terça-feira, 15 de abril de 2014

Mythos - O livro de Thoth: lidar com o desconhecido

Hoje temos um mito egípcio que envolve o deus Thoth, o deus lua, representado como um homem com cabeça de íbis. Ele é o deus do conhecimento, em especial o conhecimento secreto e a magia. Os egípcios foram um dos poucos povos a associar a lua a um deus e não a uma deusa. No entanto, o deus Thoth será apenas um elemento do cenário do mito de hoje. O discurso, a ação em si, está nas mãos de um mortal: um príncipe egípcio chamado Setna Khaemwese, filho do faraó Ramsés II.

Certo dia, Setna descobre que existia um livro que fora escrito pelo próprio Thoth. Ficou tentado a tomá-lo para si... quantos conhecimentos secretos deveriam existir no tal livro! Diziam as pessoas que os conhecimentos do livro de Thoth dariam grandes poderes a quem lesse o tal livro, como controlar os mares, ter poder sobre o céu e a terra, olhar para o sol sem fechar os olhos, aprisionar a morte... Estava decidido, ele precisava do livro! O príncipe soube que o livro estava escondido numa tumba próximo à cidade de Menfis. Importante contar: os egípcios, como a maioria dos povos antigos, tinham um respeito muito grande pelos mortos. Os mortos não eram apenas pessoas que deixavam de existir, e sim almas que se abriram para a existência em maneiras e contextos que os vivos só poderiam supor.

Enfim, o príncipe Setna rapidamente juntou alguns pertences e partiu para Menfis, uma cidade onde o culto aos mortos era bastante forte. Depois de muito perguntar e insistir, Setna saiu da cidade e encontrou a antiga tumba no local onde lhe haviam indicado. Mal se aproximou, foi abordado por fantasmas. Eles estavam surpresos de encontrar um vivo entre eles e fizeram de tudo para impedir o rapaz de profanar a tumba. Contaram que Thoth os matou por haverem tentado se apoderar do livro. Usaram truques e técnicas que apenas os mortos e quem lidava com eles podiam conhecer, para atrasá-lo e dificultar seu caminho. Argumentaram que, se ele roubasse o livro, seria castigado também. Mas Setna não ouvia, ele era um príncipe, moldado pelo próprio Ptah (um antigo deus criador) em ouro e preciosidades, assim como os deuses. O príncipe derrotou os fantasmas, profanou a tumba e tomou o livro de Thoth para si.

Mal deu alguns passos para longe da tumba profanada, Setna encontrou uma mulher lindíssima! Seus cabelos eram brilhantes e sedosos, a pele morena parecia feita de ouro... Ela o seduziu, mas antes que ele pudesse sequer tocar nela, a moça disse que só ficariam juntos se, antes, Setna entregasse a ela toda a sua fortuna e matasse seus próprios filhos. Cego de paixão e tentado pelos poderes do livro, ele concordou e assim fez. No entanto, assim que se abraçaram, a linda moça se desfez no ar como vapor e Setna se viu sozinho. Os filhos estavam vivos e bem. A fortuna estava como sempre esteve. A mulher era, também ela, um fantasma que se divertia usando seus truques nele e o assustava jogando com os poderes do livro. De acordo com os antigos egípcios, Setna foi sensato: voltou a Menfis e devolveu o livro à tumba.


Questões para reflexão:

1- Nos mitos, lendas e histórias de ficção, o desconhecido assume diferentes formas: espíritos e seres sobrenaturais, monstros, situações arriscadas e ameaçadoras. Claro que no nosso dia a dia não é bem assim... Muitas vezes o desconhecido se mostra na forma de sintomas, de sonhos que nos causam uma certa angústia, de planos que temos mas aos quais não sabemos ao certo como chegar, em situações de crise, nas perdas de todo tipo, enfim, na nossa própria sombra. Faça um desenho, uma modelagem em barro ou massinha, uma colagem, enfim, algum tipo de manifestação artística com o tema "o desconhecido". Dê um título e três características. Este é um primeiro passo para trazer o desconhecido para a luz da consciência. Por que trabalhamos com a arte? Para fugir das "armadilhas dos fantasmas", ou melhor, da censura que a gente se impõe nessas ocasiões sem sequer perceber.

2- Por que você acredita que Setna preferiu devolver o livro à tumba? Limpando a situação dos fatos do dia a dia, nos restam os valores, desejos e motivações inconscientes. E você, se tivesse a chance de colocar as mãos num livro que desse "poderes" infinitos, o que escolheria fazer? Por que?

3- O desconhecido pode assustar, e isso não é vergonha nenhuma, muito menos sinal de fraqueza! No mito isso fica claro não só quando a tumba é vigiada por fantasmas ao invés de guardas, mas também quando a mulher/espírito tenta seduzir Setna e o convence a fazer coisas que jamais faria. Na vida real, como você reage ao contato com o desconhecido em sua vida? Quais pontos te assustam e como você lida com eles? 

Nenhum comentário:

Postar um comentário