terça-feira, 6 de maio de 2014

Mythos - Indra, Gautama e o elefante: a verdadeira amizade

Havia na Índia, um sábio chamado Gautama. Ele vivia na floresta, distante dos grandes reinos e até mesmo das pequenas vilas. Certo dia, durante uma caminhada, Gautama encontrou um bebê elefante, órfão, faminto e muito triste. Comovido, o sábio levou com ele o elefante, deu-lhe alimento, tratou dele, fez companhia... Os anos passaram e o elefante crescia, até que se tornou uma criatura magnífica! Gautama e o elefante se tornaram bons amigos, um fazendo companhia ao outro na solidão da floresta.

Acontece que os deuses gostam de olhar para a terra e observar os mortais e o andamento das coisas. Em especial, Gautama e o elefante chamaram a atenção de Indra, o deus dos céus. Esse deus é, na cosmovisão indiana, aquele que dá a vida. Ele vive no céu mais elevado, tem um arco e o relâmpago, com o qual anuncia as chuvas e combate os inimigos. Indra é o deus de mil olhos, aquele que tudo vê e que testa o coração dos sábios e poderosos. Enfim, retomando o mito, Indra se disfarçou como um rei mortal e desceu até a terra. Entrou na mata densa e caminhou até a cabana onde o sábio Gautama vivia com o elefante.

– Quero este elefante. – Pediu o rei. – Não é justo que ele pertença a um homem simples como você, esta criatura magnífica é digna de pertencer a um rei poderoso como eu.

– Não posso dar o elefante. – disse Gautama. – Ele não é minha posse, mas sim o meu amigo mais querido.

Indra disfarçado como o rei, não se deu por contente. Tentou comprar o elefante. Ele oferecia a Gautama uma quantidade incrível de ouro e riquezas, oferecia terras, o amor de lindas mulheres, rebanhos e todo tipo de coisa que ele poderia querer. Mas Gautama sempre negava e dizia que nunca poderia vender algo que não lhe pertencia, não poderia vender o amigo que viu crescer, que lhe fazia companhia a cada dia, o amigo com quem ia buscar água e procurar comida, enfim, a criatura com quem compartilhava cada momento de sua vida. Até que Gautama quase perdeu a paciência com tanta insistência:

– Eu não poderia vender ou dar o elefante nem mesmo se vossa majestade fosse até a terra de Yama (a morte) e me levasse junto. A amizade que me une ao elefante não permitiria que a gente se separasse nem mesmo dessa forma.

– Mas apenas os pecadores e os escravos de seus desejos descem ao mundo dos mortos. – respondeu o “rei”, ainda testando o sábio.

– Eu não concordo. Existe muita verdade e sabedoria a ser encontrada na terra dos mortos. Lá, todos são iguais, os fracos e os fortes, os ricos e os pobres, não há ninguém que seja mais poderoso que os demais e, por isso, tudo se torna possível. – Gautama argumentou com paciência.

– De todo modo, não posso entrar nos domínios de Yama. Mas e se o próprio Brahma (o princípio criador na mitologia da Índia) ordenasse que você me desse o elefante?

– Isso nunca poderia acontecer! – riu o sábio. – Porque Brahma foi quem criou tudo. Ele ama e conhece suas criações. Para ele, o poder de um rei não tem significado. Mas o poder do amor que sinto pelo meu amigo elefante tem, porque é sincero. O poder da amizade, do amor e da fidelidade são maiores que qualquer riqueza, armas ou qualquer coisa no mundo. – A esse ponto, Indra já estava impressionado, mas Gautama continuou: - Eu sei quem você é. Você não é um rei, você é Indra, aquele que testa os sábios.

Indra ficou tão satisfeito com o sábio de coração justo que concedeu a ele qualquer pedido. Gautama pediu para estar sempre com o elefante. O deus disse que o sábio não precisava pedir mais sabedoria, pois já a possuía, e nem precisava pedir riquezas, pois conhecia o valor da amizade e do amor, que são as maiores preciosidades que se pode ter. Gautama e o elefante viveram uma vida de felicidade e, anos depois, quando Gautama estava à beira da morte, Indra veio e levou o sábio e o elefante para o céu mais elevado.

Contam os antigos que todo aquele que conhecer essa história será abençoado, e todo aquele que contá-la será duplamente abençoado.


Questões para reflexão:

1- Qual é a sua maior preciosidade? Lembrando que não tem certo e errado, já ouvi como respostas a essa pergunta desde algo mais materialista, como “o dinheiro que apliquei em tal empresa”, respostas que envolvem outras pessoas, como “meu filho” ou “minha família e meus amigos” e mesmo respostas mais vagas, como “a paz”. Qual é melhor? Nenhuma e todas. Depende daquilo que cada um valoriza. Em outras palavras, a resposta estará certa para você mesmo desde que faça sentido na forma como vive, pensa e sente.

2- Em que tipo de situações você sente que está sendo testado? Como tende a reagir? O que você pensa das situações de teste? Naqueles momentos em que você se sentiu testado, a realidade externa era mesmo essa (como numa competição esportiva, no vestibular, num concurso, ao apresentar aquela proposta na empresa, etc.) ou apenas os seus sentimentos é que apontavam para isso?

3- Qual o lugar da amizade na sua vida? Quem são seus amigos? Com quem você realmente pode contar? Algumas vezes, quando falamos sobre emoções mais profundas, apenas as palavras não dão conta da situação. Por isso, faça um desenho ou outra expressão artística mostrando o valor que a amizade tem para você e o lugar que ela ocupa na sua vida. Sem pensar demais, sem julgar se está feio ou bonito, apenas deixe o desenho “sair” de forma livre e espontânea, sem julgamentos.


4- O que é a verdadeira amizade para você? Lembre-se, amigo não é aquele que apenas concorda com tudo e nos apoia em todos os momentos. Claro que isso é importante, mas o amigo verdadeiro tem o bom senso e a liberdade de discordar e dizer coisas difíceis e às vezes duras, que pessoas mais distantes de nós não ousariam. Amigo é aquele que, por nos amar tanto, não tem medo de entrar no nosso mundo e de permitir que entremos no dele.

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