quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Liberdade: a prisão sem grades

"Ser-se livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer-se aquilo que se pode." - Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo existencialista e escritor francês.

Vamos começar o artigo de hoje com um breve exercício. Gostaria que vocês listassem os desejos de liberdade. Os seus, os de conhecidos, os do povo. O funcionário que quer liberdade para desenvolver suas ideias mais criativas e originais e nem sempre tem essa permissão. O adolescente que quer a liberdade (em tantos sentidos, mas aqui quero destacar a liberdade de serem eles mesmos) que muitos pais relutam em permitir. A liberdade de ir e vir que, seja pelo medo, pela violência, por compromissos e responsabilidades ou seja qual for a situação, nem sempre é possível. A liberdade de ter os direitos civis mais básicos respeitados - e que é negada a tantos. Listou? Segure firme essa lista. Cuide bem dela. Você carrega nas mãos os sonhos e esperanças da humanidade.


Quando falamos sobre liberdade, a maioria das pessoas entende algo semelhante à possibilidade de pensar, sentir, agir e ser da maneira como escolher, sem repressões e sem controles. Claro que esta é uma definição ideal e na prática não é bem assim, temos leis, normas sociais e uma porção de elementos que cerceiam a nossa liberdade completa, e graças a isso, vivemos em sociedade. Mas vamos ficar com esse conceito mais geral, mesmo que imperfeito. Nesse sentido, se ser livre significa agir conforme os nossos próprios valores e referências, sem que outras pessoas nos ditem o que fazer, quando ou como. Assim, nenhuma outra pessoa (além de nós mesmos) é responsável pelas nossas escolhas. E aí, chegamos num ponto fundamental: não existe liberdade sem uma dose gigante de responsabilidade.

A responsabilidade é pensar de um jeito futurista, meio que "prever" o futuro. Nossa liberdade nos desperta para as escolhas. E o primeiro elemento a ter vontade de ditar alguma coisa, são os desejos e impulsos. Mas tão logo cedemos, percebemos que nossas escolhas nem sempre serão acertadas guiando-se apenas por desejos. E, se formos livres, nós é que teremos de lidar com essas consequências e dar conta delas de alguma forma. Percebemos que apenas "ter vontade" não basta, é preciso saber lidar com as conquistas e com tudo o que vier junto. Então a gente se dá conta de que muitas vezes não escolhemos aquilo que queremos fazer, e sim o que precisa ser feito e o que é esperado em determinadas situações e papéis. Não, isso não é ser falso e nem deixar de ser autêntico. Isso é ser maduro o suficiente para entender que certas coisas dependem de nós e apenas de nós, e precisam ser feitas. Começamos a criar responsabilidade conforme nos sentimos capazes de fazer escolhas e lidar bem comas consequências e resultados delas.

Mas independente das responsabilidades e de como lidamos com elas, nosso tema hoje não é este, e sim a liberdade. Lutamos tanto pela liberdade mas, mal sabemos, estamos condenados a vivê-la. Todo momento é feito de pequenas liberdades e no fundo, quem nos coloca freio somos nós mesmos. Sim, você pode largar tudo (emprego, família, cargos, etc.). Terá consequências, mas poder, pode. Temos escolhas o tempo todo e, se estamos onde estamos, foram as nossas muitas escolhas que nos guiaram pelos caminhos que traziam até aqui. Ter liberdade de escolha, até certo ponto, é maravilhoso. É muito gostoso sentir esse poder dentro de nós, o poder de criar e recriar a nossa vida, a nossa realidade e a nós mesmos como quisermos. Ter liberdade é uma delícia quando se está pronto para esse poder, quando se sabe lidar com ela de forma equilibrada, sem causar desastres aos outros ou a nós mesmos. Quando não estamos prontos (por razões como imaturidade, falta de limites, medos, inseguranças, dúvidas excessivas...), viver a liberdade é uma tormenta! Não temos ninguém que possa escolher por nós, pelo simples motivo que somos os únicos que podem agir na nossa vida. Deixar o outro tomar atitudes no nosso lugar seria, também, uma escolha: a escolha da omissão.

Como saber se estamos prontos para a liberdade? Simples. Sempre estamos prontos para alguma liberdade, de acordo com a complexidade da situação e com a maturidade que temos (o que não tem a ver apenas com a idade ou capacidade intelectual, mas principalmente com o nosso emocional). Talvez uma criança de 2 anos já possa escolher, digamos, entre brincar com um brinquedo ou outro. Uma de 5 anos talvez tenha escolhas mais práticas, como qual fruta vai levar para comer na escola ou se prefere vestir a camiseta laranja ou azul. Um jovem já pode decidir que caminhos gostaria de trilhar na vida, em suas mais diversas áreas. Alguém mais maduro e preparado para isso pode assumir responsabilidades por outras pessoas e fazer escolhas que beneficiem o todo, como é o caso dos grandes líderes. 

A questão é: como esperamos estar prontos para grandes escolhas e liberdades da noite para o dia, sem nunca ter se permitido ter as liberdades menores? Não tem muito como. Tudo na vida é um exercício, essas pequenas escolhas (como os exemplos da roupa, da fruta, dos brinquedos, entre tantos outros - do mundo infantil ou adulto) nos preparam para os próximos passos. É difícil querer estar muitos passos à frente. Cada etapa, mesmo que simples, é fundamental e não deve ser pulada. Já disseram de forma mais bela antes de mim: o caminho se faz caminhando. Para onde? Escolha. A liberdade é toda sua.

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