quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Planejamento estratégico: tempo, ritmo e melodia

"Me busco em músicas que dão ritmo ao que sinto de forma silenciosa." - Martha Medeiros (1961), escritora brasileira contemporânea.

O nosso cérebro dança uma sinfonia complexa. Nosso equilíbrio físico e emocional é mantido com um balanço delicado das estruturas nervosas, glândulas e substâncias como hormônios e neurotransmissores. Tudo isso combinado com o nosso dia a dia, estilo de vida, enfim, com a realidade externa em que vivemos. Comecei com essas informações para falar sobre o ritmo e, com ele, sobre uma das funções neuropsicológicas que muito influencia a nossa vida, chamada "planejamento da ação". Vamos começar abordando esse lado mais neuropsicológico, ligado ao planejamento de movimentos para, a seguir, expandir as ideias para o planejamento estratégico na nossa vida, conforme o ritmo em que vivemos.

Ter ritmo não está apenas ligado à dança,
 mas também à melodia/harmonia dos nossos movimentos
e ao ritmo com que escolhemos viver a nossa vida
Nossos movimentos têm uma musicalidade. Pense num atleta, talvez um jogador de futebol, já que estamos em ano de copa do mundo. Seus movimentos são rítmicos, existe uma harmonia nos movimentos, uma certa leveza e agilidade, é quase uma dança. Com todas as pessoas os movimentos funcionam assim. Não apenas em esportes e danças, mas nos movimentos do dia a dia: na cozinha, caminhando até o metrô, ao digitar um texto, tomar banho, ou qualquer outra atividade diária. Aliás, nem sempre! Os movimentos só têm ritmo quando são tácitos, isto é, quando são tão conhecidos para nós, que os fazemos sem precisar pensar, no "piloto automático". Como quando caminhamos, não precisamos pensar "perna direita... e agora a esquerda", apenas vamos. Diferente de alguém que está começando, digamos, a aprender a dirigir, e precisa pensar quando mudar a marcha do carro, em que tempo pisar ou tirar o pé do freio para evitar solavancos, etc. Para que algo se torne tácito, é preciso que a gente pratique e repita muitas vezes ao longo do tempo. Assim, o ritmo e a musicalidade não se referem apenas à musica em si e à dança, mas à fluidez e harmonia dos nossos movimentos, em especial os voluntários: aqueles que "escolhemos" realizar, como caminhar, saltar, escrever, dançar... diferente dos involuntários, como as batidas do coração.

Mas o que isso pode ter a ver com o planejamento das atividades do nosso dia a dia? Muito mais do que parece. Para o nosso cérebro, a atividade principal em questão é a mesma: tanto faz planejar os movimentos de uma jogada bonita, um projeto profissional ou uma festa para o final de semana. Claro, algumas das áreas cerebrais e funções envolvidas mudam (a racionalidade, a área motora, as áreas responsáveis por emoções, entre muitas outras, são ativadas conforme o tipo de atividade), mas o que quero dizer é que planejar sempre é planejar.

Quando somos capazes de planejar algo, usamos habilidades como a percepção do todo, percepção de detalhes e "previsão", ou melhor, imaginação de todas as possibilidades que podem se desenrolar a partir do panorama percebido no presente, assim como a partir de lembranças de situações semelhantes que já aconteceram no passado (nossas referências). Por exemplo, se estamos dirigindo um carro e vemos uma bola quicar atravessando a rua, paramos quase que por instinto. Mas não foi um instinto. Muito rapidamente, o nosso cérebro se lembra de alguma situação passada, vivida ou não por nós, em que, digamos, logo depois da bola passou um garotinho correndo. A área racional do cérebro nos dirá que crianças pouco medem as consequências, em especial quando estão entretidos com algo que gostam, como jogos com bola. "Prevemos" que após a bola, é grande a chance de alguém atravessar a rua distraído, e então a área motora, rapidamente enviará um impulso ao pé para que pise no freio. Paramos a tempo de ver um menininho correr pela rua atrás da bola, provavelmente sem ter percebido o risco que correu. 

Esse vislumbre de várias probabilidades é a chave do planejamento estratégico. A pessoa levanta possibilidades de ação para cada forma como a situação poderia vir a se desenrolar. Claro, o planejamento não pode jogar com o acaso. Estratégia e acaso não combinam! É preciso que exista alguma meta, algo a ser buscado que oriente nossos passos, que dê um sentido maior ao planejamento. Em termos musicais, qual música você dança. Qual será o ritmo, como serão os movimentos. É preciso respeitar o tempo de cada ação e é preciso que as ações tenham melodia para que fluam de maneira harmoniosa.

Existe ainda, se pudermos expandir um pouco essas ideias e conceitos, o ritmo que escolhemos para viver em nossa vida. Ritmo de vida implica em ações e estratégias, mas, especialmente, implica em musicalidade e na forma como escolhemos lidar com o nosso tempo. É importante perceber o nosso ritmo. Não para correr atrás do ritmo que o mundo de hoje nos impõe, e sim para saber qual é o ritmo com o qual nos sentimos confortáveis. Certa vez, durante meu mestrado, conversei com um peregrino que me contou que, no início do Caminho de Santiago de Compostela, na divisa entre França e Espanha, ele ouviu que os brasileiros tinham fama se serem lentos ao caminhar e resolveu provar que estavam errados. Resultado: teve uma tendinite que o obrigou a ficar mais de uma semana parado e, depois disso, caminhar respeitando o próprio ritmo. Não adianta querer viver no ritmo dos outros. Algumas pessoas, mesmo que mais lentas, são mais produtivas do que aquelas mais aceleradas. Conheça o seu ritmo não para se adaptar ao que os outros pensam que você deveria ser, e sim para saber adaptar o seu dia a dia ao seu ritmo. Muitas vezes, sou uma pessoa lenta, levo mais tempo do que se espera para escrever ou ler algo, por exemplo, porque percebo que rendo melhor assim, permitindo tempos para dispersar e imaginar com calma. E, acredite, sempre que me obriguei a manter a atenção total e não dispersar, os resultados não me agradaram. Claro, sabendo disso, quando as tarefas têm prazo, sei que terei menos contratempos começando com antecedência. Foi a estratégia de planejamento de ação que desenvolvi para mim. Respeite seu ritmo, seja gentil com você. Saiba como é a melodia que você dança e permita-se ouvi-la e apreciá-la. Você pode se surpreender muito com os resultados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário