terça-feira, 11 de março de 2014

Mythos - Pomona e Vertumno: amor é parceria

Hoje vamos conversar sobre a percepção que temos das pessoas ou, do outro lado da moeda, a forma como nos mostramos a elas. Mas não em qualquer contexto, e sim na esfera dos relacionamentos. Para isso, vamos partir de um mito romano chamado Pomona e Vertumno.

Pomona era uma ninfa que vivia na região que hoje em dia conhecemos como a Itália. Como todas as ninfas, ela era muito bela e adorava a natureza. No entanto, enquanto todas preferiam os bosques, Pomona amava os pomares. Pomona passava o dia cuidando das vinhas e macieiras, dançava por entre as plantas e quanto mais se divertia, mais elas davam frutos doces e saborosos. Em meio a tanta beleza, graciosidade e alegria, era esperado que a ninfa atraísse para si um grande número de pretendentes. Desde camponeses, guerreiros, até heróis, reis e mesmo deuses. Pomona, no entanto, pouco sabia do amor. E, sinceramente, não estava interessada. Seu coração não queria saber de homens ou beijos... Tudo o que queria era continuar cuidando de seu pomar e maravilhando-se com seus frutos. Mas um desses pretendentes era muito insistente. O nome dele era Vertumno. 

Vertumno se revela a Pomona. Obra em mármore de Laurent Delvaux, século XVIII.
A obra está no Museu Victoria e Albert, em Londres.
Vertumno era um deus do povo etrusco (um povo que vivia na Península Itálica e sobre o qual restam bem poucas informações). Como de costume, seu culto foi adotado pelos romanos, eles sempre mantinham os cultos e traços culturais dos povos que conquistavam ou até com os quais se confrontavam. Mas vamos voltar a Vertumno, o deus das mudanças de estações, que envelhecia e rejuvenescia conforme elas passavam. Ele estava encantado com a graciosidade de Pomona. Não. Mais do que isso. Ele não podia imaginar uma vida sem ela, e a eternidade da vida de um deus é tempo demais para tanto sofrimento. Ele tentava se aproximar dela com muitos disfarces. Como camponês, pescador, soldado, dono de vinhedo, rei... Pomona não se encantava. Ela até era gentil, mas deixava claro que não queria nada com ele.

Certo dia, Vertumno disfarçou-se como uma velha senhora que passava pelos campos em busca de algumas frutas. Pomona ajudou a velha a encher sua cesta com belas uvas, maçãs e peras. Enquanto colhiam as frutas, a "senhora" contava a Pomona sobre os encantos do amor. Apontou as vinhas, que crescem numa treliça, e disse à jovem que sem a vinha, a treliça seria inútil. Ao mesmo tempo, sem a treliça, a bela vinha seria pisoteada e jamais daria frutos. Uma precisava da outra. Assim é o amor, concluiu Vertumno, ainda disfarçado como uma senhora. Isso ganhou a atenção de Pomona. E a "velha" passou a falar sobre como as árvores só dão frutas quando suas flores são polinizadas pelos enxames, e que ela não deveria desperdiçar sua juventude privando-se do amor. Contou-lhe que conhecia um certo deus das estações que a amava muito, que seria um ótimo amante e adoraria cuidar dos pomares ao lado dela. 

Pomona ficou encantada e pensativa com o que a "velha" disse. No entanto, a frustração de Vertumno só aumentava! Pomona na certa precisava de um tempinho para amadurecer a ideia, pois não havia ido procurá-lo, como ele havia imaginado. E a possibilidade dela se interessar por algum outro de seus disfarces só diminuía. Vênus, a deusa romana do amor, não podia mais ver os desencontros dos dois, e já estava prestes a interferir... Então, num momento de desespero, Vertumno foi até Pomona sem disfarce nenhum, do jeito como era. E ao olhar para ele, Pomona se encantou tanto que, por alguns instantes, até se esqueceu de suas lindas frutas. Os dois se casaram e são felizes desde então, em algum campo da Itália, cultivando a fruta mais deliciosa que podemos saborear: o amor. 


Questões para reflexão:

1- Quando um relacionamento é harmonioso, os amantes têm uma relação equilibrada, são como a treliça e a vinha, complementando um ao outro. Como é o seu relacionamento atual, e/ou como foram os anteriores? Há/havia complementação entre vocês? Quais são ou foram os resultados disso?

2- Vertumno só conseguiu conquistar o amor de Pomona quando deixou de se preocupar em mostrar uma boa imagem de si e entrou no mundo dela. Ele a conquistou quando apareceu como a velha senhora, tão interessada nas frutas e no pomar quanto ela. O amor só tem sentido quando nos toca o coração, e foi o que ele fez quando abordou o assunto permitindo-se olhar para os relacionamentos partindo do olhar de Pomona. Você consegue perceber as coisas pelo ponto de vista daquele/a que você ama? Ou tenta sempre impor o seu olhar ao outro? Não falo (apenas) sobre "grandes opiniões" políticas, filosóficas e etc., mas sobre o dia a dia mais prático. Por exemplo, em como a gente se mostra e como percebe o outro. Isso é sobre parceria, amar é permitir que o outro participe da nossa realidade e, ao mesmo tempo, é não ter medo de mergulhar no mundo do outro, de uma forma que traga crescimento para os dois. Sem envolvimento, existe o eu e o tu, nunca o nós. E sem o "nós", um casal não tem força, é apenas duas pessoas que por acaso caminham juntas.

3- Não existe amor sem existir respeito e admiração. É preciso entrar no mundo do outro e permitir que o outro entre no nosso, sim. Mas isso precisa acontecer com respeito pela pessoa e pela realidade dela. Sem forçar situações que, direta ou indiretamente, o outro deixa claro que não quer ou permite. Existe um limite muito tênue entre a insistência da conquista e a inconveniência de um assédio. Como Vertumno, é preciso saber entrar no mundo do outro, mas também é preciso saber sair, dar ao outro o tempo e o "espaço" necessário. O outro só descobre o amor quando vivencia a falta. Se estamos sempre presentes, como Vertumno no início do mito, cada hora com uma nova face, com uma novidade, o outro nunca se descobrirá apaixonado, pois nunca terá a chance de sentir a nossa falta, de pensar como seria bom se estivéssemos lá e como ele gostaria dessa parceria. Uma coisa é amor e envolvimento. Outra coisa é falta de bom senso. Parceria e união não são o mesmo que simbiose!

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