terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Mythos - Marwe: a inveja que os outros têm de nós

Hoje vamos trabalhar com um mito africano, da região do Quênia. Vamos aproveitar para discutir sobre como lidamos quando os outros se sentem com inveja de nós por coisas ou situações que conquistamos com o nosso próprio esforço. O mito conta a história de Marwe, que não era uma deusa ou outro tipo de criatura mitológica, e sim uma pessoa comum, uma garota humana e mortal, com suas qualidades e falhas como todos nós.

Marwe era uma jovem que vivia com seus pais e seu irmão numa pequena aldeia africana. As pessoas na aldeia viviam do plantio e colheita, mas precisavam ter cuidado, pois alguns animais costumavam invadir as lavouras em busca de alimentos. Por isso, Marwe e o irmão eram responsáveis por tomar conta da plantação de feijões da família, regando, arrancando as ervas daninhas e impedindo que os macacos comessem os feijões.  Mas aquela tarde estava escaldante! O sol da África estava impiedoso naquele dia, e os irmãos se sentiam cansados e com muita sede por causa do calor. Eles acharam que não teria problema se fossem até o lago beber um pouco de água. Quando tocaram a água cristalina e fresca, foi como renascer! Não resistiram e acabaram mergulhando no lago, nadaram e brincaram para amenizar o calor. Foi tão refrescante e divertido, que eles se esqueceram por completo da plantação... Quando voltaram ao campo, surpresa! Os macacos haviam comido todos os feijões! Todos! Não sobrou um sequer para contar a história! Marwe teve tanto medo da fúria dos pais que voltou ao lago e se afogou. O irmão, desesperado, voltou para casa para contar as terríveis notícias. Os pais ficaram tão arrasados pela perda da filha que até se esqueceram das perdas no campo de feijões, que se tornou algo pequeno e sem importância.

Entretanto, ninguém sabia do que se passava com Marwe, pois os vivos dificilmente entendem o que acontece aos mortos. Quando ela entrou no lago, afundou mais e mais, até chegar às profundezas, e acabou por entrar no mundo dos mortos. Ela chegou a uma casa onde vivia uma velha sábia com seus filhos. Por vários anos, ela viveu com a velha. Ajudava-a em suas tarefas, ajudava a tomar conta da casa e da família e também conversava muito com ela, aprendendo com sua sabedoria. Mas, conforme as semanas se tornaram meses e os meses se tornaram anos, Marwe tinha muita saudade da família e dos amigos, sentia falta até mesmo do trabalho no campo de feijões nas tardes escaldantes. A velha sábia percebeu isso, ela sabia que a garota precisava estar outra vez entre os vivos. Certo dia, a velha perguntou se Marwe preferia o calor ou o frio. Sem entender, a mocinha disse que gostava mais do frio. Então a velha encheu uma bacia com água fria e fez Marwe mergulhar as mãos lá. Quando a jovem retirou as mãos da água, ela ficou maravilhada: estavam cobertas de jóias tão finas e preciosas como ela nunca sequer havia sonhado! Ela fez o mesmo com os pés e pernas, que também saíram da bacia cobertos das mais lindas jóias. Sorrindo, a velha vestiu Marwe com roupas dignas de uma princesa e fez uma profecia: Marwe voltaria da morte e se casaria com um homem que a faria muito feliz, o nome dele era Sawoye. Por fim, a velha sábia enviou a moça para a casa dos pais.

Quando Marwe chegou em casa, viva, saudável e coberta por roupas e jóias tão finas, ninguém pode acreditar! Sua família não cabia em si de tanta felicidade! Pensavam que ela estava morta há anos e, do nada, ela aparece linda e cheia de riquezas! Em pouco tempo, o povo todo da aldeia e até das aldeias vizinhas ficaram sabendo que lá havia uma moça linda, rica e solteira, e então muitos pretendentes passaram a frequentar a casa. Marwe ignorava todos eles, mesmo quando eram belos e gentis. A não ser por um deles, Sawoye, que tinha um sério problema de pele que o tornava feio, mas como a jovem já havia vivido no mundo dos mortos, sabia ler o coração das pessoas e podia ver que ele era um homem bom e que seria o melhor companheiro para ela. Eles se casaram e tiveram uma bela festa. Depois da primeira noite de casamento, a misteriosa doença de pele desapareceu, mostrando que Sawoye era, na realidade, um homem lindíssimo. Como Marwe tinha muitas jóias, o casal comprou um rebanho e, em pouco tempo, eram as pessoas mais ricas do lugar. Eles viviam felizes, mas os outros pretendentes tinham inveja dessa felicidade e, num momento de fúria, mataram Sawoye.

Mas Marwe já havia morrido, e sabia os segredos e detalhes do mundo dos mortos. Sabia, inclusive, como reviver um morto! Ela levou o corpo do marido para a casa deles e recitou as palavras que havia aprendido com a velha sábia. E Sawoye reviveu, mais forte do que nunca. Quando os inimigos retornaram para tomar as riquezas do casal, Sawoye os matou. O casal viveu feliz por muitos anos e, quando encontraram a morte, foram tranquilos e sem medo.


Questões para reflexão:

1- Este é um mito complexo, em que ocorrem muitas mudanças e transformações. Marwe sai do dia a dia normal quando uma grande crise acontece (os macacos comem a plantação - o que pode ser comparado à perda dos sonhos, daquilo que "plantamos"), e usa a crise como rito de passagem, o que é simbolizado pela morte. Para muitos povos, a morte não é um fim, mas uma transformação, o início de uma nova jornada. No mito de Marwe isso fica claro quando a jovem mergulha no lago/consciência e não teme se deixar afundar até as profundezas da psique, onde moram a completude e a sabedoria. No mundo dos mortos, a passagem é feita e, enquanto morta, morando com a velha sábia (o lado sábio dela mesma - de todos nós), ela já não é mais a menina que cuidava dos campos e nem a mulher poderosa que se tornaria mais a frente no mito. Ela, durante os anos que esteve no mundo inferior fazendo a passagem, não é nada. E, sendo "ninguém", Marwe aproveitou o momento para criar para si um novo Eu, da forma como sonhava. Aprendeu com a velha/consigo mesma e se tornara uma mulher rica e poderosa. As jóias e preciosidades que ela trouxe quando voltou a vida (quando o rito de passagem se consumou), não são outras senão as riquezas do nosso mundo interior. Quando as temos em mãos, somos capazes de tudo, somos capazes de criar rebanhos, que simbolizam uma "riqueza" que, por si só, cresce e aumenta. Examine a si mesmo e perceba quais são as riquezas que a sábia/o sábio que vive em você lhe envia. Como você as recebe, com gratidão como Marwe, com pouco caso, com receio e desconfiança ou, ainda, com ganância? Você teme ou já temeu as riquezas do seu mundo interior? Por que?

2- Outro ponto que me chama a atenção é a misteriosa doença de pele de Sawye, o marido de Marwe. As doenças de pele são associadas a problemas de contato, conflitos nas relações. E, quando ele se envolveu num relacionamento verdadeiro e preenchido de afetos construtivos, ele ficou curado! Como são os seus relacionamentos (de todos os tipos)? Qual a emoção que domina, qual a "meta" que os move? Aliás, existe movimento ou estão estagnados?

3- Vejo muitas pessoas se queixarem da inveja que os outros sentem dela, ou ainda da "falsidade" com que alguns as tratam. Vejo mais! Vejo pessoas se orgulharem de despertar a inveja dos outros! Claro que existem algumas pessoas mais invejosas, que olham para aquilo que conquistamos mas esquecem de ver o trabalho que tivemos e todos os sacrifícios que fizemos; ou pior, invejosos que querem o nosso lugar existencial enquanto pessoas! É preciso lidar com esse tipo de situação, evitando atitudes de exibicionismo visando provocar quem já sabemos ser desse jeito; estando atento a quem está de fato ao nosso lado, para quem podemos abrir o coração, em quem confiar ou não; e mesmo sugerindo a essas pessoas que se tratem quando necessário (com respeito, de forma alguma estou sugerindo mandar alguém para terapia em tom de xingamento ou de agressão, como já vi, mas com compaixão pelas dificuldades da pessoa). É importante dizer que nem tudo o que vemos por aí é realmente inveja. Muitas vezes é admiração sincera e saudável, e o suposto "invejoso" pode, na verdade, ser apenas alguém que nos vê como modelo (do que for), alguém em quem ele gosta de se inspirar. Não tem nada de errado em admirar alguém e pensar "puxa, gostaria de ser assim!", aprendemos modelando outras pessoas, mesmo depois de adultos, e mesmo que a gente nem perceba. Isso é bem diferente da atitude "se eu não posso fazer isso, Fulano também não vai poder e euzinha garantirei isso!! hahaha!!", esse é que seria o verdadeiro invejoso. É triste sentir inveja? Sim. Mas é mais triste sentir o desejo ou o orgulho de ser invejado e, sendo muito sincera, vejo por aí mais pessoas com esse desejo do que pessoas invejosas. É uma atitude emocionalmente imatura, pois para essas pessoas, não basta viver como gostam, é preciso ter platéia - e não uma platéia que a admire e apoie, mas uma que a inveje e queira o pior para ela. Por que não se permitem ser verdadeiramente amadas e admiradas? Percebo em algumas dessas pessoas que se orgulham de ser alvo da inveja alheia, um certo desejo em estar "por cima", competindo com quem elas pensam que está "por baixo" e, portanto, seriam invejosos em potencial. Seja a situação que for, quem está verdadeiramente "por cima" (se é que existe algum tipo de ranking na vida) não puxa tapetes e nem causa inveja de propósito, mas sim estende a mão e caminha lado a lado. Se a situação for essa e existir algo para ter orgulho, não seria apontar as falhas, e sim ajudar a caminhar, não ter medo de voltar quantas vezes precisar e acompanhar a pessoa como uma igual. Acredito que essa seja a melhor atitude contra a inveja.

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