quinta-feira, 8 de maio de 2014

Sonhos: desvendando o mundo interior

Atendendo a pedidos, hoje vamos conversar sobre sonhos. Este é um artigo em que tentarei abordar diferentes visões, vamos começar falando sobre algumas formas de compreender os sonhos, na psicologia, nas neurociências, mas também a forma espiritual, como o sonho é entendido nas diversas religiões.  Depois, vamos conversar um pouquinho sobre os diferentes tipos de sonho, como os sonhos lúcidos, os sonhos eróticos, os pesadelos... E para terminar, vamos falar sobre a importância de registrar os sonhos no seu diário de sonhos, dicas para lembrar e como criar o diário de sonhos. Com ele podemos buscar a nossa mitologia pessoal, que será como um grande mapa para compreender a nossa realidade. Espero conseguir fazer isso de forma clara e prática para todos.

As ruínas de um dos principais templos de Esculápio, em Kós, na Grécia.
A visão popular

A forma como as pessoas de modo geral olham para os sonhos, varia entre extremos. No contexto em que vivemos, temos desde pessoas que olham para os sonhos como algo muito simbólico e especial, até pessoas que acreditam que as imagens dos sonhos não têm um sentido maior e são apenas fruto do funcionamento cerebral durante o sono. Sem esquecer daquelas que acreditam que sonhos são bobagens e nem sequer lembram de seus sonhos ou, quando lembram, não dão grande importância. Vivemos num mundo onde reina a diversidade. Por isso, diferente de sociedades tradicionais (como o mundo antigo ou medieval), muitas formas de ver os sonhos (ou o que for) podem coexistir sem que uma invalide as demais. São apenas formas diferentes de olhar para o mesmo fenômeno, o que levará a diferentes posturas e condutas frente aos sonhos.


A visão cultural

Os sonhos sempre chamaram a atenção do ser humano. Afinal, se quando dormimos estamos meio que “desligados”, como é possível que a mente trabalhe e ganhe vida independente da nossa vontade? Isso, na mente de pessoas de outros tempos, era um grande mistério. Se hoje já dá o que pensar, imagine num tempo em que não havia testes psicológicos, exames de eletroencefalograma e outros que permitem verificar a atividade cerebral? Devia haver algo de sobrenatural nos sonhos!

Na cultura grega, os sonhos eram vistos como remédios para a alma. E remédios que, apesar de agirem na alma, no nível psíquico (psique vem do grego psyché, que significa “alma”), os sonhos eram remédios que, para o povo grego, poderiam curar males do corpo! Quando alguém tinha um problema de saúde complicado, ou doenças misteriosas que os médicos da época não conseguiam identificar ou tratar (fossem físicas, fossem psicossomáticas ou emoções confusas), os gregos apelavam aos deuses. Em casos assim, havia um deus em especial que era muito lembrado. Seu nome é Esculápio. Ele é o filho médico do deus Apolo. Importante: Apolo, aquele que conduz o carro do sol, que nunca se atrasa e sempre pensa no equilíbrio e na “justa medida”, era visto como um deus civilizador. Por isso, faz muito sentido que o deus da medicina seja seu filho, pessoas “civilizadas” (na visão grega) cuidam da saúde e tratam das doenças e dores que surgem, restaurando o equilíbrio da vida. Enfim, quando tinham um problema de saúde (físico ou psíquico) de difícil solução, os gregos apelavam a Esculápio. Eles levavam suas klinis (peça de mobília semelhante a uma cama – desta palavra vem o termo “clínica”) para o templo de Esculápio. Lá, meditavam, passavam por rituais e dormiam... para que, no sonho, de maneira simbólica, lhes fosse revelada a cura! Acho esse costume dos gregos fantástico, pensar os sonhos como algo simbólico e medicinal é um pensamento bastante avançado para o tempo em que viviam. Esse costume perdurou até que o Imperador romano Constantino instituiu o cristianismo como religião oficial do Império Romano. Com isso, ele decretou em 385d.C. que os templos de Esculápio seriam fechados e transformados em hospitais cristãos. Assim foi feito, e o povo levou mais de um século para assimilar as mudanças. Os resultados disso, entretanto, permanecem até hoje. A cura é vista como algo desvinculado do paciente, como se fosse apenas obrigação do profissional de saúde ou dos remédios, sem esforço/reflexão nenhuma do doente. Outra consequência que continua: muitos dos hospitais ainda são vinculados a instituições cristãs.

Com o destaque dado ao cristianismo e também com a queda do Império Romano, a Igreja enquanto instituição passou a ser soberana, estaria acima de todos os outros poderes. E a visão dos sonhos, embora continuasse como algo do sobrenatural, mudou significativamente. Para o ser humano medieval, um sonho nada tinha a ver com Esculápio. Os sonhos bons (que traziam paz, bem estar ou eram inspiradores), seriam soprados aos humanos por Deus, pelo Cristo ou pelo Espírito Santo. Já os pesadelos, sonhos eróticos (já que a sexualidade era vista como pecado), ou que gerassem qualquer tipo de desconforto, teriam origem demoníaca, o que levava quem sonhou a passar por penitências, purificações e até a ser acusado de heresia! Nessa época, havia um grupo chamado os “benandanti”, que em seus sonhos lutavam contra espíritos malignos e demônios, protegendo as vilas e a lavoura de todo tipo de praga e estrago. Infelizmente, quando um deles era descoberto, acabava sendo acusado de bruxaria e, quase sempre, morto. Quem quiser saber mais sobre isso, recomendo ler um livro chamado “Os andarilhos do bem”, de Carlo Grinzburg.

Tudo um dia acaba, por mais que demore. E a Idade Média também acabou. Demorou mil anos, mas acabou. E com o fim, veio o renascimento das ciências e da racionalidade. Estamos na época da expansão marítima e da exploração de novas terras, da descoberta de novos povos e novas culturas, o contato com antigos manuscritos gregos... Isso trouxe um grande impacto na mentalidade das pessoas – e na forma como olhavam para seus sonhos. Com a volta da ciência e a permissão para dissecar cadáveres (o que era proibido pela Igreja durante a época medieval), as pessoas mais instruídas começaram a deixar de ver os sonhos como mensagens de Deus ou de demônios. Agora o sonho é produzido pelo próprio cérebro de quem sonha. Ah, mas nessa época os sonhos meio que perderam sua importância! O cérebro era um campo de estudo nebuloso e assim foi por muito tempo. Os cientistas até conseguiam dissecar o cérebro de pessoas que haviam tido algum tipo de problema ou acidente e verificar quais áreas do cérebro lesadas provavelmente produziam os sintomas emocionais e de comportamento, movimento, fala, etc. que o doente apresentava quando vivo. Mas pouco havia a ser feito quanto a isso. O equilíbrio neuroquímico do cérebro é muito delicado e, com os métodos e instrumentos rudimentares de outros tempos, não se conseguia grandes avanços (diz-se que na década de 1990 dobramos a quantidade de conhecimento que tínhamos a respeito do cérebro, e desde então, as neurociências avançaram muito mais, para ter ideia do quanto sabíamos pouco até então!). Assim, frente a acidentes e doenças a serem curadas e pesquisadas, não se pesquisava grande coisa a respeito dos sonhos. Para os cientistas dos séculos XVIII – XIX, o sonho era apenas um “zelador do sono”, impedindo que os impulsos do nosso corpo (como fome, sede, bexiga cheia, etc.) nos fizesse despertar e impedissem o descanso adequado. Nessa lógica, alguém que sente fome durante o sono sonharia algo como uma mesa com pratos apetitosos, ou a velha história da criança que sonha que está no banheiro e acorda com a cama molhada... Que fique claro, uma parcela muito pequena da população sabia ler nesta época, e entre as que sabiam, bem poucas chegavam a ter algum tipo de estudo universitário ou coisa do tipo. Portanto, a maioria da população continuava a crer nos sonhos como mensagens sobrenaturais (como tantos ainda hoje acreditam), o que quero dizer é que, com a ciência em destaque, essa postura começa a ser questionada.


A visão da psicanálise

Sigmund Freud (1856-1939) foi um dos primeiros a estudar os sonhos. É importante lembrar que Freud era judeu, e ser judeu em Viena na época em que ele viveu era bem complicado. Havia todo o tipo de preconceito, inclusive a imensa dificuldade em ocupar cargos nas universidades e se envolver com pesquisas que estivessem em evidência na época. Então, ao contrário de grande parte de seus colegas neurologistas, em lugar de estudar distúrbios, ou mesmo o sono, Freud estudou os sonhos, tema que nenhum colega cristão se interessava muito. Claro, há mais razões para ele ter estudado os sonhos. Freud notava que alguns de seus pacientes, mesmo quando tinham alguma dor ou problema físico, não respondiam aos remédios e tratamentos convencionais. Mas, entre esses pacientes, muitos se curavam pela fala! Contando e recontando suas histórias de vida, seus sonhos mais simbólicos, seus medos... Freud interpretava toda a fala como simbólica e, ao chegar ao significado que o sintoma tinha para o paciente, geralmente a pessoa se curava. Isso o intrigava, ele queria saber mais sobre o inconsciente (a ideia de inconsciente não foi criada por Freud, apenas aprimorada. Já existia no campo da filosofia, muito antes de Freud). Isso porque acreditava que no inconsciente estaria a chave para a cura de muitos problemas que a medicina convencional não dava conta.

E assim, em 1900, Freud inaugura oficialmente a psicanálise, com a publicação de seu livro “A interpretação dos sonhos”. Arrisco dizer que esta seria uma de suas obras mais importantes, e também a mais bonita, de leitura bem agradável. O livro, que é encontrado facilmente em livrarias, bibliotecas ou mesmo online (o site Freud Online é ótimo, acredito que tenham esta obra para leitura gratuita), é recheado de casos clínicos interessantes do Dr. Freud, teorias e explicações sobre sonhos e uma revisão histórica muito boa sobre como o sonho era visto até então. Para encurtar a história, a psicanálise clássica (freudiana) vê o sonho como a realização de um desejo reprimido. Muitas vezes, desejos de ordem sexual, ou então desejos muito agressivos, que a pessoa não ousava dizer nem para si mesma. Importante lembrar que somos fruto da realidade em que vivemos. Nós a construímos e, ao mesmo tempo, somos construídos por ela. Assim, na sociedade em que Freud vivia, cheia de pudores e recalques, isso era bem válido, hoje em dia nem sempre é assim.

Carl Jung tem uma visão diferente sobre os sonhos. Isso porque a forma como os dois compreendem o inconsciente não é a mesma. Enquanto Freud vê o inconsciente como um “depósito” de conteúdos psíquicos/emocionais reprimidos (por serem traumáticos ou apenas por não serem socialmente aceitos), Jung vê o inconsciente como uma fonte muito rica de símbolos, incluindo uma dimensão coletiva que traz a história e os símbolos de toda a humanidade (o chamado inconsciente coletivo). Para Freud, o inconsciente se disfarça. Para Jung, ele se revela. Isso muda completamente a visão dos sonhos, pois além de ganharem mais possibilidades de assuntos por trás do conteúdo manifesto (isto é, por trás das imagens e mensagens literais), vindo de uma fonte de símbolos carregados com forte conteúdo emocional ligados à integração de opostos e equilíbrio, os sonhos podem passar a ser vistos como elementos que nos transformam e nos tornam psiquicamente mais equilibrados, em outras palavras, nesta visão os sonhos podem ser interpretados como agentes de cura e de transformação interior, tal como acreditavam os gregos (coincidência ou não – provavelmente não, pois Jung estudou a fundo os símbolos e mitos das diversas culturas).


A visão das neurociências

Hoje em dia sabemos através de exames em laboratórios do sono que todas as pessoas sonham várias vezes por noite. Algumas raramente se lembram de seus sonhos e pensam que não sonham, mas isso não é verdade. Nosso inconsciente tem mesmo um mecanismo de censura tão sofisticado que é impossível não se maravilhar! Na visão das neurociências, nosso cérebro não se desliga por completo durante o sono. Aliás, quase nada se desliga, o que acontece é um rebaixamento da consciência conforme o tronco cerebral fica menos ativo (aliás, quem se sente sonolento ao ler ou estudar, basta ativar essa região do cérebro, por exemplo, andando um pouquinho e respirando profundamente). Os sonhos ocorrem diversas vezes durante o sono e, ao que tudo indica, são usados como material base para eles as lembranças do nosso dia, tanto aquilo que vivenciamos, como também aquilo que pensamos, imaginamos, sentimos, tememos e ansiamos... Os sonhos ocorrem de forma mais vívida e intensa durante o sono REM, uma fase do sono em que ocorrem movimentos rápidos nos olhos e em que o cérebro funciona com uma frequência de onda bem semelhante a de quando estamos acordados.


A visão da espiritualidade: o sonho nas religiões

Existem diferentes formas de entender os sonhos nos diversos caminhos espirituais e religiões. Assim como as ciências, as religiões são uma forma de explicar e dar sentido ao mundo em que vivemos. Usam caminhos diferentes, e isso não é motivo para vê-las como opostas. Ao contrário, quando a psique é equilibrada, ciência e religião se complementam numa dança harmoniosa, em que uma alicerça a outra e leva ao nosso crescimento. Mas passemos às visões de sonho de algumas religiões:

Na esfera judaico-cristã, existem diversas referências aos sonhos no Antigo Testamento. Muitas vezes os sonhos (em especial sonhos de reis e pessoas de destaque na comunidade) eram interpretados como sinais, mensagens ou presságios de sorte e abundância ou de desastres, dependendo dos símbolos que aparecessem. Além disso, muitos dos profetas tinham suas revelações nos sonhos.

Já em correntes espiritualistas e nos novos movimentos religiosos (entre eles, alguns ramos do paganismo), muitas vezes os sonhos são interpretados como mensagens de guias espirituais ou mesmo como a visita de parentes e amigos que já se foram deste mundo... Outras vezes, o sonho é visto como lembranças de nossos passeios e ações pelo mundo astral, quando se parte do princípio que, durante o sono, a consciência da pessoa deixa seu corpo e continua a agir enquanto o corpo recupera a força. Embora não seja a visão oficial de nenhuma religião do presente, permanece entre muitas pessoas a visão do sonho como mensagem, aviso, comunicação com espíritos ou divindades, e até como sinal para apostas e jogos de azar.

Nas religiões orientais, o sonho também é um elemento bastante presente. No hinduísmo, por exemplo, o nosso mundo real é um sonho de Vishnu, deus que mantém toda a ordem no universo. Ele dorme sob a serpente Ananta, enquanto navega no oceano cósmico e sonha cada pequeno detalhe do nosso mundo.
Já no budismo, o sonho é um instrumento que o ser humano tem a sua disposição para evoluir e chegar a um estado de iluminação. Para isso, é preciso trabalhar os sonhos, de forma a transformá-lo num sonho lúcido (aquele em que a pessoa sabe que está sonhando e tem controle de suas ações). Para isso, é preciso exercitar a nossa percepção da realidade, em práticas que envolvem tanto o nosso tempo acordado quanto o sono. O objetivo é eliminar a barreira que existe entre os dois estados, e assim poder chegar ao estado de sono profundo de maneira consciente, podendo aprender e contemplar as verdades que existem no nosso interior.

Afresco da Capela Sistina, "A crianção de Adão", Michelangelo, 1511.
Note como o local onde estão Deus e os anjos se assemelham a um cérebro de perfil.
Se assim for, a mão de Deus sai para encontrar a de Adão exatamente
na área cerebral do pensamento racional. Não é curioso?
Os tipos de sonho

Como muitos me perguntam sobre isso, resolvi incluir no artigo! Vamos aos diferentes tipos de sonho. Lembrando que a divisão que proponho aqui é apenas didática, um sonho pode se encaixar em diversas das categorias abaixo sem necessidade de alardes.

Pesadelos: são os sonhos que geram medo, desprazer, nojo, enfim, sentimentos desagradáveis ou de repulsa. Freud diz no livro “A interpretação dos sonhos” que 98% dos nossos sonhos são desagradáveis. Sim, é muito. Por isso devemos lembrar que Freud nos fala com base na realidade em que vivia: uma sociedade repressora e rígida, em que os (muitos!) desejos e ideias que não podiam ser expressados livremente, se manifestavam na forma de sonhos desagradáveis. Acredito que no nosso tempo e cultura a porcentagem seria diferente. Ainda assim, seria alta, pois o sonho não deixa de ser uma forma de refletir e repensar aquilo que vivemos/pensamos/sentimos, e é comum que as reflexões comecem por aspectos da nossa realidade que precisam de mais atenção, aqueles não tão agradáveis...

Sonhos lúcidos: São sonhos em que a pessoa que sonha sabe que está sonhando e, muitas vezes, tem mais controle sobre aquilo que faz e diz no sonho. Do ponto de vista das neurociências, este tipo de sonho acontece quando a consciência não foi rebaixada como de costume durante o sono. Alguns caminhos espirituais tendem a interpretar os sonhos lúcidos como sinal de evolução na caminhada da pessoa, que começa a ter um maior controle de si mesma. Clinicamente, não há problemas quanto a este tipo de sonho, mas apesar de ser uma sensação interessante, quando muito frequente, cabe refletir sobre a nossa necessidade de controle: por que não se entrega, nem mesmo aos próprios sonhos – a si mesma?

Sonhos premonitórios: Estes são aqueles sonhos que se tornam realidade. Não há uma explicação científica definitiva sobre este fenômeno (e eu acho isso o máximo!), mas mesmo sem explicação, é certo que acontecem mais do que os psicólogos gostam de admitir. Uma forma de explicar este fenômeno é com base na ideia de inconsciente coletivo de Jung, aquela parte da psique de todos nós onde ficam armazenadas as experiências da humanidade, numa visão histórica e cultural. No inconsciente, a noção de tempo-espaço é bem diferente da que temos na realidade desperta. Assim, uma vez que acessamos este lado da nossa psique por meio dos nossos sonhos ou de estados alterados de consciência (como a meditação profunda ou o transe hipnótico), podemos ter acesso aos conteúdos de qualquer tempo, sem que isso seja algo fantástico ou sobrenatural.

Sonhos eróticos: sonhos de conteúdo sexual são bem comuns na adolescência, e mesmo na vida adulta. Lembrando que a ausência deste tipo de sonho também não tem grande significado clínico. Quando interpretados sob o ponto de vista psicológico, é comum que sonhos de conteúdo sexual nem sempre tenham um significado relacionado à sexualidade, muitas vezes este é apenas um símbolo que o nosso inconsciente encontrou para nos mandar uma mensagem. O significado varia muito, conforme o contexto do sonho, sentimentos de quem sonhou, pessoas envolvidas (e como o sonhador as vê), as ideias e crenças da pessoa sobre a sexualidade... Tudo pode ser simbólico, inclusive os conteúdos sexuais, sejam mais explícitos e vívidos, sejam mais sutis, como insinuações e palavras de duplo sentido.

Sonhos com santos, deuses, anjos, demônios ou seres mitológicos: Por que raios um deus visitaria o sonho de uma pessoa comum? Na certa o deus ou a criatura em questão é uma representação simbólica. Outra vez, nos deparamos com o inconsciente coletivo. O deus, criatura, ou mesmo a cena de um pedaço de mito interpretada por você e pessoas do seu convívio são mensagens poderosas e especialmente simbólicas, pois estão nas camadas mais profundas do inconsciente coletivo. O discurso dos mitos (seja da cultura que for) é algo que nos molda enquanto seres humanos, nos insere na esfera cultural. Quando conteúdos mitológicos (na forma de personagens ou de situações) aparecem nos sonhos, temos um contato mais direto com o nosso Eu mais profundo. Isso significa que o potencial de cura/transformação que a mensagem do sonho nos traz é grande. É interessante procurar saber mais sobre o mito em questão e refletir bem se algo semelhante (de forma mais direta ou mais simbólica) não estaria se passando na nossa vida ou até na forma como vemos as situações que vivemos. Lembro de acompanhar alguns sonhos especialmente interessantes deste tipo. Num deles, uma jovem que se preparava para iniciar os estudos universitários, coisa que desejava muito, sonhou que abria o mar como Moisés faz no Antigo Testamento (quando os judeus fogem do Egito), o que deixa claro o sentimento dela de que a nova fase da vida seria um “divisor de águas” e uma libertação. Outro caso foi o de um homem já maduro que sonhou com Pégaso, o cavalo alado, puxando um arado com muita dificuldade num campo seco e morto. Isso mostrou bem a forma como ele se sentia em sua vida pessoal e profissional: alguém com um grande potencial, mas que se prendia a algo que não fazia sentido algum para ele, resultando em uma depressão séria. O sonho foi um reconhecimento do seu potencial, e o primeiro degrau para a cura. Qualquer semelhança com o que os gregos pensavam dos sonhos talvez não seja coincidência (provavelmente não é!).

Sonhos com pessoas que já morreram: Não, isso não significa que você é sensitivo, e muito menos que está sendo perseguido pelos mortos! Algumas vezes, os espíritos que aparecem em sonhos são “apenas” símbolos. São mensagens do nosso inconsciente. Para ter mais clareza sobre sonhos deste tipo, é interessante analisar quem é o morto: alguém da família ou algum amigo próximo? Alguém de quem você gosta e sente saudade? A morte já aconteceu há muitos anos ou é algo mais recente, que ainda está mais presente no nosso dia a dia, nos nossos pensamentos? Em muitos sonhos, a presença de um morto é bem semelhante à de um vivo. As pessoas dos nossos sonhos, independentemente de estarem vivas ou mortas, são antes de tudo pessoas, e representam aquilo que associamos a elas, sejam emoções (amor, raiva, desejo, medo, etc.), sejam conceitos (autoridade, beleza, iluminação, etc.). Na maioria dos casos, os sonhos são sobre esses significados, e não sobre as pessoas (vivas ou mortas).



Trabalhe com seus sonhos

Importante começar este trecho do artigo dizendo que nenhuma visão sobre os sonhos é mais certa que outra. São formas diferentes de se olhar para o mesmo tema de estudo e, claro, cada área só pode perceber os sonhos com clareza partindo de seu próprio campo. Assim, a visão das neurociências não invalida a visão psicológica, que por sua vez não invalida a visão dos diferentes caminhos espirituais. Porque não somos seres apenas espirituais, ou apenas psicológicos, ou apenas biológicos ou apenas espirituais/culturais. Somos uma mistura bem equilibrada disso tudo, assim, todas essas teorias e formas de compreender os sonhos fazem parte de nós e podem ser aplicadas à nossa vida sem que uma necessariamente entre em conflito com as demais.

Para lembrar dos sonhos: Muitos pacientes relatam que começaram a lembrar dos sonhos apenas ao começar a dar maior atenção a eles, e isso é uma grande verdade. É importante ter em mente que a nossa realidade interna (que se revela nos sonhos) é tão real quanto a externa. Portanto, para lembrar dos sonhos é preciso estar pronto para mergulhar nessa outra realidade. Prepare-se. Tenha uma rotina agradável para a hora de dormir, assim você faz a transição aos poucos, de forma bem calma. Nessa rotina, é legal incluir um banho morno, um chá relaxante (de preferência sem adoçar), diminuir as luzes... Você pode se dedicar a atividades tranquilas, como conversas sossegadas, leituras apaziguadoras, meditações, orações, exercícios de respiração, enfim, cada um descobrirá o que funciona melhor para si. Na hora de ir para a cama, cuide do seu conforto, incluindo o conforto térmico, para não passar frio e nem calor. Não durma com fome, mas também não coma nada muito pesado. Além disso, vista roupas que não prendam seus movimentos. Gosto de pedir aos pacientes que mentalizem uma frase curta e simples como “vou lembrar dos sonhos desta noite” por diversas vezes, já deitados e com os olhos fechados. Pode não dar resultados no primeiro ou segundo dia, mas cria na nossa mente um padrão de que os sonhos são bem vindos à consciência. Deixe o quarto bem escurinho e boa noite!

Para que trabalhar com os sonhos: Compreendê-los bem é uma forma muito boa de autoconhecimento. E o autoconhecimento é um caminho seguro para o desenvolvimento psíquico, a compreensão de sintomas físicos, e mesmo para o nosso desenvolvimento espiritual (independente do caminho ou religião que a pessoa siga – aqui pensamos a espiritualidade como aquele potencial de acreditar, de ter fé/confiar que todo ser humano traz em si). O trabalho com sonhos é mais facilitado com o diário de sonhos. Já ensinei como fazê-lo, mas vamos repetir mesmo assim!

Criando o diário de sonhos: É importante fazer o diário de sonhos escrevendo à mão. Além de facilitar os registros, ao escrever à mão trabalha partes do nosso cérebro diferentes das que usamos para digitar ou gravar um arquivo de áudio. Use um caderninho que seja prático para você, pode ser um caderno que sobrou do último ano escolar, ou um caderninho especial, você é quem decide! Mas é importante que seja um diário usado apenas para isso (ou, se tiver outros objetivos, que seja um caderno ligado ao autoconhecimento, como o diário menstrual ou algum tipo de livro das sombras). Não faça naquela mesma agenda que você anota as provas do seu curso ou as reuniões com aquele cliente super exigente, os compromissos mais estressantes... Apenas porque isso nos joga de cabeça para fora do mundo dos sonhos. Aliás, quando acordamos é muito fácil perder as lembranças do sonho. Para evitar isso, repasse o sonho na mente, com as imagens/frases que lembrar. Se precisar, repasse diversas vezes. Depois, conte os sonhos para si mesmo em pensamento, agora usando linguagem, como se fosse conta-lo para alguém. Isso ajuda a lembrar do sonho não apenas como um fato, mas também como um discurso. Agora sim, anote no diário, da forma mais completa e detalhada que conseguir. Pode ser que no início seja difícil. Tudo bem, respeite o seu ritmo. Talvez os primeiros registros sejam apenas algo como “Praia. Sensação boa.” Não tem problema, já é um avanço e um ótimo começo. Com o tempo, conforme fazemos isso todos os dias, nos lembramos de mais detalhes. Lembre-se de colocar data nos seus registros. Fique à vontade para acrescentar os dados que achar importante, como a fase da lua, algum acontecimento importante do dia anterior (eles interferem nos sonhos), algum sintoma que estava sentindo e, no caso das mulheres, o momento do ciclo em que está. Depois, procure interpretar o sonho. Pensar nos símbolos que se mostram (tudo é simbólico: pessoas, cores, lugares, palavras, objetos...) pode ajudar, mas evite manuais, ou se usar, não seja rígido. A melhor interpretação é a que parte da própria pessoa. Se estiver difícil, releia o sonho quando for se deitar, ou mesmo depois de alguns dias, dar um tempo pode clarear muito a nossa visão.

Sonhos e ciclo menstrual: Atenção mulheres, nossos sonhos mudam de acordo com o momento do nosso ciclo. Ou melhor, os símbolos que se mostram mudam. Durante o período pré-menstrual e a menstruação, se mostram símbolos mais ligados à morte e destruição, deusas negras, animais noturnos, cenários escuros/obscuros, águas escuras (não quer dizer que seja um pesadelo, ok? São “apenas” símbolos que, algumas vezes, vêm muito bem disfarçados!). Já no período fértil, assim como na gravidez, se mostram os símbolos da deusa branca, deusas mães, fertilidade (inclusive no sentido de projetos), criação... Nas mulheres que já entraram na menopausa, muitas vezes o ciclo se mantém simbolicamente nos sonhos. Outras vezes, o período menstrual (simbólico) passa a ocorrer durante a lua nova/negra (acho isso fascinante!).


Conclusão: desvendando a mitologia pessoal

Joseph Campbell, um grande estudioso de mitologias, tem uma frase de que gosto muito: “os mitos são sonhos públicos, os sonhos são mitos privados”. O caldeirão de onde eles saem é o mesmo: o inconsciente. Sonho e mitologia falam da nossa realidade mais íntima, ambos fascinam a humanidade há tantos milênios porque tocam a nossa alma e nos contam quem somos, permitindo ainda que a gente se transforme em quem gostaria de ser, caso trabalhe com eles com empenho e seriedade.

Use os seu diário de sonhos não apenas como um registro ou algo terapêutico. Use-o como um manual de mitologia – a sua mitologia pessoal. Depois de algumas páginas preenchidas, tire um tempinho para folhear o diário e ler alguns sonhos. Qual a tônica por trás deles? Qual o fio condutor? Toda mitologia tem um tema central que está por trás de grande parte das histórias. Nos romanos, podemos identificar essa tônica nas conquistas (de territórios, de poder, conquistas amorosas/sexuais...), nos gregos, percebemos que o fio condutor é o equilíbrio (entre estações do ano, vida e morte, corpo e mente...), entre os judeus, o fio condutor muitas vezes é a questão das leis e a obediência ou transgressão, que traz recompensas ou castigos.

Para perceber o seu fio condutor, é útil observar com atenção detalhes como o tipo de situação em que seu inconsciente te coloca, o tipo de linguagem usada, elementos que se repetem, personagens (ou arquétipos) frequentes nos sonhos... Você aparece nos seus sonhos? Se sim, qual o seu papel? Herói, vilão, sábio, alguém que lida com o poder ou que se opõe a ele...? Os sonhos são movimentados ou mais parados? São coloridos? Nele aparecem pessoas conhecidas ou apenas desconhecidos? Deixe a mente solta, quanto mais perguntas, melhor.

Quando desvendamos a nossa mitologia pessoal, damos um grande passo no caminho do autoconhecimento. Percebemos quais são as nossas maiores buscas, as ameaças, os medos, as estratégias que costumamos utilizar, as falhas frequentes... A importância disso está no seguinte: mundo interno e realidade externa são reflexos um do outro, como num jogo de espelhos. Quando encontramos esses detalhes sobre nós no nosso mundo interno, pode ter certeza, de alguma forma, mais literal ou mais simbólica, repetimos o mesmo funcionamento na realidade, nos diversos contextos e cenários do nosso dia a dia. Já disse o poeta Mário Quintana, de forma mais bela: “sonhar é acordar-se para dentro”.


Escrevi o artigo de hoje para o site Oficina das Bruxas, no dia 10/01/2014, e resolvi postar aqui no blog com pequenas adaptações, em função do grande número de pessoas que se interessam pelo tema e escrevem perguntando. 

6 comentários:

  1. Querida, adorei o post!!!!
    falar de sonhos, desse mistério que nos acompanha, mas que nos provoca muita curiosidade,é maravilhoso, e você nos deu fundamentos científicos.Bravo!!!!!
    Vou comprar um caderninho dos sonhos, com certeza vou anotar todos!!!
    Obrigada pela Dica de hoje!
    bjus coração.
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Olá, muito obrigada!! Fico feliz de saber que gostou e faça sim o caderninho de sonhos, a gente merece esse carinho com a gente mesmo.
      bjs

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  2. Adorei! Veio bem a calhar este artigo, só recentemente tenho observado mesmo os sonhos, e parece mesmo que quanto mais atenção damos a eles, mais complexos e intrigantes eles começam a vir e começamos a perceber os símbolos, é incrível, vou fazer o diário!
    Gratidão por compartilhar! ;)

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    1. Obrigada, que legal que gostou! E faça sim o diário de sonhos, é uma experiência muito gostosa! Bjs

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  3. igual
    http://oficinadasbruxas.com/sonhos-desvendando-o-mundo-interior/

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    1. Olá, Jessica. Como expliquei no final do artigo, está igual porque escrevi esse texto para o site Oficina das Bruxas e resolvi repostar aqui no meu blog. Coloquei inclusive o link para a postarem original. Se olhar no Oficina, verá meu nome assinando o artigo.

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