quinta-feira, 15 de maio de 2014

Demonstrações de carinho

O artigo de hoje seria, a princípio, sobre demonstrações de afeto, mas resolvi mudar para demonstrações de carinho. Não, não é a mesma coisa. Afeto, para os psicólogos, é tudo aquilo que nos afeta, não apenas sentimentos “bonitos” como muita gente pensa. Portanto, a raiva, as mágoas e frustrações da vida também são afetos. No entanto, nosso foco hoje são os chamados afetos positivos, como o amor, a amizade, o sentimento de estar feliz por alguém querido... e, aqui no texto, vamos chamar esse tipo de afeto de “carinho”.

Tudo explicado, vamos à conversa! Acompanho muitas pessoas dizendo por aí o quanto gostariam que alguém (seja alguém específico ou alguma pessoa maravilhosa que apareça na nossa vida) demonstre carinho por elas, no dia a dia mesmo, não necessariamente dentro do consultório, mas em conversas com amigos, nas redes sociais, na convivência com colegas. Ouço queixas do tipo “sei que Fulano sente algo por mim, então porque não demonstra?” ou ainda, o oposto: “sinto algo, mas não sei bem como mostrar isso para a pessoa”. Aí vai uma notícia boa para essas pessoas: mesmo sem perceber, desde que o afeto exista, a pessoa sempre demonstra.

É raro encontrar pessoas que, de fato, guardam seus afetos para si mesmas, e geralmente em casos assim, elas nunca guardam por completo. O que acontece é que muitas vezes essas pessoas um pouco mais fechadas demonstram suas emoções de forma inconsciente, com pequenos comportamentos que passam despercebidos até mesmo para ela, ou ainda demonstram de formas que a outra pessoa não compreende. Portanto, mais do que pessoas “frias”, o que temos são falhas de comunicação.

A interação com o outro acontece no diálogo, através da linguagem. Sei que quando digo isso, quase sempre as pessoas pensam em linguagem falada ou escrita. Mas a linguagem que usamos para comunicar emoções e desejos é muito mais profunda do que isso. Envolve gestos, posturas corporais, olhares, atitudes e comportamentos, sintomas (em alguns casos, claro), entre tantas possibilidades. Aliás, mesmo que a gente pense apenas na linguagem das palavras, teremos aí dados como o tom de voz, o volume mais alto ou mais baixo, a própria escolha de palavras...

Quando os afetos são recíprocos (seja numa relação de casal, entre pais e filhos, entre amigos, etc.), geralmente a confusão começa porque no mundo em que vivemos, desde crianças não somos encorajados a dar atenção aos pequenos sinais que o outro nos dá, somos ensinados que apenas a linguagem, no sentido mais racional e literal, é o que conta, e isso não é verdade. Além disso, deixando de lado as demonstrações que envolvem palavras ou gestos mais claros (como abraços e beijos), as pessoas tendem a demonstrar aquilo que sentem de acordo com seus valores pessoais. Por exemplo, alguém que valoriza o cuidar e proteger as pessoas que ama, demonstrará que se importa e sente algo através de atitudes que envolvam isso (o que, se a pessoa tiver, digamos, valores ligados a individualidade muito fortes, poderá ser sentido como um comportamento “grudento” e sufocante). Da mesma forma, quem valoriza conhecer o mundo interior do outro, talvez demonstrará seus afetos através de conversas, por exemplo, mesmo em assuntos que, para outras pessoas, pareçam ser algo um tanto aleatório. A pessoa que valoriza a liberdade, talvez demonstre seu carinho encorajando o outro a ser mais independente (o que, se esse outro for alguém que valoriza a segurança e uma vida mais estável em diversos sentidos, pode ser interpretado de maneira errada, não como uma demonstração de afeto, mas como um sinal de que “Fulano nem se importa comigo”, e até como implicância). Enfim, claro que na vida real as coisas não são tão fixas, a mente e os comportamentos podem ser bem complexos e ter motivos um tanto misteriosos num primeiro olhar.


Uma possível solução para esse tipo de embate, é ser mais claro. Não apenas com o outro, mas com a gente mesmo, tendo consciência daquilo que sentimos pelas pessoas com quem convivemos. Assim, será possível se organizar internamente para ser claro também com a outra pessoa. Nem todos amamos da mesma forma, e nem todos nos sentimos amados da mesma forma. Pais que têm vários filhos talvez percebam isso bem ao reparar que um filho é mais dado a abraços, o outro a intermináveis conversas e outro, talvez, prefira demonstrar e receber carinho através de pequenos gestos e mimos. O mesmo ocorre entre amigos, casais ou qualquer tipo de relacionamento. Para terminar, um lembrete: nunca trate as pessoas de forma aleatória. Procure conhecê-las, perceber o que gostam e o que valorizam. Assim, será muito mais fácil “falar a mesma língua”.

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