terça-feira, 8 de abril de 2014

Mythos - Cronos: ser engolido pelo tempo

A ideia para escrever sobre este tema surgiu quase por acaso algumas semanas atrás. Eu estava conversando com alguns amigos quando, sufocado de atividades e prazos, um amigo meu me disse assim: "me sinto preso, me sinto como se o tempo me engolisse!" Claro, meu amigo falava em sentido figurado... Mas isso não me impediu de imaginar a cena, como num filme! E, na imaginação, o tempo era uma criatura gigantesca, que engolia meu pobre amigo sem sequer mastigar... E aí lembrei de um mito em que aconteceu exatamente isso!

Imagem: "Saturno devorando um filho",
do espanhol Francisco Goya, 1823.
Para quem não sabe, Saturno é como
Cronos ficou conhecido entre os romanos.
Estamos no mundo grego. Aliás, bem no início do mundo grego... O mundo ainda não tem deuses, tem apenas os Titãs e outras criaturas. Quando analisamos a mitologia grega, os deuses representam emoções, atitudes, situações e arquétipos (estruturas antigas da nossa psique) típicos do ser humano, como o amor, o trabalho, a guerra ou agressividade, a liderança, a maternidade, a morte... Já os titãs, são mais antigos do que isso. Eles representam forças mais básicas, que também fazem parte da nossa vida e do nosso mundo (externo e interno), mas sem ter as questões tão refinadas. Digo isso porque a conversa de hoje é sobre Cronos, o titã que representa o tempo.

Cronos é filho de Urano e Gaia ou, em linguagem atual, do Céu e da Terra. Gaia criou Urano para que ele a envolvesse por todos os lados... E juntos, tiveram muitos filhos, os doze titãs, hecatonquiros (gigantes com cem braços), ciclopes (gigantes com apenas um olho). Certo dia, Gaia olhou para a prole e percebeu que os filhos que criava acabariam por destruir a terra (a ela mesma!) e persuadiu o mais jovem dos titãs, Cronos/o tempo a castrar o pai, pois assim eles não teriam mais filhos. Cronos fez como sua mãe ordenou. O sangue e o sêmen de Urano, ao tocarem na terra/Gaia deram origem a mais criaturas. De seu sangue nasceram os gigantes, as ninfas e as fúrias. De seu sêmen, que caiu sobre a espuma do mar, nasceu Afrodite, a deusa do amor.

E assim Cronos passou a ser o líder. Ele se casou com uma de suas irmãs, que também era um titã: Réia, a energia criadora da terra. Juntos os dois deram origem a alguns dos principais deuses: Hades (deus dos mortos), Poseidon (deus dos mares), Héstia (deusa do lar e da lareira), Hera (deusa do casamento), Deméter (deusa da agricultura e colheita, assim como da maternidade) e Zeus (deus dos raios, que viria a se tornar o líder dos deuses). Acontece que Cronos tinha algo de muito parecido com seu pai. Ele temia que uma antiga profecia se tornasse realidade. Essa profecia dizia que ele seria destronado por um de seus filhos. Com medo dessa realidade, Cronos tomou uma atitude, agindo antes que o tempo (ele mesmo!) estragasse tudo: cada vez que Réia paria uma nova criança, ele a devorava. Inteira, sem sequer mastigar! 

Para encurtar a história, os deuses, que são imortais, continuaram crescendo e se desenvolvendo no estômago do pai. Réia se entristecia com essa situação, por isso, salvou Zeus, o mais jovem, e o escondeu numa caverna. Quando cresceu, uma águia contou a Zeus sobre sua história e seu destino. Ele, então, destronou Cronos e libertou os irmãos de dentro do estomago do pai (os deuses, portanto, passaram a viver fora do tempo!), assumindo a liderança. Claro que isso não foi tranquilo assim, houve uma grande guerra entre os deuses e os titãs. Nós, seres humanos, ficamos ao lado dos deuses, combatendo gigantes e outras criaturas - enfim, enfrentando os desafios da vida de cada um de nós. No final dessa guerra (titanomaquia), existem duas versões sobre o que houve com Cronos. A mais conhecida diz que os deuses o prenderam no Tártaro (o abismo mais profundo do mundo dos mortos, destinado a grandes criminosos), juntamente com outros titãs que se opuseram aos deuses, gigantes, etc., sendo que desde então eles estão presos lá e deuses e humanos vivem em segurança. Na segunda versão, originária dos cultos órficos (são cultos que vem de antigos hinos atribuídos a Orfeu, um mortal que ousou entrar no mundo dos mortos para resgatar a esposa - mas esta história fica para uma próxima vez - enfim, os cultos órficos davam grande importância à questão da morte e da continuidade da alma). Nessa segunda versão, Cronos cai em si e ele e os deuses fazem as pazes, sendo que Zeus dá a ele a Ilha dos Abençoados, uma região do mundo dos mortos belíssima, para onde vão as almas boas e nobres que conseguem ir para os Campos Elísios (algo semelhante a ideia de paraíso) por três vezes. Lá, diz essa versão menos popular, Cronos e Réia reinam e garantem uma vida cheia de paz e abundância.


Questões para reflexão:

1- Sobre o tempo: como você se relaciona com o tempo, de forma mais tranquila, ignorando, ou sempre "correndo contra o tempo"? Em que tipo de situação você se sente "engolido pelo tempo"? Como você costuma lidar com elas? Como isso se reflete no seu dia a dia e na sua vida (inclusive, se for o caso, em sintomas físicos ou psíquicos - dores, problemas digestivos, hipertensão, problemas de sono, ansiedade...)?

2- Cronos tinha medo de ser destronado por um de seus filhos. Algo semelhante já aconteceu a você? Por exemplo, na relação muito dominadora com o seu pai/figura paterna (aquele tipo de pai que de tão dominador, "devora" simbolicamente o filho) ou mesmo, na versão contrária, com os seus filhos, caso você seja pai. Lembrando que não falamos apenas de família, o papel do pai e de Cronos pode ser ocupado por outras figuras, como um grande líder, uma instituição da qual fazemos parte, o sistema social... Se for o caso, quais costumam ser suas reações a esse tipo de interação que "devora"?

3- Não podemos viver fora do tempo, não somos deuses/imortais. Estamos submissos ao tempo, gostemos disso ou não. Portanto, se queremos viver com equilíbrio, tudo o que nos resta é seguir os passos de Orfeu e fazer as pazes com Cronos. Terminamos com essa proposta de reflexão: você permite que o seu tempo passe, você caminha ao seu lado... ou você se percebe tentando "parar o tempo", aprisioná-lo no Tártaro a todo custo? Não é a toa que a doutrina órfica coloca Cronos na Ilha dos Abençoados. Uma vida justa e "nobre", ou em palavras atuais, uma vida equilibrada e com qualidade, envolve uma relação harmoniosa com o tempo, envolve aceitar e entrar no ritmo da música, sem a necessidade de acelerar ou retardar.

2 comentários:

  1. os físicos tratam o tempo como uma entidade natural, física, daí o conceito espaço-tempo; nunca prestei atenção nisso, até ler um artigo em que se defendia a idéia de que o tempo não seria uma realidade física mas meramente um conceito humano; adotei esta idéia, hoje contesto o tempo como entidade física, para mim o tempo é apenas um conceito humano, apesar de que no corre-corre diário não faz diferença nenhuma

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Verdade. Também acho fascinante esses pensamentos e teorias sobre o tempo.
      bjs

      Excluir