sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ágora - Idade biológica X idade mental

Li algum tempo atrás que existe uma idade biológica e uma idade psicológica e que em alguns momentos pode haver um descompasso entre essas duas idades; pergunto: o que pode levar uma pessoa a ter uma dissociação entre sua idade biológica e sua idade psicológica?, o fato das sociedades modernas não mais darem valor, social e familiarmente, aos ritos de passagem contribue com essa dissociação?
Antecipadamente, obrigado
Érico


Olá, Érico.

Gostei muito do tema que você sugeriu. Antes de começar a discussão, gostaria de fazer algumas definições para que todos acompanhem esta conversa. Idade biológica é o termo usado para se referir à idade do corpo. Quem nasceu em 1994 tem 20 anos como idade biológica, por exemplo. Já a idade psicológica, ou idade mental, é um conceito um pouco mais polêmico, pois envolve a questão da maturidade (intelectual, emocional e social) ou melhor, daquilo que cada um compreende como uma atitude madura.

No início, os psicólogos consideravam a idade mental de uma pessoa apenas com base nos resultados de testes de inteligência. Conhecendo o QI de alguém e sua idade biológica podemos, com base em cálculos simples, definir sua idade mental. Assim, é possível, digamos, que um garoto de 12 anos tenha a inteligência de um rapaz de 16 ou ainda tenha deficiências que o levariam a ter uma idade mental muito inferior à idade biológica, digamos como a de uma criança de 5 anos. Acontece que na prática nem sempre é assim. O garoto de 12 com uma inteligência excelente pode ter o aparato cerebral desenvolvido para compreender racionalmente conteúdos que só aprenderia anos mais tarde. Mas nem sempre tem os lados emocional e social tão bem desenvolvidos assim. E isso pode atrapalhar o uso do potencial que ele tem.

Geralmente, a nossa idade biológica, intelectual, emocional e social são equilibradas, com poucos pontos de diferença. No entanto, existem casos sérios em que apesar de ter a inteligência normal ou mesmo acima da média, os fatores emocionais ou sociais impedem que essa inteligência avance e seja bem utilizada. Alguns exemplos comuns: a criança que é inteligente mas tira notas baixas por motivos sócio-emocionais (sofre bullying na escola, ou violência doméstica, tem algum trauma mais sério, etc.). Quando as questões emocionais são tratadas com psicoterapia, a pessoa "cresce", passa a ter acesso mais livremente a todo o potencial que existe dentro dela.

Concordo com você, Érico. Penso que viver num mundo pobre de ritos de passagem seja um dos fatores que dificultam a pessoa de avançar em sua idade mental (no ponto de vista emocional e social). Os ritos de passagem (sejam no contexto religioso, como batismos e iniciações, seja no contexto laico, como formaturas, casamentos, etc.) ajudam a pessoa a compreender que deixou uma fase e está entrando em outra. Bem como ajudam aqueles com quem a pessoa convive a vê-la e interagir com ela em seu novo papel (por exemplo, deixar de ver alguém como um garoto e ver como um homem já formado, ou já casado, ou que passou pelo serviço militar, enfim, alguém com uma função social clara, com responsabilidades e com o poder de fazer suas escolhas). Muitas pessoas resistem a mudar de fase, apenas porque lhes parece mais seguro se manter num papel social já conhecido do que tentar um novo, por exemplo aqueles adultos que ainda agem com a maturidade emocional de um adolescente de 14 ou 15 anos... Também nesse tipo de caso a psicoterapia pode ajudar, pois possibilita que a pessoa perceba e use seus recursos emocionais a seu favor, vencendo a insegurança que o novo traz.

Queria lembrar que o oposto, a pessoa com idade mental muito acima da biológica, também pode ter alguns problemas. Chamamos esse tipo de situação de hipermaturidade, e é especialmente preocupante em crianças. Geralmente acontece quando a criança se sente tão negligenciada que precisou amadurecer depressa demais para cuidar de si, o que faz com que o pensamento e o comportamento ganhem certa rigidez (uma vez que, mesmo madura, a criança ainda não teve as vivências e o desenvolvimento cerebral pelos quais os mais velhos passaram, ou seja, ela sabe muito bem o que pode e o que não pode, o que machuca, o que é ou não adequado, mas não questiona e não se permite viver coisas típicas da infância, que serão importantes emocionalmente para seu crescimento). Assim, mesmo se temos uma criança muito inteligente, muito responsável e que sabe se cuidar, é importante que os adultos demonstrem que estão lá por elas e também que encorajem essa criança a fazer amigos da sua faixa etária e a ter as vivências típicas da infância, como brincadeiras e momentos despreocupados.

No caso da pessoa ter uma inteligência muito acima da média, o que acontece numa porcentagem relativamente baixa da população, é comum que se queixem de que os outros não as compreendem, que não as vêem como iguais, enfim, isso pode gerar conflitos nos relacionamentos e na interação social. Também nesse tipo de caso a psicoterapia pode ser interessante, no sentido de criar estratégias de interação social e mesmo de repensar o sentido e o papel dessas relações na vida do sujeito.

Uma situação diferente, é aquela das pessoas, geralmente mais velhas, que dizem se sentir muito mais jovens. Sem que isso tenha a ver com insegurança ou problemas intelectuais/emocionais. Elas apenas se sentem com boa disposição e vontade de viver de forma diferente do papel tradicionalmente atribuído aos idosos. Por exemplo, alguém de 65 anos que se aposentou e resolveu ir trabalhar numa área que realmente a realiza, pratica esportes, sai com os amigos, namora... e diz se sentir como uma pessoa muito mais jovem. Isso é muito positivo, pois mostra que estamos envelhecendo com mais saúde e qualidade de vida. Mostra, ainda, que nossa sociedade está superando a visão de idoso, deixando de ser alguém debilitado e "no final da vida", para ser visto como alguém que pode buscar a própria realização tanto quanto alguém mais jovem.

Termino com uma questão de Confúcio, um sábio chinês: qual seria a sua idade se você não soubesse quantos anos você tem?

Espero ter contribuído.
beijo,
Bia


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