terça-feira, 25 de março de 2014

Mythos - Xamãs: ouvir o chamado e abraçar o próprio poder

O mito de hoje, na realidade, não é um mito, é um depoimento. Um xamã do povo Kwakiutl, nativo da América do Norte, contou como ele se tornou um xamã. 

Para quem não sabe, entre os povos mais antigos, a figura do xamã é fundamental. Ele atua como feiticeiro e curandeiro, seja naquilo que diz respeito à saúde, à realidade (como conseguir bom tempo, chuvas e colheitas em quantidade apropriada), e mesmo ao mundo dos deuses e espíritos. O xamã era temido e respeitado, sem ele, o povo ficava vulnerável à doenças, desastres, guera e mesmo à fúria de deuses e criaturas de outros mundos. Para que alguém se tornasse um xamã, quase sempre existiam sinais, como sonhos, doenças e sintomas misteriosos, certas características físicas ou de personalidade... Mas apenas isso não bastava! Era preciso não apenas ter a "vocação", mas também abraçar esse chamado, naquilo que muitos povos nativos chamam de "busca da visão". Era um processo muito solitário, geralmente envolvendo algum tipo de retiro ou reclusão, jejum, orações e práticas espirituais bastante rígidas. O resultado, quando bem sucedido, eram as chamadas experiências místicas (aquelas experiências em que a pessoa tem um contato direto com o sagrado, definindo de forma simples), por exemplo, visões com animais de poder, sonhos muito significativos, e até algum tipo de contato com a morte e o renascimento. 


O mergulho em si mesmo, que é o que representa esta fase, marca a pessoa para sempre. Ele não é mais uma pessoa comum, ele teve contato com realidades que os outros não conseguem ter, passa a habitar essas diversas realidades, chegando ao ponto de parecer que o mundo em que todos vivem no dia a dia é apenas mais um entre tantos - nem mais nem menos importante ou "real" que os demais. Agora vamos acompanhar o relato de um homem que passou por este processo, tornando-se um xamã. O relato foi retirado do livro "Mitologias: deuses, heróis e xamãs nas tradições e lendas de todo o mundo", coordenado por Roy Willis e editado pela PubliFolha.

"Todos nós ficamos doentes de varíola. Eu pensei que estivesse morto. Acordei por causa de todos os lobos que entraram na tenda, uivando e ganindo. Dois deles lamberam meu corpo, vomitando espuma e tentando colocá-la sobre meu corpo inteiro, retirando todas as cascas e feridas. A noite caiu e os dois lobos continuaram lá. Eu me arrastei até um abrigo de pinheiros, onde passei a noite toda. Sentia frio. Os dois lobos deitaram ao meu lado e, quando amanheceu, me lamberam todo de novo. Uma figura de um sonho mais antigo, Corpo de Arpoador, vomitou espuma e pressionou o nariz em meu peito. Ele vomitou pó mágico em mim, e no sonho riu e disse: 'Amigo, cuide do poder do xamã que entrou em você. Agora você pode curar os doentes e fazer adoecer aqueles da sua tribo que você quiser que morram. Todos o temerão'." (página 226)


Questões para reflexão:

1- Vamos começar entendendo que pouco importa se o relato do xamã aconteceu no mundo concreto em que todos vivem ou se tudo se passou em sonhos e visualizações durante uma meditação, por exemplo. Nada disso tira a realidade dos fatos: o homem se tornou um xamã e passou a ser assim reconhecido pelo seu povo. Da mesma forma, na vida da gente, nossa psique reconhece como verdadeiro tudo aquilo que lhe dizemos ser. Por isso, a primeira reflexão será perceber com quais "verdades" temos alimentado a nossa realidade. O que acontece em seus sonhos, meditações, sintomas e fantasias? Como você cria o seu mundo? Quais são as ideias e sentimentos centrais?

2- Qual é o seu poder? Entre muitas possibilidades, está o poder de escolha, o poder que temos sobre nós mesmos. Você está de posse do seu poder? Se sim, como foi a sua busca? Quais foram os desafios e o que o motivou? Se você não está, será que está ouvindo o "chamado"? Tem resistido e mesmo temido ir ao encontro de seu poder interior? Por que?

3- O xamã, em seu depoimento, descreve com clareza as fases do mergulho em si mesmo: algo acontece (no caso dele, uma doença) que o retira de forma brusca do dia a dia comum. Ele cai no sono/inconsciência, de forma tão profunda que acredita estar morto, o que também podemos ver como a morte de quem ele costumava ser antes de se tornar xamã. Então, ele está numa região de fronteira, não é mais aquela pessoa, mas ainda não se tornou xamã. Por algum tempo, ele não é nada, e sendo nada, pode se tornar qualquer coisa, tudo depende dos caminhos que se apresentam e de sua vontade e coragem para segui-los. Nesse momento, quando ele está por completo fora da realidade comum, inclusive de sua identidade, o contato com o sagrado, com as profundezas do inconsciente, acontece. Primeiro na forma dos lobos que trazem a cura, mostrando que nosso lado mais instintivo e selvagem carrega as soluções, pois mostra aquilo que somos em essência. Depois, no sonho, quando a passagem se completa: ele ouviu o chamado, continuou firme em seu caminho e se tornou um xamã. Será, então, reintegrado ao povo, agora completamente mudado, como o xamã. E, de posse de seu poder interior, um novo caminho se inicia.

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