terça-feira, 29 de abril de 2014

Mythos – Jano: portas, passagens e escolhas

Hoje a sessão Mythos é especial. Vamos pegar carona nas aulas de história da professora Cleonice Cordeiro, lá de Recife. Ela me contou que tem usado alguns dos mitos publicados no blog com seus alunos de 8º e 9º ano, que estão estudando civilizações antigas. Como já falei para a Cleonice, é uma grande alegria para mim que os textos contribuam para a aprendizagem e para a reflexão. Ela me escreveu contando sobre uma polêmica que surgiu há alguns dias. Alguns dos alunos disseram que não entendem porque os mitos romanos são tão parecidos com os gregos e, mesmo assim, a gente diz aqui no blog que os mitos são diferentes. E fizeram um desafio: gostariam que eu contasse um mito que seja apenas romano.

As cidades romanas tinham "portas" como essas. Em muitos lugares, essas portas ainda são usadas, sobre ruas ou passagens para pedestres. Repare como a parte de cima é um arco, uma técnica de arquitetura que dá firmeza e sustentação. Repare também na grossura das paredes antigas... Quem está abaixo da porta, não está nem dentro nem fora, está nos domínios de Jano.

Confesso que foi um belo desafio! Para começar, vamos entender esse negócio de mitos iguais, parecidos ou diferentes. O povo romano tinha um costume que acho bem interessante: ao invés de apenas destruir quase por completo a cultura dos povos que dominavam e impor os costumes e crenças deles, eles faziam o oposto, incorporavam na própria cultura alguns elementos dos povos conquistados, por exemplo, técnicas de arquitetura e medicina, estratégias militares, pratos que consumiam e, claro, crenças e mitos. Ah, Bia, pegamos você! Os mitos são os mesmos! Não, nada disso! Porque mesmo que tenham ficado muito parecidos, a forma de contar e de ouvir/entender/sentir o mito, mudava. Saía dos olhos gregos e ganhava o olhar romano. Mesmo que os povos fossem quase vizinhos, o olhar e o comportamento frente a um mito mudava, pois povos diferentes têm culturas, costumes e valores diferentes. Um exemplo do mundo de hoje: a história da chapeuzinho vermelho, que tantas crianças gostam. Uma criança que mora numa grande cidade, sem florestas ou lobos por perto, vai olhar para a historinha de forma bem diferente de uma criança que vive num campo cercada por florestas e animais nem sempre amistosos... Ou então os mitos sobre deuses do sol, enquanto em lugares frios os deuses do sol são bondosos e paternos, pois aquecem e permitem a vida em meio ao frio, nos lugares mais quentes e áridos, o deus solar com muita frequência é associado às dificuldades e castigos, à dureza do dia a dia. Assim é entre gregos e romanos, mitos bem parecidos, mas com o olhar bem diferente em alguns pontos, levando em conta que essa era a religião desses povos, a forma de cultuar, digamos, Zeus, não é exatamente igual e nem terá o significado igual ao do culto a Júpiter. Também aqui no Brasil de hoje, quando contamos esses mitos, damos o olhar típico do nosso estilo de vida em alguns pontos, transformando os mitos novamente. Assim, os mitos não são os mesmos porque eles têm vida, eles se formam e se transformam conforme faça sentido a cada realidade, de acordo com os valores, com a necessidade e a realidade de cada povo em cada época.

Jano era representado com dois rostos, cada um
olhando numa direção. Isso simboliza as dualidades e
os jogos de opostos (entrada - saída, começo - fim, etc.)
Agora, vamos ao mito de hoje, atendendo ao pedido da garotada que estuda com a professora Cleonice, um deus apenas romano: Jano. Este foi um deus que surgiu logo no início da civilização romana, por isso a maioria dos estudiosos de mitos concorda que quase não houve influências diretas de outros povos. Importante: nenhum povo vive sem ter influência de outros, simplesmente porque nenhum está sozinho no mundo! O que podemos pensar é que o deus Jano teve pouquíssima influência de outros povos. Este é o deus das portas, mais precisamente, dos batentes e daquele arco que existe acima das portas romanas. O que isso significa? Este é o deus das passagens! É o deus que rege aquele momento em que não estamos nem dentro e nem fora, nem no antes e nem no depois. Quando estudamos ritos de passagem, chamamos esse momento/lugar de limiar. Por exemplo, vamos imaginar que um de vocês, estudantes, sigam os passos da professora e se torne, também, um professor. No momento da formatura (um “ritual” do mundo moderno), essa pessoa não é mais estudante, mas ainda não se tornou professor. Apenas ao fim do “ritual”, da passagem, é que será reconhecido assim. Jano representa isso. E por estar lá na passagem, no momento de transição, ele representa passado e futuro, entrada e saída, fins e novos inícios. Esse momento de atravessar a porta, da passagem, é um momento chave (sem ironia!): é o momento em que temos a chance de mudança, de transformação, e por isso, de fazer escolhas.


Questões para reflexão:

1- Para os alunos da professora Cleonice (mas os demais leitores estão convidados a se juntarem a nós!): estudar mitos se torna muito mais interessante e ganha um sentido especial quando a gente consegue perceber aquilo que eles nos trazem no nosso dia a dia. A fase em que vocês estão, a adolescência, é marcada por muitas escolhas e passagens, por isso escolhi o mito de Jano. Nem sempre as escolhas são fáceis e tranquilas. Quais escolhas você costuma fazer no seu dia a dia? Quais você acredita que sejam as escolhas mais importantes da fase em que está vivendo? É fácil pra você lidar com escolhas? Por que?

2- Falamos sobre essa diferença de pontos de vista entre gregos e romanos. Mas para pensar nisso, nem precisamos ir tão longe e voltar tanto assim no tempo! Lembre-se de um momento que você passou com outras pessoas: qualquer momento, pode ser um dia na praia com os amigos, a visita aos familiares que moram em outra cidade, o almoço de ontem... Agora conte o momento com suas palavras, sem tentar ser “neutro”, pode dar o seu colorido à história. Feito isso, é a vez de quem também viveu o momento contar a versão dele, com o colorido dele. Quais foram as diferenças? Assim como a versão grega dos mitos é marcada por uma busca pelo equilíbrio, a versão romana muitas vezes é marcada pela conquista. Qual foi a marca da sua versão ao contar a história que você viveu? E qual foi a marca deixada na versão da outra pessoa? Foi o mesmo acontecimento? Sim e não. Numa realidade maior, sim. Na nossa realidade pessoal, não.

3- Uma vez que Jano é o deus das passagens, vamos pensar sobre elas. Você passou ou está passando por um momento de mudança? Em qual ou em quais áreas da sua vida? Se pudesse abrir a porta que levaria para a sua realidade ideal, como seria essa realidade? Descreva do jeito mais detalhado e vivo que puder. Agora: você faz escolhas (grandes ou pequenas) que te aproximem dessa realidade ideal?


DESAFIO: Para os alunos da professora Cleonice, já que me desafiaram, tomei a liberdade de desafiar também, fazendo a proposta de uma atividade diferente. Claro, todos são bem-vindos e podem tentar também. Por algum tempo, sejam romanos! Pesquise alguns costumes e procure vivenciá-los. Como era ser romano? Como um garoto ou garota da Roma antiga entenderia e viveria o seu dia a dia no Brasil dos dias de hoje? Quais as maiores diferenças e semelhanças? A gente entende de verdade o outro quando consegue se reconhecer no olhar dele. Tanto faz se esse "outro" for um romano antigo, alguém da nossa família, um morador de rua, um grande líder ou aquele colega com quem não conversamos tanto...

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