quinta-feira, 13 de março de 2014

Medo da intimidade e realidades compartilhadas

"Se não confiares o suficiente nas pessoas, elas não poderão confiar-te nada." - Textos taoístas.

Hoje vamos conversar sobre um assunto sugerido por uma leitora: o medo da intimidade, que se mostra, por exemplo, quando somos sinceros e contamos coisas muito pessoais a alguém, ou apenas damos a nossa opinião sobre algo, e nos sentimos vulneráveis e frágeis frente a essa pessoa.


Vivemos num mundo individualista, mais do que as gerações passadas. Esse individualismo crescente facilita inúmeros problemas, como a violência, a falta de solidariedade, o aumento da burocracia nas interações pessoais, chegando ao ponto de ver o outro como um "objeto", e não como um sujeito que, como nós, tem uma vida, sonhos, problemas... Mas vamos nos ater ao campo das relações! Grande parte das pessoas acha "normal" existir uma certa distância emocional, mesmo entre familiares ou amigos íntimos. Como se a nossa simples presença (real ou simbólica) fosse um contratempo intolerável para o outro, e vice versa. Aquela distância emocional que nos faz perguntar "está ocupado?" logo que a pessoa atende o telefone, sem parar para pensar que, caso estivesse tão atribulado assim, a pessoa simplesmente não atenderia. Ou amigos que marcam horários tão rígidos que uma simples ida a um café ganha as pompas de uma reunião de alta diretoria. Ou até, para entrarmos na raiz do problema, amigos bem próximos que se sentem desconfortáveis de "desabafar" ou contar algo mais pessoal, mesmo tendo essa vontade. Muitas vezes o desconforto vem disfarçado de atitude madura... "não quero perturbar", "não quero que se preocupem"... 

Mas na realidade, muitas vezes é o medo da intimidade o que está por trás da atitude. O problema da distância emocional é que, como diria o filósofo alemão contemporâneo Jürgen Habermas, ela cria um vazio, e ao não nos permitirmos preencher este espaço, ele é ocupado por atitudes burocráticas, deixando ainda menos espaço para o que o autor chama de "mundo da vida", que nada mais é do que aquelas relações de convivência tranquila e espontânea.

Além do individualismo, outros pontos que favorecem o medo da intimidade são algumas características da própria pessoa, como autoestima baixa, pouca confiança em si mesmo, experiências passadas ruins não superadas (como casos de violência ou abuso de todo tipo), baixa tolerância à frustração, entre outras possibilidades. Um medo que observamos é o de, ao ser sincero e se abrir com alguém, que essa pessoa "use contra nós" os nossos "segredos", as fraquezas que todos temos.

Como agir, então? Habermas responderia que é preciso reforçar e fortalecer o mundo da vida, cultivando a presença de pessoas especiais para nós, que preenchem a nossa vida com cores mais alegres que o cinza pálido da burocracia. Criamos assim, algo na contramão do individualismo, do medo e da burocracia, criamos uma realidade que faz sentido para nós e que é compartilhada com pessoas queridas. Começando bem perto de nós. Em casa, com a nossa família, com os vizinhos e amigos mais próximos. Não digo que é para "confiar em qualquer um", ou para sair por aí contando intimidades. Certas coisas sempre serão pessoais e muito íntimas, claro. Mas conforme estreitamos os laços com as pessoas próximas, nos sentimos mais à vontade para nos mostrarmos como realmente somos: no jeito de ser, na nossa história de vida, nos nossos ideais e sonhos... Estar junto do outro não é apenas estar ao lado. As pessoas só estão juntas e podem contar uma com a oura, de verdade, quando compartilham da mesma realidade, quando falam "a mesma língua" e, claro se respeitam. Não importa se falamos sobre uma comunidade, uma família, uma turma de escola, um casal, amigos... Só existe intimidade quando nos permitimos entrar no mundo do outro, ao mesmo tempo que o outro é bem-vindo no nosso e, assim, os dois mundos se tornam um.

4 comentários:

  1. Aquela hora que você se sente esbofeteado '-'
    Que isso mulher , precisa esfregar na minha cara não, HAHAHA, mentira, precisa sim. Obrigada.

    ResponderExcluir
  2. Bia, o seu texto caiu como uma luva para mim.Sinto exatamente essa dificuldade que vc descreve, por causa de situações em que fui traída por amigos. Atualmente quando preciso desabafar, recorro à minha terapeuta, mas é claro que às vezes um amigo faz falta.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É complicado voltar a confiar nas pessoas depois de enfrentar situações difíceis. Mas é preciso lembrar sempre que existe, sim, pessoas confiáveis e sinceras.
      Bjs

      Excluir