terça-feira, 20 de maio de 2014

Mythos - Ajayos e a visão peruana da morte: o que é mais fundamental em nós

Hoje vamos conversar um pouco sobre a forma como os povos andinos viam a morte, visão que, após a colonização espanhola, se mesclou a elementos do cristianismo e sobrevive até hoje entre os nativos de países como o Peru. Pensar sobre a morte é fundamental para compreender a forma de levar a vida e a visão de mundo de um povo. Costumo dizer que muitas coisas valem a nossa vida, como a convivência com pessoas queridas, atividades de lazer, um trabalho estimulante, entre tantas possibilidades que a vida nos oferece. Mas o que vale a nossa morte, o nosso sacrifício? Quando questiono isso, geralmente reparo que o sorriso desaparece do rosto da pessoa e a conversa ganha tons mais sóbrios. O que vale a nossa morte? Na certa, algo ou alguém que dê algum sentido especial ao tempo que vivemos até então.


Para os povos dos Andes, todas as pessoas têm duas almas, Athun Ajayo e Jukkui Ajayo. Athun é a alma que dá às pessoas uma consciência, uma forma de ser, de perceber e de agir. É criada por Pachamama e sobrevive após a morte do corpo. Já a outra alma, Jukkui, é alma que nos dá o equilíbrio entre o corpo, mente e Athun. Jukkui também cuida da imunidade e, segundo acreditavam, deixa o corpo durante o sono, transmitindo as impressões que teve na forma de sonhos. Os povos andinos acreditavam que sem Jukkui, a pessoa ficaria desprotegida e vulnerável a todo tipo de doença.

No momento da morte, acreditava-se que as duas almas deixavam o corpo, mas pairavam sobre ele durante três dias. Então, ainda na primeira semana após a morte, Jukkui Ajayo partia para sempre. Quanto a Athun Ajayo, acredita-se que vá e volte do mundo dos mortos. Essa alma é a consciência da pessoa, podia levar a alma de uma pessoa viva com ela para se casar no mundo dos mortos (por isso, não se aconselhava a pessoas solteiras que se aproximassem de cadáveres), Athun podia voltar para visitar os vivos, inclusive. Após a colonização, passou-se a crer que os Athun dos mortos voltavam em especial entre as festas cristãs de todos os mortos (1º de novembro) e de finados (2 de novembro). Nessa ocasião, os mortos são muito celebrados e lembrados por esse povo, acreditam ser possível conversar com os Athun de parentes e amigos já falecidos e dar-lhe presentes.


Questões para reflexão:

1- Jukkui Ajayo é a alma que nos mantém protegidos contra doenças e nos mantém em equilíbrio, garantindo a nossa vitalidade. E para você, o que mantém a sua vitalidade? Quais os elementos mais fundamentais para que você se mantenha vivo e equilibrado? O que te desequilibra e o que você faz para preservar ou recuperar esse equilíbrio?

2- Jukkui atua também nos sonhos. Sendo a função maior dessa alma a saúde e a vitalidade, o fato de que ela atua em sonhos ganha contornos interessantes. Podemos pensar que os sonhos eram vistos como algo que tem um papel especial no nosso equilíbrio. De fato, pesquisas da área das neurociências apontam que pacientes com distúrbios ou disfunções que os impede de sonhar têm graves problemas de saúde, inclusive afetando o sistema imunológico. Que fique claro, não é o caso das muitas pessoas que apenas não se lembram de seus sonhos. Mas o que eu gostaria de conversar neste ponto é, tendo essas informações, qual o lugar dos sonhos na sua vida?

3- Athun é a nossa consciência ou personalidade. Pegue uma folha de papel. Pode usar lápis colorido, giz de cera ou o material que preferir. Desenhe sua personalidade, ou como diriam os andinos, desenhe seu Athun. É uma forma interessante de trazer para a consciência informações sobre nós que dizem muito e sobre as quais nem sempre paramos para pensar. Lembrando: é uma atividade totalmente livre, sem certo/errado e a ideia é a expressão livre, não a criação de uma grande obra de arte, por isso, não se reprima!!

4- Vamos pensar um pouco nas pessoas que conhecemos e que já morreram. A personalidade dessas pessoas sobrevive nas memórias dos vivos. Naquilo que conversamos, naquilo que vivenciamos juntos, nos planos que fazíamos... E é comum, frente a uma perda, ter a sensação mais ou menos clara de que todas essas lembranças e experiências morreram um pouco também, porque agora somos os únicos a tê-las. Certa vez, uma mãe já bem idosa me trouxe os dentes de leite do filho, que havia morrido ainda criança. E ela disse algo que me fez pensar e que eu gostaria de compartilhar para que vocês também refletissem. O menino morreu de forma inesperada e trágica, sem deixar grandes feitos, ou mesmo lembranças como fotos. Tudo o que aquela mãe tinha, e que mantinha viva a memória do filho, eram aqueles dentinhos de leite e o amor que nutria por ele. Então, depois de me mostrar os dentes em silêncio, como quem está diante de algo sagrado, aquela mãe me disse que agora o filho estava um pouquinho mais vivo, porque eu também sabia sobre ele e sobre sua história. Como você lida com as memórias de todas as pessoas que você conheceu já se foram?


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