conversa foi sobre pessoas que iniciam uma amizade com outros e passam a cobrar dos amigos certo envolvimento que, muitas vezes, vai além do que a outra pessoa espera. Acredito que muitas pessoas já encontraram amigos que cobram maior contato ou proximidade, ou ainda venham com aquela velha conversa de "você sumiu!" mesmo sem ter motivos para isso.



Por que isso acontece?
Existem diversos motivos para isso. O mundo é uma grande sala de espelhos. Repito muito isso, pois cada vez a frase me parece mais verdadeira. Quero dizer que, muitas vezes, aquilo que tanto incomoda no outro (mesmo que o descomprometimento, o comportamento distante ou até a atitude de cobrança, vendo o outro lado da situação) é da própria pessoa e não do outro. 
Outras vezes, o motivo é a insegurança se mostrando em uma pessoa emocionalmente imatura, que aparece como esse tipo de ciúme ou cobrança. 
Um terceiro motivo, muitas vezes também ligado à insegurança, é o apego excessivo. É claro que é muito bom ter pessoas a quem somos apegados, ter amigos muito presentes na nossa vida... mas nada em excesso é bom. No caso, o apego excessivo traz à tona sua sombra: o medo da perda (seja a perda do outro em si, do vínculo tido como "especial", da atenção...). Existem pessoas que nunca tiveram relacionamentos (de amizade, amorosos e até familiares) minimamente satisfatórios. Então, muitas vezes essas pessoas têm a tendência a se apegar demais quando encontram alguém que parece ter um carinho sincero por elas. Aliás, mesmo que a gente mal conheça a pessoa e tenha apenas conversado sobre banalidades por poucas vezes, elas podem se apegar. Existem pessoas que nem sequer estão acostumadas a receber atenção dos outros de forma positiva.
Outras pessoas, ainda, não sabem lidar com a frustração (o que também é sinal de imaturidade emocional). É difícil aceitar um "não", mesmo que o "não" seja apenas algo como o amigo ter amizades com outras pessoas além dela, ou estar ocupado (fazendo a pessoa perceber que o centro da vida do amigo não é ela), enfim, a pessoa não aceita a frustração de ter de dividir a atenção e o tempo do outro com nada nem ninguém.
Enfim, existem inúmeras possibilidades, que geralmente têm alguma relação com a imaturidade emocional.

Como lidar com pessoas assim?
Cada pessoa encontrará a sua maneira de lidar com essa situação. Quando se trata de relacionamentos, não há um modelo pronto a ser seguido, apenas aprendemos a nos relacionar quando nos relacionamos. E situações envolvendo um relacionamento não dependem apenas de nós ou do outro, dependem daquilo que surge entre um e outro.
Algumas pessoas preferem apenas se afastar quando o amigo começa com as cobranças ou com o apego excessivo/ciúme. No entanto, não deixa de ser estranha a atitude, não deixa de causar espanto que, num mundo onde tanto se fala e se busca relacionamentos equilibrados, isso aconteça. Claro, em relacionamentos equilibrados não existem cobranças sem motivo... E relacionamentos equilibrados não acabam sem ter um fim, mesmo que o fim seja apenas uma conversa do tipo "não posso lidar com essas cobranças todas, por isso prefiro me afastar por enquanto". Talvez uma conversa sincera seja a primeira oportunidade que a pessoa tenha para repensar suas atitudes (e uma boa demonstração de amizade verdadeira). Talvez a pessoa entenda bem, ou talvez não. Mas mesmo sendo uma conversa que pode trazer algum desgaste emocional, ela vale a pena (claro, mantendo-se o respeito e o tom de voz em volume minimamente educado!), pois as duas partes tendem a crescer e amadurecer.
Outras pessoas, preferindo evitar o conflito, preferem apenas contornar a situação, ou seja, aceitar que o outro funciona desse jeito e lidar com as cobranças e o apego da forma que puder em cada momento. É uma atitude que parece respeitosa, no entanto, não traz grande crescimento a nenhum dos dois e, em pouco tempo, a relação se desgasta e se fragiliza - confirmando a quem cobra o envolvimento do outro a crença que as pessoas realmente "não prestam", são "falsas" e "todas iguais"...

Acho que me identifiquei com a pessoa que cobra os outros e é apegada demais, e agora?
Que bom que percebeu, isso mostra uma grande consciência de si, o que é um sinal de que você já está pronto para dar mais um passo no seu desenvolvimento. É claro que você sabe que as pessoas têm diversos amigos e obrigações na vida... Mas não basta saber com a razão, é preciso compreender isso com o coração. As pessoas não criam laços apenas passando o tempo inteiro juntas ou não tendo outras companhias. Os laços mais bonitos se criam quando o carinho que sentimos uns pelos outros é sincero. E isso não tem nada a ver com distância, diferenças sócio-culturais, agendas cheias ou vazias, ou qualquer outra condição que descreva a nossa existência. Isso tem a ver apenas com o sentimento, com o amor, respeito e consideração que nutrimos pela pessoa. Sentir saudade também é parte de relacionamentos equilibrados (todo tipo de relacionamento), eles são feitos de encontros, partidas e reencontros... Algumas vezes, apenas refletir sobre isso pode ajudar. Outra coisa que pode ajudar é conversar sobre isso com alguém de confiança, pedindo para a pessoa dar um toque quando você passar dos limites. E se tiver dificuldade com a situação, vale muito a pena procurar um psicólogo para resolver a questão da insegurança.

Quando amamos alguém (a amizade não deixa de ser uma forma de amor), não amamos o outro apenas pelo que ele é, mas também apesar daquilo que ele é. É gostosinho amar uma pessoa madura emocionalmente, simpática, de bem com a vida e com o mundo... Mas ninguém é o tempo inteiro assim. Todos nós temos uma sombra, um lado completamente diferente daquele que mostramos aos outros (e a nós mesmos). Faz parte do nosso crescimento lidar com a diversidade, com outras formas de ser e de existir. Faz bem descobrir que podemos amar pessoas em condições diferentes das nossas, inclusive pessoas inseguras e que mostram esse apego de forma pouco equilibrada. E amar, neste caso, não é fingir que não percebe ou que a atitude do outro não incomoda. É preciso muita coragem e também muito amor para dizer aquelas coisas que todos percebem, mas que ninguém ousa dizer, como apontar essa questão das cobranças e do apego e, se for preciso, sugerir ao outro buscar a ajuda de um psicólogo para estabelecer vínculos com maior equilíbrio. O "como" lidar é sempre uma escolha de cada um. Mas uma coisa é certa: enquanto a gente fugir do problema, esse tipo de situação continuará a se repetir na nossa vida, nos mais diferentes contextos, até que a gente encare a situação e aprenda a lidar com ela.

9 comentários:

  1. Oi Bia ta de parabens Milagre conseguiou me fazer ler risos

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  2. Excelente Texto!!Parabéns!!

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  3. Sou muito insegura com relação a amizade, e todas as vezes venho aqui ler esse texto para me confortar.
    Obrigada.

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  4. Tenho uma amiga assim é por eu não poder falar com ela em certo momento do domingo ela disse q preferia por um ponto final por q nO a valorizo. Nem posso mandar esse texto pois soaria como uma afronta. Terrível situação sufocante e desgastante

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  5. me identifiquei com o assunto. acho q sou apegado demais as pessoas q amo. obrigado

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  6. Cobrei demais,hoje sei disso!!! Mas aprendi muito com o meu primeiro amigo.

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