sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Síndrome do pânico: o papel dos amigos e da família

Bia, bom dia!
Gostaria de saber o que amigos e parentes podem fazer para ajudar uma pessoa que está inquieta, insegura, não conseguindo ficar sozinha e tendo alguns episódios de ansiedade. Pelo que pude ver, se aproxima muito de sindrome do pânico, ocorrendo também a falta de ar.
Obrigada!
Natália - Ribeirão Preto, SP


Olá, Natália!

Qualquer que seja o problema que uma pessoa tenha (físico, emocional ou mesmo os desafios da vida), o apoio de pessoas queridas é sempre muito importante, em alguns casos, decisivo. Muitas vezes, além das atitudes em si (acompanhar até a consulta, lembrar dos medicamentos, enfim, coisas do dia a dia que algumas pessoas em situação mais grave podem precisar), o que mais faz diferença na vida dos pacientes é perceber que existem pessoas ao lado dele, que se importam e se preocupam com a sua melhora. 

Se a pessoa for adulta, o quadro que você me descreveu parece bem com síndrome do pânico, e precisa ser tratado por um psicólogo. Se for criança, o sentimento de pânico (não a síndrome!) costuma acontecer quando ela começa a ter contato com a realidade de forma um pouco mais realista, e percebe que o mundo não é tão "perfeitinho" e cor de rosa como as fantasias a faziam supor. Algumas entram em pânico e passam a manifestar medos diversos por verem os problemas (na propria vida, em casa, na escola, no mundo...) e se perceberem impotentes, são apenas crianças que pouco podem fazer para mudar a realidade maior. Cabe à família transmitir o "colo", o sentimento de que todos estão lá para cuidar e proteger aquela criança, assim como emprestar a ela um olhar mais maduro e experiente, por exemplo mostrando que não é preciso se desesperar, apenas ter cuidado. Também no caso da criança, é interessante procurar um psicólogo, pois apesar de medo do novo e uma certa surpresa frente ao mundo adulto serem normais, falta de ar certamente não é.

Caso a pessoa não esteja em tratamento, a maior ajuda que um amigo verdadeiro pode dar é insistir para que ela procure ajuda. Nem sempre a pessoa quer, e muitas vezes ela se ofende com a sugestão. Mas sem receber o tratamento adequado (com um psicólogo e, em casos mais graves, também com um psiquiatra, para que a pessoa seja medicada), pouco existe a ser feito. Cabe conversar sobre como esses sintomas vêm dificultando a vida dela, e que ela merece se sentir melhor e viver livre das crises, para que realize seu potencial e possa ir atrás do que a faz feliz.

No caso da pessoa já estar em terapia, o papel dos amigos e familiares é um pouco mais simples. Cabe a eles dar o apoio necessário à pessoa, entendendo as ausências, respeitando os sintomas, dando um ombro amigo quando necessário... mas também é importante pegar no pé quando for preciso! Tem que ir às consultas e fazer o tratamento direitinho. E nada de "parar a vida" só por causa do problema, não é paralisando frente a um obstáculo que se vence! Aliás, pouca gente conhece de onde vem a ideia do pânico. Na mitologia grega, Pã, um sátiro (uma criatura que é homem da cintura para cima e bode da cintura para baixo, ligada à proteção e preservação das florestas e bosques), tinha uma "arma" especial que ele usava contra aqueles que ameaçassem a natureza e a continuidade da vida: gritos paralisadores! Gritos horríveis que causavam no oponente um medo tão majestoso que ele se paralisava! Em outras palavras, os gritos de Pã causam pânico. Tenha em mente, Natália, que a pessoa com síndrome do pânico funciona como alguém que ouviu um grito de Pã, em algumas ocasiões, ela fica paralisada, simplesmente não consegue dar o próximo passo. Não é "frescura", como alguns dizem. O medo e os sintomas físicos são bem reais, estão mesmo lá (a ponto de dificultarem a continuidade da vida normal). Os amigos e familiares podem ajudar a pessoa a dar os passos que precisa, com paciência e respeitando os limites dela. Mantenham uma atitude disponível, para o caso da pessoa precisar conversar, precisar de ajuda com algo do dia a dia, ou mesmo para emprestar à pessoa que sofre de síndrome do pânico um olhar mais realista. Muitas vezes o pânico dos deixa com uma visão um tanto parcial dos fatos. Para entender, basta pensar sobre os medos que todos nós sentimos ao longo da vida, muitos deles são os chamados "medos irracionais", são infundados (como o medo do escuro das crianças). Para o paciente com síndrome do pânico, alguns obstáculos parecem muito maiores do que na realidade são. Então é preciso dar dados de realidade à pessoa, como contar a ela a forma como você, que não sofre da síndrome, percebe a situação a ser enfrentada (seja a situação algo complexo como um desafio profissional, seja algo simples - algumas pessoas têm crises em situações da vida diária, como o trânsito carregado, lugares mais cheios como um supermercado, ou até nos momentos de solidão em casa). Cabe que os amigos emprestem o olhar realista e contem à pessoa que, se seguir com o tratamento e se envolver o máximo possível nele, os resultados serão muito bons. Cabe ainda lembrar a pessoa sobre as referências de sucesso dela, isto é, de todos os desafios que ela já enfrentou e venceu, pouco importa se for algo grandioso ou algo simples como conseguir andar de bicicleta quando era pequena mesmo com todos dizendo que ela cairia. Nossa psique não registra tanto o "o que", e sim o "é, consegui antes e vou conseguir outra vez!", o padrão de comportamento e pensamento. No mais, a melhor ajuda de amigos e familiares que alguém com síndrome do pânico (ou com a questão que for) pode  receber é a certeza de que existem pessoas queridas e especiais na vida dela, que se importam e que estão junto com ela nos momentos divertidos, mas que também continuam lá para elas nas horas difíceis.

E se você tem (ou desconfia ter) síndrome do pânico, não deixe de buscar ajuda. Ajuda profissional, claro, mas conte também com seus amigos mais próximos, com sua família... Isso faz uma grande diferença, pacientes que percebem que existem pessoas queridas ao lado deles nesses momentos têm um processo mais rápido e intenso. Não é vergonha nenhuma estar passando por essa situação, e os verdadeiros amigos estão sinceramente preocupados e interessados em ajudar. E lembre-se: você não é o problema, você está apenas atravessando-o neste momento. E toda travessia é mais tranquila em boa companhia pois no final, saem todos transformados.



Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

2 comentários:

  1. Adorei a proposta do blog. Nunca conheci de perto alguém com sindrome do Panico, mas o pouco que conheci de uma colega de trabalho (que ficou pouco tempo na empresa justamente por causa deste problema) já vi que era algo sério e atordoante. Realmente o apoio dos amigos e familiares se torna essencial. Obrigado por nos ensinar mais sobre o caso.
    Abraços.
    Fernando.
    _________________________________________________
    http://anteontemmusical.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada, Fernando! Não importa se o problema é síndrome do pânico, depressão, alguma doença do corpo ou mesmo alguma dificuldade ou contratempo, quanto mais pessoas torcendo pela melhora e superação, melhor! Faz toda a diferença saber que alguém querido se importa com a gente. :)
      Bjs

      Excluir