sexta-feira, 4 de abril de 2014

Ágora - Adoção por casais homossexuais

Meu nome é Gilson, conheci o blog faz pouco tempo e queria mandar uma pergunta que ta me deixando louco. Tenho um irmão que é gay. Ele mora junto com o namorado e uns anos atrás fizeram até um almoço como se fosse um casamento normal. Eu não aceito muito porque pra mim isso não é coisa certa dois homens juntos, mas respeito porque ele é meu irmão e mesmo não sendo o que eu acho certo, sei que ele não faz nada contra ninguem por viver com outro homem se ele é feliz assim pra mim tá otimo, fico feliz por eles! Acontece que agora ele e meu "cunhado" estão querendo adotar uma criança. A gente ouve muita história por aí, confio no meu irmão mas fico assim meio estranho com isso. Até porque a criança é uma menina, tem 4 anos e é muito graciosa, parece que eles se dão bem e a adoção ta indo nos conformes. Mas fico inseguro de pensar como dois homens vão poder criar uma menina, entende? Não sou preconceituoso, fico feliz por eles, mas isso é muito novo e estranho pra mim ainda. Queria ajuda para pensar direito e entender isso.
Gilson D. - Florianópolis, SC


Bom dia, Gilson!

Muito interessante e atual essa situação que você contou. Vamos começar por partes, pois percebo dois temas diferentes e importantes no seu discurso: a homossexualidade e o casamento do seu irmão, e também a adoção por casais homossexuais. É normal a gente ficar meio "chocado" com algo que não conhece bem, mas gostei muito da sua atitude de repensar seus valores e procurar ver a situação com a mente mais aberta. Vamos lá!

Ninguém escolhe a orientação sexual. Da mesma forma que você nunca escolheu gostar de mulheres, seu irmão também nunca escolheu gostar de homens. É algo da identidade da pessoa. O casamento entre homossexuais é tão sério, válido e legítimo quanto o casamento entre um homem e uma mulher, amor é amor, comprometimento é comprometimento, leis civis são leis civis, independentemente de qualquer detalhe. 

Importante deixar claro que homossexualidade NÃO é doença, é uma característica de identidade. Isso significa que um(a) homossexual é uma pessoa tão séria, sincera e capaz como qualquer outra. Inclusive para se casar e formar uma família. Ser homossexual significa apenas que o interesse sexual do seu irmão é voltado para homens (adultos). Essa condição NÃO faz dele alguém incapaz de controlar seus impulsos sexuais, muito menos um pedófilo. Ele não vai paquerar todos os homens que ver pela frente, não vai ser grosseiro com as mulheres e muito menos molestar crianças, a não ser que tenha algum tipo de desvio (que qualquer pessoa pode ter, tanto faz o gênero e/ou orientação sexual). Da mesma forma que um heterossexual não sai por aí molestando ninguém ou sendo grosseiro, a não ser que tenha algum desvio de conduta.

Sobre famílias homoparentais (isto é, famílias cujos pais são homossexuais), acho que já é mais do que tempo da sociedade repensar e aceitar isso com naturalidade. Afinal, se somos todos iguais perante a lei, somos todos cidadãos. E todo cidadão que assim desejar e for considerado capaz pela Justiça, pode sim adotar uma criança e constituir família. Um dado para refletir: temos muitas crianças vivendo em abrigos. A vida num abrigo nem sempre é fácil - geralmente, não é. Quando o menor deixa de ser um bebê, as chances de que venha a ser adotado caem muito. Depois dos 5 anos, então, essa chance quase não existe. É muito triste que crianças não possam crescer tendo o amor e o apoio (em todos os sentidos, mas, principalmente, o apoio emocional) de uma família. 

Agora, é claro que dois homens serão, sim, muito capazes de cuidar de uma menina! Se eles têm esse desejo de ter uma família amorosa, tenho certeza que vão educar essa criança da melhor forma que puderem. Sei que sempre vai ter alguém para dizer "ah, mas criança precisa de mãe e de pai!". Não, pessoal, a coisa não é bem por aí. Criança precisa de amor, atenção, educação, cuidados... E isso qualquer pessoa de boa vontade, que se responsabilize por ela, pode oferecer. A criança precisa da função materna e paterna. Não significa que essa função, esse papel, precise ser feito por um pai e uma mãe. Podem ser dois pais, duas mães, outros parentes e, em alguns casos, até um educaror, um psicólogo, médico, vizinho ou qualquer pessoa próxima que trate essa criança com o amor que ela precisa e merece, tanto faz o gênero ou a orientação sexual de quem cumpre esses papeis. Outra preocupação que algumas pessoas têm: "e se a criança 'virar' homossexual também?" Bom, sabemos que pais heterossexuais podem ter filhos gays, héteros, bissexuais... por que seria diferente com pais homossexuais? Aliás, mesmo que a criança se descubra homossexual no futuro, qual seria o problema?

O processo de adoção, como você deve ter percebido através do seu irmão e do seu cunhado (sem aspas, por favor), é complexo e longo. Não apenas pela burocracia do sistema, mas também porque a Justiça precisa ter certeza nas mãos de quem entregará um menor que, até então, era responsabilidade do Estado. Nesse processo, acontecem diversas entrevistas com profissionais como assistentes sociais, psicólogos, advogados, além de visitas domiciliares, observação da interação entre os futuros pais e a criança, são aplicados testes psicológicos... Enfim, é um processo bem complexo. E quando a pessoa não é considerada apta, a adoção simplesmente não acontece. Por isso, se a Justiça decidiu entregar a criança ao seu irmão e ao companheiro dele, se eles trazem essa vontade de ter uma família e compreendem o papel que terão como pais, estou certa de que serão felizes e farão um trabalho fantástico na educação da sua sobrinha.

Espero ter contribuído. Felicidades à família!
beijos,
Bia


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4 comentários:

  1. de acordo com 'minha psicologia ("popular"), uma criança precisa de um pai e uma mãe, sexos opostos, para um desenvolvimento psicologico natural

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    1. Olá Herikko. Como dito no texto, no ponto de vista psicológico a criança precisa sim da função materna e paterna. Mas isso não significa que precisa ser uma mãe ou um pai a desempenharem essas funções. Não há problemas, do ponto de vista psicológico, em que uma criança seja educada por dois homens, ou por duas mulheres, ou por apenas uma pessoa. O mais fundamental é que receba os cuidados, o amor e a atenção que ela precisa e merece. É isso que forma o caráter, e não a orientação sexual dos cuidadores.
      bjs

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  2. aceitar mudanças de paradigmas científicos é relativamente fácil, mas mudanças de paradigmas sociais, levando-se em conta que esses são baseados na natureza humana, são de aceitação lenta e difícil, como exemplo a recente reação da sociedade francesa à legalidade da adoção de crianças por casais homoafetivos... até onde minha vista alcança, sou contra esse tipo de adoção

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    1. A melhor parte do mundo de hoje é que cada pessoa pode ser o que quiser sem que isso chame grande atenção, até mesmo ser a favor ou contra essas questões mais polêmicas que, até relativamente pouco tempo atrás, não eram conversadas. Acho válido o seu direito de ser contra e de discordar da prática, mas, é claro, é o seu ponto de vista e se aplica à sua vida e à sua realidade, da mesma forma como visões contrárias se aplicam à realidade dos outros que as cultivam. Não se pode impedir direitos civis a outros cidadãos apenas porque levam uma vida diferente em aspectos privados, como é o caso da orientação sexual. Claro, mudanças na mentalidade da sociedade mais ampla demoram um pouco, mas acredito que sempre vale a pena permitir que o mundo caminhe desde que isso não traga prejuízos aos demais.

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