sexta-feira, 21 de março de 2014

Ágora - Sobre a paixão

Oi, Bia!
Nos falamos muito pelo facebook, mas acho muito mais clássico oficializar a minha pergunta/sugestão para o blog por meio do email!
Passei, neste último mês de fevereiro, um momento diferente, novo e incrível! A paixão! Ela veio de mansinho, como quem nada queria, pra de uma hora pra outra explodir numa gama de cores infindáveis dentro do meu ser!
Gostaria que você falasse dela um pouquinho. Das suas consequências em nossas vidas e também da sua igual necessidade à existência! 
Porque nem sempre somos correspondidos a tudo aquilo que expressamos à pessoa destinatária de nossa profunda emoção e desejo. Como lidar quando o relacionamento começa a acontecer, mas do nada as coisas acabam tomando outro viés e daí o sofrimento chega e faz morada!?! Como superar?! Quais caminhos tomar!?
Um abraço,
Luan - São Paulo, SP


Bom dia, Luan!

Muito lindo o tema que você propôs para discussão. Muitos psicólogos gostam de repetir que o ser humano é um ser que precisa viver próximo de outros. É a relação com os outros (e, por "relação", entendemos todo tipo de interação social) que nos torna, de fato, humanos. Mas ao dizer isso, gosto de acrescentar uma coisa. Não precisamos apenas da presença do outro. Precisamos interagir emocionalmente. Aí sim crescemos e nos tornamos humanos.

Pessoalmente, acho a paixão um sentimento interessante. É algo que foge do nosso controle, basta ver ou mesmo pensar na pessoa e já temos uma série de reações. Não é um sentimento que a gente possa negar ou fingir que não está lá, pelo menos não por muito tempo. De um jeito ou de outro, precisaremos lidar com ele...

Sim, a paixão tem fases. No começo o outro é lindo e perfeito. Bem, sabemos que ninguém é perfeito e que o outro com certeza tem seus defeitinhos, assim como nós - assim como qualquer pessoa. Mas, no início, não olhamos para isso. Olhamos para as qualidades... a pessoa é linda, parece nos entender como ninguém, tem gostos parecidos ou, ao contrário, tão opostos a nós que chega a encantar como um doce mistério a ser desvendado... ah! e ainda é super companheiro, nos apoia em tudo, é divertido, inteligente, entende as nossos anseios... já comentei que é lindo e perfeito?

E então, num dia qualquer, a realidade resolve nos dar um pequeno choque. Sim, ele é lindo e misterioso, é gentil, agradável e nos apóia em muitos momentos... Mas, talvez, tenha mudado um pouco. Muitas vezes, digamos, ele é calado, distante e precisa de um tempo sozinho. Provavelmente, ele sempre precisou. Nós é que só notamos agora, com o olhar mais atento. E aí, podem surgir conflitos. Será que fiz algo de errado? Será que os sentimentos dele por mim mudaram? Claro, a pessoa vai se sentindo insegura, acaba, muitas vezes, desanimando um pouco. A paixão ainda está lá. Basta que a pessoa apareça (na realidade ou nos nossos pensamentos) que a paixão aparece com toda a sua intensidade... Somos criaturas que sentem e que se apegam umas às outras.

Nesse momento, o relacionamento têm sua primeira crise. O outro não é apenas aquilo que a gente via. Nós, sob o olhar do outro, provavelmente também não. E frente a esse primeiro momento de crise, temos uma escolha importante a fazer: superá-la ou terminar. Se a crise for superada, o relacionamento amadurece e os dois crescem muito. Relacionamentos são grandes oportunidades não só de interagir com o outro, mas também de conhecer a si mesmo através do olhar do outro, repensar ideias, comportamentos, planos... Nesse sentido, pode trazer grandes crescimentos. No entanto, algumas vezes o casal se perde nesse momento. O lado recém descoberto da outra pessoa, de repente, fica mais forte que o lado que nos encantou. Em outros casos, o casal apenas ignora esse momento de crise, como se não olhando para ela, a situação fosse simplesmente desaparecer... Infelizmente, não é o que acontece. A crise negada fica no plano inconsciente, se manifestando nas nossas sombras. E, mais cedo ou mais tarde, ela voltará à tona muito mais intensa.

A melhor solução? Admitir aquilo que sentimos e que percebemos, no mínimo para nós mesmos. Sim, estamos apaixonados. Sim, de repente as coisas que caminhavam certinhas tomaram um rumo estranho. Talvez a gente se sinta perdido e inseguro, sem saber ao certo qual passo dar primeiro. Pare! Apenas pare e olhe ao seu redor. Olhe para o outro com clareza. Ele é tudo aquilo que percebemos e, provavelmente, tem características ainda não percebidas. Olhe, também, para si mesmo. Você vê, sinceramente, o relacionamento dando certo, fazendo os dois felizes? Veja que não perguntei sobre sentimentos, a questão é mais fria. Este é um relacionamento "viável"? Algumas vezes, chegamos à conclusão de que não. Estamos apaixonados, mas não é um relacionamento que nos faria realizados, que caberia no nosso momento de vida, por mais linda e perfeita que a outra pessoa seja, por mais sinceros que sejam os sentimentos. Algumas vezes, é o outro que não quer, e não volta atrás em sua decisão. Resta juntar os cacos e seguir em frente com a nossa vida. Outras vezes, no entanto, independente de ter tudo a favor ou tudo "contra", chegamos à conclusão que queremos isso sim! Precisamos do outro na nossa vida, independente de quem ele seja, de seus pequenos defeitos e da situação, às vezes, inusitada do relacionamento. Quando o caso é esse, dê o seu melhor. Supere a crise, converse, ajeitem a situação de modo a funcionar para os dois.

A paixão encanta porque altera o nosso centro, o nosso foco. E aí, toda a nossa realidade se altera, precisa ganhar novos sentidos, novos contornos e novas cores. Ao falar de paixão e amor, lembro sempre da lenda de Tristão e Isolda (que você pode ler clicando aqui). Eram dois jovens que se amavam muito e, pelas desventuras da vida, tiveram um final trágico. Termino com a mesma questão que me vem à mente sempre que penso nessa lenda: o que amamos? um ao outro ou a sensação de amar e ser amado?

Espero ter contribuído. Boa sorte para vocês, lembre-se que o melhor caminho a seguir é aquele pelo qual nossos pés insistem em nos levar, pois lá estará a nossa realização.
beijos,
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário