terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Mythos - Hera: recuperando o poder sobre si mesmo

Hera é a rainha dos deuses entre os gregos. Por isso, vamos aproveitar o gancho do mito desta semana para conversar sobre poder. Não o poder sobre o mundo que ela desfrutava sendo rainha e esposa de Zeus. E sim o poder que toda pessoa tem sobre si mesma. Para conversar sobre isso, não vamos estudar um dos muitos mitos de Hera, e sim a história dessa deusa, que acho bem interessante.

Entre os gregos, Hera é considerada a deusa do casamento. É uma deusa ligada às mulheres, não no âmbito da fertilidade ou maternidade, mas na mulher perante o mundo, perante a política e as lideranças (sejam elas quais forem). O próprio nome Hera significa "grande senhora" ou "nossa senhora", o que indica que este não era o nome da deusa, e sim um de seus títulos (numa época anterior à hegemonia grega). Quando os gregos a englobaram em seu panteão, Hera deixa de ser a senhora que costumava ser. Entre os povos pré-helênicos do sul, Hera era uma deusa tão forte e poderosa que governava sem a interferência de um homem. Ela não precisava de um. 

Mas, junto com os invasores do norte, havia um marido a caminho reservado para Hera: o poderoso Zeus, com seus raios, temperamento de líder e um certo ar de superioridade... Muitas vezes, quando analisamos a história das religiões (e para os povos antigos, seus mitos eram sua religião, que inspirava um sistema complexo de rituais e cultos), é possível notar que os casamentos entre deuses muitas vezes são fruto de alianças ou dominações entre povos. Quase sempre, no mundo patriarcal, o deus do povo dominador casa com uma deusa do povo dominado.

E assim Hera deixou de ser a grande senhora, digna, independente e soberana... para se tornar a esposa ciumenta e intrometida de Zeus! Apesar de ser a deusa do casamento, ela é constantemente traída pelo marido, e está sempre armando emboscadas para as amantes e os filhos que Zeus têm com elas. O ponto é: Hera (não vista como apenas grega, mas a Hera pré-helênica) nunca quis se casar. A revolta dela não seria por algo tão simples como uma traição conjugal, mas por algo muito mais complexo: a perda do poder que ela tinha sobre si mesma - e que as traições do marido colocam em evidência todas as vezes que Zeus a "descarta" como se ela não valesse o ar que respira.


Questões para reflexão:

1- Reúna algumas fotos suas, de vários momentos e fases da sua vida. Tenha papel e lápis em mãos. Enquanto olha com atenção as fotos, escreva uma lista com tudo aquilo que vem à mente sobre você mesmo. Tanto coisas boas como ruins, aspectos físicos, emocionais, de personalidade... Preste atenção no tipo de palavra que você usa para se descrever e para falar de si mesmo.

2- Hera foi senhora absoluta de seu povo antes de ser agregada ao panteão grego e se tornar irmã/esposa de Zeus. Se você pudesse ser qualquer coisa que desejasse, sem limites, sem obstáculos, o que você escolheria ser? O que te impede?

3- Nos mitos, Hera costuma transformar suas frustrações (por não poder dar um jeito nas traições do marido, por ter menos voz ativa no Olimpo do que gostaria, etc.) não em mágoa, e sim em revolta. Aquele tipo de revolta boa, que a impulsiona a ter um potencial de ação. E você, em que transforma suas frustrações? 

4- Você já foi desestimulado a ir atrás do que quer? Por quais pessoas? Como você reagiu? As pessoas que te desencorajavam tinham razão por ver a baixa viabilidade dos seus planos ou não? Para recuperar o poder sobre a gente mesmo, é fundamental aprender a dizer "sim" aos nossos sonhos... Mas é tão importante quanto isso saber dizer "não" para aquilo que os outros pensam que seria melhor para nós (e que nem sempre seria o mais viável ou o que nos faria sorrir), e mesmo dizer "não" para nós mesmos algumas vezes. Hera ensina aquilo que aprendeu a duras penas: sonhar é lindo, os sonhos são as bases do mundo real... mas nenhum sonho será real enquanto a gente não colocar os pés no chão e iniciar a caminhada.

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