quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Corpo, ato e aceitação - você se sente em casa?

"Não imites ninguém. Que a tua produção seja como um novo fenômeno da natureza." - Leonardo da Vinci (1452-1519), artista, estudioso e cientista italiano.

Algumas pessoas não se sentem em casa. Nem entre amigos. Nem no local de trabalho ou estudo. Nem entre a família. Nem na própria casa. Não conseguem perceber dentro de si mesmas aquele sentimento gostoso de aconchego, de poder se mostrar como se é e sem esconder nem um lado seu, de poder baixar a guarda e relaxar um pouco. Normalmente, pessoas assim carregam uma grande ansiedade, que nem sempre é consciente. Uma ansiedade que vem quando a pessoa percebe sua existência ameaçada, de forma concreta ou simbólica. É o tipo de emoção comum em pessoas que já sofreram violências, abusos, abandonos, perdas, negligências, que presenciaram os horrores de uma guerra ou situação semelhante de violência extrema, seja essa violência física, psicológica, sexual, emocional...

Quando pensamos em "sentir-se em casa", não é sobre lugar físico que estamos falando. Tanto faz se a casa é grande ou pequena, se fica na cidade ou no campo, se é simples ou muito sofisticada. O lugar do qual falamos e que nos faz sentir em casa não é um lugar físico, e sim a posição emocional que ocupamos. Algumas pessoas ocupam repetidas vezes o papel de vítima, de estrangeiro, de pessoa de fora, do diferente que não é aceito. E aí não se sente em casa. Outras pessoas ainda, até são aceitas, mas não se sentem bem-vindas e acolhidas, pois elas mesmas não se aceitam. E essa situação que se passa nas nossas emoções, no nosso mundo interior, se reflete no mundo exterior. Uma das formas de se refletir é o sentimento de não ser bem-vindo, de não se sentir aceito e integrado aos demais, de nunca se sentir em casa, como disse uma pessoa conhecida.



Vamos explorar a dimensão que falta para compreender esse tipo de situação. Pensamos no mundo interior e no exterior, mas ainda não examinamos a fronteira: nosso corpo. Você se sente em casa no seu corpo? É interessante notar que boa parte das pessoas que têm queixas sobre não serem aceitas ou não se sentirem em casa em nenhum lugar/grupo, quase sempre têm queixas sobre o corpo. Essas queixas podem ser sintomas, insatisfação com a aparência, ou mesmo algo um pouco mais sutil, como não saber lidar com o próprio corpo (o que se percebe em elementos como postura corporal, ritmo dos movimentos, sexualidade, e vários outros). Antes de pensar na aceitação, no sentimento de ser bem-vindo e de estar em casa, no grupo e nas relações, é preciso pensar o corpo. É preciso observar quais ideias, emoções, lembranças e valores estão descritos no corpo da pessoa e em como ela vive esses elementos.

O corpo é muito mais importante do que se pensa, mesmo quando falamos sobre temas "do mundo interior", como aspectos psicológicos e emocionais, espiritualidade ou valores. O corpo é a primeira tela onde o inconsciente pode projetar-se, para nós mesmos e para o outro, basta que se saiba ler os corpos. O corpo é a fronteira entre o Eu e o não-Eu, e sendo um limiar, um espaço de divisa, ele é altamente influenciado tanto pelo mundo interno quanto pelo externo. Aliás não basta pensar o corpo real. É fundamental pensar também sobre a visão que a pessoa tem do corpo - e que em boa parte dos casos, é muito diferente do corpo real. Certa vez, fazendo um trabalho corporal durante uma sessão de psicoterapia com uma criança de 8 anos, a menina foi precisa quando olhou para o molde de papel em tamanho real de si mesma e disse "não sou eu, minha mãe diz que sou uma bebezinha, como posso ser tão grande?" Apenas quando me encostei ao molde, mostrando que eu era mais alta e portanto o molde não era meu, foi que a criança se convenceu de que o corpo real era bem diferente do corpo imaginado. Isso acontece (talvez não de forma tão clara e dramática) com a maioria das pessoas. Em geral elas se descrevem de maneira bem diferente do que outras pessoas as descreveriam, muitas vezes ressaltando pontos "negativos" que os outros não notam ou ainda notam como "positivo". E, muitas vezes, em especial nos casos de pessoas com conflitos maiores, a descrição do outro é mais "gentil" do que a dela mesma. Por que?

Sentir-se em casa, sentir-se sendo parte (do grupo, da família, etc.) não é tarefa simples. Envolve sentir-se parte de si mesmo, sentir-se em casa no próprio corpo e sentir-se bem vindo na vida, ocupando o espaço existencial que nós - e apenas nós mesmos! - podemos ocupar. O outro é só um coadjuvante. Não o deixe roubar a cena.

4 comentários:

  1. Ler esse texto me doeu, me tocou e talvez tenha aberto meus olhos: quem sabe? Eu nunca me senti em casa, fui vítima de violência na infância, sou homossexual e não me aceito ... Detesto meu corpo, pois sou magro demais ... Me sinto rejeitado... nunca aceitaram minha crença espiritual : a wicca ... E tipo... Saber, ao fim da leitura, que preciso me sentir parte de mim mesmo foi um bom conselho, para que eu pelo menos possa começar a trabalhar a mudança... Obrigado por divulgar essa postagem, eu estava precisando.

    Meu Blog - http://gabrielmyslinsky.blogspot.com.br/

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    1. Que bom saber que o texto fez sentido. Eu sei como costumam doer essas tomadas de consciência... Mas nada podemos fazer para mudar uma situação que não é percebida com clareza. Já deu o primeiro passo, Gabriel. Agora está tudo pronto para construir a mudança.
      bjs

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  2. Hoje tenho 31 anos. Na infância fui molestada por um tio que tinha problemas psiquicos e era adolescente. Até hoje tenho raiva de como as pessoas ao redor não perceberam o que estava acontecendo. Sempre sofri com a falta de amor e atenção da minha mãe e na adolescência ainda convivi com um padastro que me maltratava apenas verbalmente. Era de classe média, então nunca encontrei nenhuma amiga que tivesse passado por algo parecido. Já adulta quando resolvi contar pra minha mãe sobre os abusos do meu tio, achando q ela ia pedir desculpas pela falta de atenção, só ouvi um seco "que bom que não aconteceu nada pior. Essa sensaçao de se sentir deslocada me acompanhou por toda a vida. Mas hoje em dia o blog tem me ajudado bastante. Bia, obrigada.

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    1. Que experiência mais dolorida! Acho muito triste a forma como tantas pessoas olham para os abusos em que "nada pior aconteceu" como se fossem algo normal, como se a vítima não pudesse se sentir mal. Algumas vezes essa negligência e o pouco caso partindo daqueles em que a gente mais confia, dói tanto quanto o abuso em si. Força! Agora você é adulta e a mudança está nas suas mãos. Que bom que o blog está te ajudando, se precisar, escreva. E não se negligencie, não deixe de procurar ajuda, mesmo vários anos depois, isso faz toda a diferença.
      beijos

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