terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Mythos - Uirapuru: amor e/é liberdade

Atendendo aos pedidos da Márcia, do Eduardo e da Luana, hoje temos um mito brasileiro. Este é um mito de simbologia muito bonita, pois fala de algo raro e precioso, o canto de um pássaro mágico. O uirapuru é um pássaro da Amazônia, que canta por volta de 15 dias por ano. Dizem os povos da floresta que o canto do uirapuru é tão mágico que quando ele canta toda a floresta faz silêncio para apreciar sua música.

De acordo com os mitos dos povos indígenas da região, havia numa aldeia um cacique muito egoísta, que queria tudo para si. E havia também um guerreiro, que se apaixonou pela esposa do cacique. Ela era a mulher mais linda da tribo, e o guerreiro sabia que nunca poderia tê-la, ou mesmo falar sobre seus sentimentos. Então, buscou a ajuda de Tupã. Ao contrário do que muitos pensam, Tupã não é exatamente um deus, mas o mensageiro de Nhanderuvuçu (deus supremo da mitologia guarani, ele não tem uma forma, é a energia criadora), que se comunica através dos trovões, por isso Tupã é popularmente visto como um deus trovão (lembre-se que a Amazônia é uma região bastante chuvosa). Tupã também controla o clima, os ventos e empurra as nuvens pelo céu. Na verdade, até que os jesuítas catequizassem os povos indígenas e associassem Tupã ao deus cristão, ele representava algo como o sopro da vida. De todo modo, Tupã compreendeu as dores do guerreiro apaixonado e, para ajudá-lo a ficar perto de sua amada, o transformou num lindo pássaro, de cores vivas, como vermelho, amarelo, laranja...

Toda a aldeia ficou encantada com o pássaro, que chamaram de uirapuru, que significa "pássaro ornado" e também "pássaro que não é pássaro". O cacique também gostou muito do uirapuru, e decidiu que o teria apenas para si. Por isso, não pensou duas vezes antes de entrar na mata e ir atrás dele. Mas, acontece que o uirapuru é um pássaro que se movimenta muito depressa, e voa grandes distâncias em pouco tempo. E o cacique acabou se perdendo na mata. Quanto ao guerreiro transformado em pássaro, ele passou os dias cantando e encantando sua amada.

Os povos da floresta contam algumas tradições interessantes sobre o uirapuru. Se uma linda jovem conseguir acertá-lo com uma flecha, o pássaro se transformaria num lindo guerreiro. Mas se isso acontecer, todo cuidado é pouco para o casal, pois algum feiticeiro invejoso e perverso poderá tocar sua flauta e fazer com que o guerreiro desapareça! Segundo as tradições desses povos, quem ouvir o raro canto do uirapuru, terá muita sorte e tem direito a um pedido especial. Se um homem possuir uma pena do pássaro, terá sorte no amor e nos negócios, e se uma mulher tiver uma parte do ninho, terá quem ela mais ama sempre ao seu lado.


Questões para reflexão:

1- O guerreiro precisava de liberdade para estar próximo da mulher que amava. E Tupã deu-lhe essa liberdade ao transformá-lo num pássaro, que entre muitos povos e culturas diferentes, é associado a essa liberdade. Você se sente livre? Por que? Procure perceber em quais áreas da sua vida você é mais livre e em quais precisa de maior liberdade. Quais estratégias você poderia usar para conquistá-la?

2- O mito do uirapuru nos fala sobre algo belo e raro. O que traz beleza à sua vida? O que é mais precioso? A estética (bem diferente da beleza valorizada pela mídia) não é apenas a beleza física. Existem relacionamentos belos, situações e lembranças belas... Existem sonhos e sentimentos belos. A estética/beleza nos ensina a ter esperança, nos passa o sentimento de que há um sentido maior por trás dos acontecimentos da vida. Encontramos a estética quando conseguimos nos organizar (e a nossa vida) num todo belo e harmonioso.

3- O cacique se perdeu porque queria apenas para si algo que na verdade não era dele. O pássaro existia para ser livre, para voar por onde o coração mandasse... Você já se sentiu assim, seja como o cacique, que tenta aprisionar algo (o pássaro ou o amor) que existe para crescer livre, seja como o uirapuru, que teve sua liberdade ameaçada? Se sim, quando? Como venceu a situação? Somos verdadeiramente livres quando somos amados. Pelos outros, mas, principalmente, por nós mesmos.

4 comentários:

  1. Adorei! Meu pai me contava essa lenda quando eu era mais nova e eu sonhava em ouvir o pássaro.
    Parabéns Bia, como sempre trazendo pontos interessantíssimos para reflexão.

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    1. Que legal, também sonhava em ouvir o canto do uirapuru quando pequena, e em olhar para ele (só conheço por foto). A cultura brasileira é mesmo riquíssima!
      beijos

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  2. Muito bom Bia vc sempre nos traz coisas interessantes para refletirmos. bjs

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