quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Por que nunca criticamos?

"Não há porque não criticar muito severamente quando se tem a sorte de amar a pessoa que se critica." - Jean Paul Sartre (1905-1980), filósofo existencialista francês.

Provavelmente você já notou isso. As pessoas não criticam nada. É, eu sei, elas reclamam (algumas delas mais do que deveriam!). Mas reclamar é bem diferente de criticar. A reclamação é aquela ladainha vazia, em que a pessoa não busca dividir sua revolta/tristeza/preocupação, e muito menos busca uma solução. Tudo o que ela quer é se queixar mais e mais, seja para ganhar a compaixão dos outros e se sentir querida, seja porque ainda está digerindo o que passou e falar ("reclamar") a ajuda nesse sentido. De todo jeito, poucas criticam. A crítica é uma queixa com foco. Ou melhor, nem sempre é uma queixa. Prefiro pensar na crítica como um olhar atento aos detalhes, que aponta aquilo que não está muito bom com a intenção de gerar melhoras ou novas atitudes.

Não fomos educados a criticar. Muita gente cresceu ouvindo que "quando não temos nada de bom para dizer, apenas ficamos quietos". Isso é muito triste! Porque, quase sempre, apesar da atitude dizer outra coisa, a pessoa percebeu os pontos ruins e não disse nada com medo de ofender o outro. E esse medo é bem concreto e real, pois da mesma forma que nunca nos ensinaram a criticar, poucos aprenderam a ouvir críticas. Já entendem como "estão colocando defeitos em mim", ou como uma brincadeira de mal gosto. Perdem a chance de ouvir uma opinião sincera e mudar para melhor algo que não está muito bom.

"Vacuous adolescence", obra de Jeffrey Harp, 2003.
Como aprender a criticar? Com a ajuda do olhar sincero e atento que todos nós podemos ter. Percebendo pontos melhores e piores naquilo que analisamos (trabalhos, relacionamentos, o comportamento de alguém, um discurso...). E colocando a nossa opinião, de forma construtiva, isto é, ciente de que a ideia não é diminuir o outro e sim ajudá-lo a crescer. 

Quando criticamos, estamos sendo sinceros. E a nossa sinceridade é dirigida ao responsável pelo que criticamos, mas também a nós mesmos. É estranho ter contato com algo, perceber falhas e então sorrir e dizer que tudo está lindo, quando sabemos que não está. 

Muitas vezes estamos tão envolvidos com aquilo que fazemos que não percebemos os pontos fracos. Seja porque estamos animados com os pontos fortes daquilo que criamos, seja porque os pontos fracos da nossa produção refletem justamente aquelas áreas em que não somos tão bons. Todos nós precisamos de ajuda em algo. Por isso, é fantástico ter críticos de confiança. A maioria dos grandes escritores os têm, geralmente são amigos que leem em primeira mão e dizem com sinceridade o que acharam, fazendo as críticas cabíveis. Os pesquisadores de programas de mestrado e doutorado têm o orientador, que entre outras funções, também acaba sendo o primeiro crítico.

Para terminar, gostaria de contar algo sobre os bastidores do trabalho de Freud, o criador da psicanálise. Freud era judeu e vivia em Viena no início do século XX. Uma realidade difícil, e ele tinha consciência de que qualquer coisa que ele escrevesse seria muito criticado. Mas, na minha opinião, ele foi uma pessoa muito estratégica. Depois de escrever cada um de seus textos, ele os lia e fazia todas as críticas que imaginava que iria receber. E então reescrevia o texto e repetia o processo - quantas vezes fossem necessárias. Hoje... temos preguiça! Mais do que isso, muita gente acredita que é muito melhor e mais especial que as outras pessoas e é lógico que o que ele faz sempre estará bom e não precisa de melhorias! 

Mas a vida não é bem por aí. Ser o nosso próprio crítico como fazia Freud, na área que for, é um exercício muito bom. Não apenas melhora aquilo que fazemos, mas nos ajuda a encontrar nossos pontos fracos - e a superá-los! Também é muito bom poder contar com pessoas de confiança que nos critiquem com sinceridade e de forma construtiva. É bom saber que temos ao nosso lado pessoas de confiança, que são sinceras conosco aponto de dizer, visando o nosso crescimento, aquelas palavras que ninguém mais ousaria.

5 comentários:

  1. Bia, adorei o artigo =) Mas, fiquei pensando também o outro lado. Acho que acontece muito também das pessoas criticarem as outras sem fundamento nenhum, com o único intuito de diminuir o outro e se sentirem melhores. Por exemplo, deixei o trabalho para estudar para concursos. Mesmo tendo me programado 8 anos para fazer isso e não depender da renda de ninguém sempre vem alguém me fazer perguntas do tipo "E ai desistiu mesmo de trabalhar, vida boa só estudar né?" ou "Já faz tanto tempo que você estuda e não passou?".

    Conversando com uma amiga sobre essa situação (essa amiga passou a pouco tempo em um concurso para magistratura), ela disse que as mesmas pessoas que criticavam sem argumento agora continuam as críticas só que sobre outro ângulo como "Como você vai casar morando tão longe?", "Como você vai ter filhos, essa profissão é perigosa?".

    Esse tipo de crítica me incomoda muuuito. Como abstrair essas críticas sem fundamento? Se respondo a altura me sinto mal porque fui grosseira. Se não falo nada também me sinto mal como se tivesse sendo humilhada.

    Adoro o blog =)

    Rogéria

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    1. Olá, Rogéria!
      Esse tipo de crítica que você comentou passa bem longe da crítica construtiva, que nos ajuda a crescer e a melhorar. Dar uma "resposta a altura", apesar de algumas pessoas dizerem se sentir melhor com isso, não ajuda em nada a resolver a questão - nem a nossa, nem a do outro. Quase sempre o que motiva esse tipo de crítica não é o desejo de nos ver melhorar, e sim a inveja ou a amargura das pessoas que nunca ousaram viver as próprias escolhas e quando nos vêem ter a "ousadia" de viver uma vida escolhida por nós, não se conformam (com a falta de envolvimento deles mesmos com os próprios sonhos) e aí, numa atitude imatura, tentam fazer os outros se decepcionarem ou sentirem culpa por viver algo que faz sentido para si ao invés de apenas se submeter a uma realidade sem sentido. Muitas vezes, apenas tendo consciência disso, esse tipo de crítica (ou intriga?) deixa de nos afetar da mesma maneira. A própria frustração dessas pessoas já lhes dará com o que se ocupar... Nossa melhor atitude é dar um belo sorriso e dizer (para o outro, mas principalmente para nós mesmos) que sim, a vida de estudar e ir atrás dos seus sonhos é ótima porque foi essa a sua escolha. Não, o outro não vai ter raiva. Quase sempre vai achar que você é boba e não entendeu o "veneno" nas entrelinhas. Mas você sabe o quanto é corajosa por viver seus sonhos, e isso basta. O resto é resto.
      beijos e obrigada pelo carinho :)

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  2. Comum é ver pessoas que só sabem reclamar e se acham donas das melhores críticas do mundo, além de se acharem boas demais para receberem críticas por mais construtivas que estas possam ser.
    Parabéns pelo blog e pela postagem, tens uma nova seguidora.

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    1. Olá Raquel, seja bem-vinda!
      É, nossa civilização tem o péssimo costume de rejeitar as críticas, mesmo as construtivas, e também de usar o senso crítico como forma de ataque e agressão, sem visar o crescimento. Uma pena. Mas podemos mudar isso lidando de forma diferente com as críticas no nosso dia a dia. Trabalho de formiguinha, mas ajuda muitos a pensarem sobre isso e reverem seus conceitos.
      beijos

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  3. Bia, obrigada pela atenção de sempre ;)

    Rogéria

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