terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Mythos - Vasalisa: despertando a intuição e a sabedoria interior

Hoje vamos conversar sobre um tema que muita gente pergunta: o despertar da intuição e a nossa sabedoria interior. Para isso, vamos trabalhar com um conto folclórico, que cumpre uma função bem semelhante à dos mitos, falando, por metáforas e símbolos, diretamente ao nosso inconsciente. Este é um conto típico da Rússia e de outros países do Leste da Europa, e conta a história da menina Vasalisa, que passa por um rito de passagem intenso e transformador.

Vasalisa era uma menina muito amada por seus pais. Mas este não era um dia feliz. Sua mãe estava na cama, muito pálida e banhada em suor, à beira da morte. Logo antes de fechar os olhos pela última vez, a mãe chamou a menina e lhe deu uma pequena bonequinha de pano, já meio amarrotada pelo tempo. "É para você, minha filha. Se algum dia você estiver perdida ou precisar de ajuda, pergunte à boneca. Guarde-a sempre com você e nunca fale a mais ninguém sobre ela. E lembre-se de dar-lhe de comer de vez em quando. Esta é a minha bênção." Pouco depois, a mãe de Vasalisa morreu.

Após algum tempo, o pai de Vasalisa casou-se outra vez, com uma viúva que tinha duas filhas. Embora a madrasta e suas filhas fossem gentis com Vasalisa na frente do pai, havia algo, uma maldade, uma malícia que o pai não notava. De fato, quando ele não estava as três a tratavam com pouco caso, deixando sempre para ela os trabalhos mais pesados. Elas não gostavam de Vasalisa, pois a mocinha era sempre doce e gentil, além de ser muito bonita. A madrasta e suas filhas eram, mesmo entre as três, rudes e maldosas. A situação se arrastava sem nunca encontrar um fim, pois de tão doce e solícita, Vasalisa nunca demonstrava os problemas que tinha com elas. Certo dia, elas se fartaram! Combinaram de deixar que o fogo se apagasse para mandar a menina atravessar a floresta e pedir mais à Baba Yaga (uma personagem típica da região, conheça mais sobre ela clicando aqui). Na certa a Yaga iria matá-la e preparar um ótimo assado!


Naquela noite, Vasalisa encontrou a casa fria e completamente escura. A madrasta xingou a menina e disse que sem fogo não poderiam se aquecer e nem cozinhar. "Vasalisa, apenas você pode entrar na floresta e encontrar Baba Yaga. Eu já sou uma velha e não aguentaria a viagem. E minhas filhas não devem ir porque têm medo. Só você pode pedir fogo à Baba Yaga. Vá e não perca tempo!", a madrasta praticamente enxotou Vasalisa para a noite fria.

Conforme Vasalisa caminhava, a floresta parecia ficar cada vez mais escura. As sombras, os ruídos, e mesmo o frio cortante a deixavam mais e mais assustada. Cada vez que ela encontrava uma bifurcação ou encruzilhada, pegava a boneca e perguntava "este é o caminho que preciso seguir?" A boneca respondia sempre se sim ou se não, e cada vez que encontrava o caminho, Vasalisa lhe dava um pedacinho de pão, enquanto seguia a resposta que sentia que a boneca havia dado. Ela caminhou por muito tempo. A noite se transformou em dia, o sol chegou no alto do céu e se pôs outra vez. Quando a noite já estava escura novamente, Vasalisa avistou a cabana da Baba Yaga. Importante dizer, Vasalisa sabia muito bem o quão terrível era a Yaga! Ela viajava num caldeirão, remando-o com um pilão e limpando seus rastros com uma vassoura feita com os cabelos de alguém que morreu há muito tempo! A cerca da cabana era decorada com crânios humanos, as travas das portas e janelas eram feitas com dedos e a casinha ficava sobre enormes pés de galinha, podendo mudar de lugar a qualquer momento. A maçaneta da porta de entrada era o focinho de algum animal de dentes muito afiados! Vasalisa perguntou à boneca "Essa é a casa que precisamos visitar?" A boneca respondeu que sim ao modo dela e ganhou algumas migalhas de pão. Mas antes mesmo de Vasalisa se aproximar da porta, Baba Yaga apareceu flutuando em seu caldeirão enquanto gritava "o que você quer aqui?". Vasalisa contou que o fogo de sua casa se apagou e que precisavam de uma brasa. A velha questionou a rasão dela imaginar que receberia acesso ao fogo. "Porque estou pedindo", disse Vasalisa com sinceridade. Por sorte, era a resposta que Baba Yaga esperava. No entanto, ela só receberia o fogo se cumprisse algumas tarefas antes... E tinha mais! Se as tarefas não estivessem boas, além de não ganhar o fogo, Vasalisa seria morta!

Baba Yaga estava de saída e deixou Vasalisa encarregada de lavar a roupa, varrer a casa, separar os grãos de milho bons dos estragados e preparar a comida. Se não terminasse até o retorno da Yaga, Vasalisa seria o banquete! A menina se desesperou. Ela nunca daria conta de tantas tarefas! A boneca disse que era tarde e que a jornada havia sido longa e cansativa. Sugeriu que a menina dormisse um pouco, e pela manhã poderia fazer tudo melhor. Assim ela fez. Quando despertou, a boneca havia feito tudo, faltando apenas preparar a refeição. Baba Yaga voltou para casa espantada com o capricho de Vasalisa. Jantou e deu mais tarefas: lavar mais roupas, arrumar a casa, limpar o quintal e separar milhões de sementes de papoula que estavam em um grande monte de esterco. Outra vez, a menina se desesperou, mas a boneca a acalmou dizendo que tudo daria certo. Em certo momento da noite, Vasalisa adormeceu no chão da casa e, quando acordou, foi com a voz espantada da Yaga: a casa brilhava de tão limpa, as roupas já estavam secas e dobradas e o estrume separado das sementes, como que por magia! Baba Yaga questionou como ela conseguiu fazer tudo, e Vasalisa disse que foi por saber que no final tudo acaba bem. A velha comentou o quanto ela era sábia para alguém tão jovem, e Vasalisa explicou que isso era graças à bênção que ela recebeu da mãe. Nesse momento, Baba Yaga mudou. Levantou-se, levou Vasalisa para fora, pegou uma das caveiras da cerca e a colocou numa vara. O buraco dos olhos da caveira brilhavam como fogo. "Você não pode mais ficar aqui! Vá agora e não diga mais nada, este será o seu fogo!"

Vasalisa caminhou de volta pela floresta a noite toda, correndo pelos caminhos que a boneca sugeria. Ela estava um pouco assustada com a caveira e com a luz que saia de dentro dela. Pensou até em largar lá na floresta e dar um, jeito quando chegasse em casa. Mas a caveira falou com ela, para não ter medo e seguir em frente... Conforme Vasalisa se aproximava de casa, a madrasta e as filhas viam uma luz estranha vindo da floresta. Elas não tinham ideia do que era. Pensavam que a menina havia morrido de frio ou teria sido morta por animais selvagens. Quando Vasalisa estava bem perto de casa, as três saíram e foram ao seu encontro, perguntando onde esteve por todos aqueles dias e reclamando de que estavam todo aquele tempo sem fogo. Vasalisa nem sequer respondeu ou olhou para elas, continuou andando e levou a caveira para casa, onde acendeu um fogo reconfortante após a viagem. Ela se sentia muito vitoriosa por ter sobrevivido a tudo aquilo. A menina comeu e foi dormir sem dar atenção para a madrasta ou as filhas. No entanto, a caveira manteve os olhos bem vivos nas três. E as queimou de dentro para fora durante a noite. De manhã, quando Vasalisa despertou, no lugar das três havia apenas cinzas. A menina viveu em paz a vida dela.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto de reflexão neste conto é a morte da mãe excessivamente boa. Na nossa vida, esse elemento não é necessariamente a nossa mãe ou alguma pessoa. Em muitos casos é uma situação cômoda, confortável, mas que não nos permite crescer. A "mãe boazinha demais" não nos permite ter sonhos e ir atrás deles, pois ela já nos supre em tudo... e mesmo que a pessoa sonhe ir além, correr atrás das metas (sejam quais forem) envolve riscos, sempre. E essa "mãe"/situação nunca nos permitiria arriscar tanto. Procure perceber quem, o que ou quais situações cumprem essa função na sua vida (se houver alguma). A morte dessa mãe boazinha demais mostra que estamos todos sozinhos e por nossa conta... e também que estamos livres para viver a nossa própria história.

2- A entrada na floresta é o mesmo que o mergulho no inconsciente. Não é nada fácil descer pelo inconsciente. Estamos sozinhos e num lugar assustador, cheio de caminhos que se cruzam e podem nos levar tanto aos maiores tesouros como aos piores perigos. Quando Vasalisa chega a algum lugar, é para enfrentar a sombra! A sombra é um lado da nossa psique que todos temos, pode ter características boas ou "ruins", é como um negativo daquilo que percebemos em nós, definindo em linhas bem gerais. A sombra de Vasalisa é a Baba Yaga: velha, experiente, com uma certa fama de crueldade que contrasta com o jeitinho doce e meigo da menina. Integrar nosso Eu e a nossa sombra não é tarefa fácil. Veja bem como pareciam impossíveis as tarefas que Vasalisa cumpriu na casa da Baba Yaga. Ela foi ajudada pela boneca, que também era um lado dela: a intuição e a sabedoria interior. Depois que perdemos a mãe boazinha demais, todos nós temos essa bonequinha, mesmo que esteja bem escondida lá no fundo... Ela é a nossa melhor guia quando estamos perdidos ou não sabemos o que fazer, já aconselhou a mãe de Vasalisa. Você tem o costume de escutá-la? Se sim, além de ouvir, coloca em prática aquilo que a intuição/sabedoria interior diz? E, muito importante: com o que você a alimenta? 

3- Baba Yaga manda Vasalisa de volta para casa quando ela menciona a benção que recebeu, pois isso significa que a menina conquistou o fogo - a centelha de vida, a chama do conhecimento mais precioso que ela poderia ter: confiar na própria intuição, aprender a ouvi-la e a guiar-se por ela. A caveira a acompanha no caminho de volta a casa (a realidade comum, ou mesmo o mundo externo a nós). Ela volta transformada, aquilo que antes era a causa de seus problemas (a madrasta e as filhas dela) já não significam nada, Vasalisa não as ouve mais e nem lhes dá atenção, não está disponível para elas. Durante a noite, a caveira as queima com seu olhar (o olhar sábio do inconsciente mais profundo, capaz de enxergar além de aparências ou daquilo que é dito/mostrado, enxerga as lacunas e o que é pensado, mas não dito. Esse é o olhar que transforma, "queima" e muda o estado dos elementos. Conquistar a sabedoria interior é ter coragem e ousadia de buscar o fogo, buscar a luz em meio a sombras até o ponto em que percebemos que, por mais escuras e assustadoras que sejam as sombras, a luz sempre estará dentro de nós e nos guaiará de volta a nós mesmos.

2 comentários:

  1. Oi Bia

    legal o seu texto :)
    gosto muito do conto da Vasalisa e estou trabalhando ele num grupo de mulheres, com arteterapia. Bom encontrar seu blog. Abraço!

    ResponderExcluir
  2. adorei! Parece uma mistura de cinderela e valente

    ResponderExcluir