terça-feira, 1 de abril de 2014

Mythos - Brahma: criando sua joia

Em algum momento da vida, nós todos criamos algo de especial para nós. Pode ser um grande projeto profissional, a constituição de uma família, escrever um livro, criar aquele jardim dos sonhos lá fora... Não importa o que (cada um terá suas preferências e sonhos), o que importa é algo que está por trás da situação: o ato de criar algo que preenche nossa vida com sentido. Que fique claro: não falamos de uma obra perfeita. Tudo é uma mistura delicada de luz e sombra, bem e mal, acertos e erros... talvez seja nesse equilíbrio que more a perfeição. Para nos ajudar nessa conversa, vamos trabalhar com Brahma, o deus hindu da criação do mundo. 

No hinduísmo, existe uma divindade superior a todas as outras chamada Prajapati. Esse deus não atua exatamente como uma entidade, e sim como uma força criadora. Antes dos seres humanos, animais, plantas, antes do nosso mundo e do próprio universo existir, tudo o que havia era Prajapati. Ele meditava quando uma semente surgiu em seu umbigo e brotou, desabrochando numa flor de lótus. Importante destacar que o lótus é uma flor muito simbólica nas culturas do oriente. Representa, ao mesmo tempo, a paz, a humildade e a pureza, mas também a persistência: o lótus brota nos lamaçais. Assim, podemos compreender Prajapati de forma semelhante ao universo em estado de não criação: o Caos descrito na mitologia grega e também na esfera judaico-cristã, ou mesmo a célula primordial que explodiu no Big Bang dando origem a tudo, na versão da ciência para os fatos. 

Mas voltando ao mito, dessa flor de lótus nasceu Brahma. Uma luz intensa brilhava ao redor da flor, e conforme a luz se espalhava, Brahma também se espalhava, tornando-se uma espécie de essência do poder que reside em todas as coisas. Nos mitos, Brahma viaja num cisne mágico. Esse cisne é capaz de separar leite puro da água, ensinando que bem e mal, certo e errado, enfim, todos os jogos de opostos possíveis encontram-se mesclados. Nós é que devemos desenvolver o nosso discernimento, separando o que importa daquilo que só está lá para confundir e tomar tempo e espaço. E por falar em tempo, Brahma tornou-se ainda a essência do tempo. Conta-se que um só dia para Brahma dura 4 bilhões e 320 milhões de anos para o ser humano. Os hinduístas acreditam que quando esse tempo chegar ao fim, o ciclo de criação começará outra vez, e assim se iniciará uma nova era.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar pensando no mito do nascimento de Brahma do início, quando só havia Prajapati. Tudo o que existia era o caos primordial, o lodo, ou, em termos mais atuais, a crise. É natural que as pessoas se desesperem um pouco durante uma crise. A ordem não existe, o caos impera! Mas, apesar da sensação de angústia, as crises quase sempre têm um lado maravilhoso: são um terreno fértil e cheio de possibilidades, da onde qualquer coisa pode surgir, só precisamos de concentração. Prajavati se concentrou meditando, e assim deu origem ao lótus do qual nasceu Brahma, o impulso criador. Lembre-se da última grande crise que você enfrentou ou está enfrentando na sua vida. Pode ser uma perda (de alguém querido, do emprego, de um bem...), um evento fora do nosso controle, como um acidente ou uma doença, uma crise no plano das emoções e dos relacionamentos... Não foi nada fácil. Muitas vezes pensamos em desistir de tudo e entregar os pontos. Mas algo nos faz continuar. O que seria esse "algo" para você? Sua família, suas crenças, um ideal, uma grande meta... Esse é um dos pilares que dão sustentação e sentido para sua vida. Agora, olhe para o período que seguiu depois da crise: o que foi criado, o que surgiu de novo? Um diamante só surge quando um pedaço de carvão comum é submetido à pressão e calor de forma tão intensa que ele se transforma.

2- O cisne mágico de Brahma é capaz de separar a água do leite puro. No seu dia a dia, você tem o costume de separar o que importa daquilo que apenas ocupa tempo e espaço? Em palavras mais da nossa época, você é organizado? Não falo sobre pessoas que arrumam o guarda roupas de acordo com as cores e tecidos das peças, mas sobre aquela organização mais básica, que nos permite olhar com clareza para uma tarefa ou para algo que necessita da nossa atenção sem "tropeçar" nas coisas que só estão lá por estar. Exemplo: vai estudar? Tire de cima da mesa tudo o que não é pertinente ao que está fazendo (como o celular, outros papéis, objetos...). Tem uma porção de compromissos? Organize-os numa lista ou agenda. Aquilo que só está lá para ocupar espaço e tempo, para preencher a realidade, nos tira do nosso foco. São os chamados estímulos distratores, que nos prendem com algo irrelevante e dificultam a caminhada e os avanços, são obstáculos desnecessários às nossas metas. Preencha a sua realidade com aquilo que realmente importa para você. Corte sem medo o que não é pertinente (coisas, "obrigações", situações, relacionamentos...). O máximo que vai acontecer é ter de lidar com o vazio - e preenchê-lo com algo que te dê mais realização e equilíbrio.

3- Por fim, a última informação que o mito do nascimento de Brahma nos traz, é que ele também se tornou a essência do tempo. A criação tem um ritmo, tem certa musicalidade. Isto é, a criação,  próprio universo, na visão hindu (assim como em tantas outras culturas) tem um tempo certo para começar, se desenvolver e terminar, para que então um novo ciclo comece. E na sua vida? As metas têm tempo ou prazo? É muito importante que tenham um prazo claro. Exemplo: prestar vestibular e entrar na faculdade no final deste ano e depois me formar em psicologia ao fim de 5 anos. Coloque sempre um prazo para suas metas (profissionais ou pessoais) acontecerem, ou elas nunca sairão do campo do devaneio. A realidade, concordam os físicos, é formada por um contexto espaço tempo. Portanto, as metas não precisam apenas de "espaço" no mundo e na nossa vida, elas precisam de tempo (tempo de dedicação e tempo/prazo para que se "materialize"). Apenas espaço ou apenas tempo nunca seriam uma realidade, seriam apenas uma parte sem sentido de algo maior, o caos, o lodo... Não perca sua joia em meio ao lodo.

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