terça-feira, 4 de março de 2014

Mythos - Apolo, Dionísio, as festas dionisíacas e o carnaval

É carnaval. Uma festa conhecida pela inversão de papéis sociais, por permitir certa "bagunça" e deixar que as pessoas respirem  um pouquinho sem as regras e convenções sociais que nos outros dias todos seguimos. Hoje, aproveitando o clima de carnaval e a sugestão do meu irmão André, vamos falar de dois deuses opostos/complementares para entender um pouco essa história: Apolo e Dionísio.

Apolo é um deus civilizador. Ele é conhecido por levar o carro do sol, por isso já percebemos que é um deus responsável que nunca deixa de cumprir suas tarefas, além de ser extremamente pontual (o sol tem horários certos para nascer e para se por ao longo do ano, e isso não pode ser bagunçado). Além disso, Apolo é um deus ligado a diversas manifestações culturais, como a música e a poesia. Ele também está relacionado ao equilíbrio e à medicina (é o pai de Esculápio, deus da medicina), presa muito pelas regras e convenções, sendo a sua máxima a busca pela "justa medida", nada em falta e nada em excesso.

Da esquerda para a direita: Apolo, Dionísio e Hermes num banquete.
A peça é datada entre 350 e 330 a.C. e está no Museu Arqueológico da Espanha.
Já Dionísio é o extremo oposto de Apolo. Ele é o deus do vinho (bebida criada por ele), dos excessos e das grandes festas. Este deus (que assim como Apolo, é um filho ilegítimo de Zeus), cresceu nos bosques, entre sátiros e ninfas, num contexto muito livre, sem regras rígidas. Era cultuado também para manter a terra sagrada (existe uma ligação com Pã), através de relações sexuais nos campos com o objetivo de mantê-lo fértil. Dionísio é aquele que transcende, isto é, que vai além. Não apenas que sai deste mundo pelo excesso de vinho ou de prazeres, mas numa dimensão espiritual (para ele, não há uma divisão tão clara no êxtase alcoolico ou espiritual).

Esses dois deuses, tão diferentes, se complementam em muitos sentidos. Na esfera mitológica e arquetípica, por representarem elementos tão diferentes que, juntos, formam um todo pleno de significado. Na esfera social, em que temos Apolo como um deus muito querido pelos cidadãos gregos (mantenedor da ordem social do jeito em que está) e Dionísio como um deus adorado pelos mais pobres, pelos escravos e pelas mulheres, que não gozavam dos direitos da cidadania (pois é um deus que liberta os oprimidos, lhes dá esperança e permite ir além da situação do momento). 

Mas a complementação é ainda mais clara quando pensamos na própria cultura grega (e nos cultos, pois é do termo "culto" e "cultuar" que veio a palavra "cultura"). Importante comentar que Apolo "herdou" o Oráculo de Delfos de Gaia. Este era um dos maiores oráculos da Grécia, e muitas pessoas peregrinavam de longe para receber uma orientação nesse templo. Acontece que, durante o inverno, as sacerdotisas de Apolo se retiravam e "emprestavam" o oráculo às sacerdotisas de Dionísio, justamente na época de uma das maiores festas em honra a Dionísio. Isso, diziam os antigos gregos, era um exemplo do respeito que existia entre os dois deuses apesar de suas muitas diferenças, e deixava claro que por mais que um povo viva de forma regrada, na "justa medida" de Apolo, são necessárias épocas mais dionisíacas, épocas de respiro para que exista um equilíbrio (uma justa medida).


Questões para reflexão:

1- O carnaval, no Brasil, é um dos maiores exemplos de festa dionisíaca. Quais outras situações você se lembra de festas, eventos ou situações em que a ordem "normal" fica suspensa?

2- E na sua vida? Você tende a viver mais nas regras e no equilíbrio de Apolo ou nos excessos de Dionísio? Ou melhor, normalmente, todos tendemos a um certo equilíbrio! Em quais momentos da sua vida você vive cada um dos contextos? Lembrando que os momentos dionisíacos não significam apenas excessos e prazeres, mas tudo aquilo que caminha na contramão do dia a dia "normal", como as experiências ligadas à espiritualidade, as festas, ou até mesmo aquele final de semana mais frio em que preferimos nem tirar o pijama...

3- Se for o caso, lembre-se de alguma fase da sua vida em que viveu mais nos preceitos de Apolo ou mais nos de Dionísio. Havia algum tipo de sintoma ou dificuldade? Como você retomou o equilíbrio?

Nenhum comentário:

Postar um comentário