terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Mythos - Poseidon: lidando com as nossas emoções

O deus sobre quem vamos conversar hoje tinha uma grande importância para os antigos gregos e também para os romanos (que, na face de Netuno, fizeram uma releitura de seus mitos e cultos), pois Poseidon, também chamado Posídon, é o deus dos mares. Tanto a Grécia quento Roma tinham seus territórios espalhados por diversas ilhas (no caso de Roma, por diversos continentes, abrangendo grande parte da Europa, o norte da África e partes do Oriente Médio). Naquele tempo, a única forma de ir de um lugar a outro, seria enfrentando a imensidão do mar. Acontece também, que as viagens por mar no mundo antigo eram situações de muita instabilidade, pois poderiam ser tranquilas e pacíficas, assim como poderiam ser cheias de perigos e riscos, fazendo os viajantes nunca chegarem aos seus destinos! Era fundamental que o deus dos mares estivesse satisfeito e em paz para que as viagens seguissem em segurança.

Poseidon, imagem de Jim Jorz, DeviantArt.
Poseidon é filho de Reia (a energia da terra, seu potencial fértil e criativo) e de Cronos (o tempo, o pai devorador que sempre devora seus filhos - no caso dos mitos, isso acontece literalmente, pois Cronos os engole assim que nascem, por medo que um deles tome seu lugar, o que Zeus fez). Em uma das versões sobre seu nascimento, Cronos o jogou ao mar ao invés de engoli-lo. Em outra versão, Reia deu um cavalo a Cronos no lugar do filho. No entanto, a versão mais contada é aquela em que, como todos os irmãos a exceção de Zeus, Poseidon foi devorado por Cronos. Nessa terceira versão, Poseidon foi o último filho a ser engolido e o primeiro a ser libertado por Zeus. Compreendemos a estadia dos deuses no estômago de Cronos (sendo digeridos pelo tempo) como um "segundo período de gestação". Assim, Poseidon foi o que passou menos tempo no estômago do pai, e isso se reflete em sua personalidade. Hades, por exemplo, foi o que mais tempo ficou lá, por isso se mostra um deus introvertido, que raras vezes sai do mundo dos mortos/inconsciente. Zeus nunca foi engolido, por isso é o mais extrovertido, tem muita confiança em si mesmo e é um grande líder. Já Poseidon... ele está entre os dois. Ora é calmo e introvertido como Hades, ora é agitado e revolto como o mar numa noite de tempestade!

Como característica de personalidade deste deus (e como o traço arquetípico que ele nos deixa), destacam-se a agitação e a capacidade de expressar emoções profundas, tanto no sentido amoroso, como quando pediu Anfitrite em casamento enviando-lhe um golfinho (a melhor parte de si), quando pelo lado da raiva, pois era um deus violento, que tinha o costume de inundar as cidades-estado protegidas por deuses rivais (existe até hoje, em Atenas, um poço de água sagrada que, dizem, surgiu de uma disputa entre ele e Atena, a deusa da sabedoria e patrona da capital grega), a tal ponto que Zeus chegou a proibir-lhe as inundações! Mas ele tinha outros métodos, pois Poseidon também está associado aos terremotos, o que gera conflitos com Hades, pois o senhor dos mortos teme que num dos tremores uma fenda se abra na terra e a humanidade descubra o que se passa após a morte. 

A impulsividade é outro traço marcante de Poseidon, pois ele é guiado principalmente por suas emoções instáveis e tumultuadas, e não tanto pela razão. Por esse motivo, mesmo sendo muito requisitado nas viagens por mar, este não era um deus tão amado pelos gregos. Assim como o irmão Zeus, Poseidon era muito dado a casos amorosos, com deusas (entre elas, Gaia - deusa da terra, Deméter - deusa da fertilidade, e Afrodite - deusa do amor e da beleza), ninfas e humanas. Sua esposa, Anfitrite reagia tal como a esposa de Zeus, Hera: ao descobrir as aventuras do marido, vingava-se,  Anfitrite optava por transformar as amantes em monstros terríveis, quase sempre monstros marinhos, o que tem várias explicações. No ponto de vista histórico/antropológico, esses casos amorosos explicam a tentativa de trocar o culto central a uma deusa pelo de um deus (no caso, Poseidon) na passagem do matriarcado para o patriarcado. No ponto de vista simbólico, explica o medo que o ser humano pode ter do mar - e de suas emoções mais impulsivas e indomadas pela racionalidade.


Questões para reflexão:

1- Em diversas culturas e estruturas simbólicas, a água está relacionada às nossas emoções. E o mar é um grande símbolo emocional. Ele pode denotar a profundidade das nossas emoções, a agitação ou tranquilidade emocional. Sendo que no caso da tranquilidade, não é algo estanque como um lago, mas algo que, mesmo com calma, está sempre em movimento, é algo dinâmico e que pode mudar a qualquer momento! Com quais aspectos do mar/oceano as suas emoções geralmente se parecem? Como "Poseidon" se mostra no seu dia a dia?

2- Como você expressa as suas emoções ("boas" ou "ruins"), de forma impulsiva ou direta como Poseidon, ou de forma mais contida, mediada pela razão? Qual jeito é melhor ou pior? Nenhum! São formas diferentes de lidar com algo que todos temos e sentimos, nenhum jeito é pior ou melhor, existe apenas o jeito que funciona melhor para cada pessoa. Quais tipos de emoção são mais fáceis de serem mostradas ao mundo e quais são mais difíceis? Por que? Veja que não falo sobre as emoções que a sociedade condena (no caso da nossa, a raiva é um bom exemplo). Muita gente tem dificuldade com emoções bem aceitas e valorizadas, como o amor e a alegria.

3- No caso de Poseidon, o jeito como ele lida com suas emoções é expressando-as em suas ações (quase sempre de maneira impulsiva). E você, como tende a lidar com elas? Expressando-as (como?), guardando-as para si mesmo, negando-as...? A forma como lidamos com as nossas emoções, mais do que a emoção em si, conta muito sobre a forma como tendemos a agir e reagir na vida, seja essa forma mais dentro daquilo que se aceita socialmente, mais fora, seja de forma impulsiva, racionalizada ou um meio termo.

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