sexta-feira, 13 de junho de 2014

Agora - Não gosto daquilo que criei

Bia quando der faz um artigo sobre a relação de amor e ódio de artistas com suas obras finalizadas? Por exemplo, o pintor faz um quadro e depois de terminado observa e não gosta do que fez...algo assim...tenho visto desenhistas falando sobre naõ gostar de seus resultados...e eu tenho essa sensação com algumas coisas que já fiz....faz faz faz?
Daniella - Guarulhos, SP


Olá, Daniella!

Penso que existem, a princípio, duas possibilidades para a situação que você descreveu: a pessoa é exigente demais consigo mesma (por diversos motivos que exploraremos a seguir) ou a obra realmente não ficou boa e a pessoa tem crítica e maturidade o suficiente para admitir isso. 

Começando pela segunda possibilidade, acho muito saudável quando a pessoa tem esse senso crítico. Eu sei o que dizem, nunca se compare a ninguém. Mas ao mesmo tempo, é importante comparar as nossas obras e produções (seja uma obra artística, seja um projeto profissional, um trabalho de escola, o desempenho num esporte ou atividade...), pois apenas com essa comparação sincera é que podemos saber como estamos, se melhoramos ou pioramos. Importante: a ideia aqui não é se colocar para baixo ou ter um acesso de estrelismo! A ideia é comparar a obra e não a pessoa! Isso mostra um bom grau de maturidade psíquica, pois a pessoa conseguiu ter um afastamento emocional daquilo que produziu e, assim, conseguiu um julgamento sincero de sua obra. Nesses casos, é importante se comparar aos iguais. Um exemplo bem simples: quando eu era criança, adorava jogar tiro ao alvo. Todos diziam que eu tinha uma pontaria excelente, e sempre saia da brincadeira com os bolsos cheios de balas e chocolates. Até hoje me vejo como alguém com boa mira. Mas, é claro, me comparando a pessoas que, como eu, só jogavam isso em festas juninas e parques de diversão. Se eu me comparasse a arqueiros olímpicos, atiradores profissionais e etc., minha ótima pontaria com toda a certeza é bem falha... O que estou dizendo é, se você faz algo apenas como amador, se compare aos amadores. Se está começando, se compare aos iniciantes. Se é alguém de destaque na área ou atividade, se compare ao pessoal de ponta. Claro, sempre mirando no próximo degrau e percebendo como poderia melhorar seu desempenho. Mas não é de muita ajuda (ao contrário, só atrapalharia) que, digamos, um garoto que joga bola nos finais de semana se sinta frustrado por não jogar como um profissional, que treina todos os dias de forma intensa. Da mesma forma que não levaria a lugar nenhum se um profissional se achasse o melhor ao comparar sua obra apenas a de amadores, e se visse no "direito" de não investir em sua carreira porque parece que ninguém (amador) faz isso...

O outro caso, das pessoas que exigem demais de si mesmas, é um pouco mais complexo. Uma das possibilidades é a pessoa realmente ser perfeccionista demais. Já conheci pessoas que desenvolveram sintomas psicossomáticos, como gastrite e hipertensão, por não lidarem bem com esse perfeccionismo. É muito bom exigir o nosso melhor de nós mesmos. Mas, ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que nós temos nossos limites, assim como a própria realidade que vivemos também os tem. Não há como superar esses limites se a gente não os conhecer, por isso insisto sempre na questão do autoconhecimento e, no caso que estamos vendo hoje, no conhecimento da área em que querem melhorar. Outra possibilidade importante de mencionar é a questão de fazer um planejamento claro. Algumas vezes a produção não sai como imaginamos por falta de planejamento, não tanto de habilidade ou conhecimento. É preciso ver o tempo de planejamento e preparo como parte fundamental de um projeto ou de uma obra. 

Mais uma coisa. Pessoas mais exigentes consigo mesmas costumam ter um "padrão de qualidade" muito alto. Isso é bom, pois sempre produzem algo com excelência. Mesmo quando não ficam felizes com os resultados, o que se observa é que em geral a obra não deixa grande coisa a desejar, no olhar das outras pessoas. Ao mesmo tempo, isso pode ser estressante para a pessoa, no caso do padrão que se deseja ser tão alto que ela não se percebe capaz de alcançar jamais, o que era uma motivação para ir mais longe acaba por se tornar uma fonte de estresse e perda de interesse. Por isso, é fundamental buscar um equilíbrio, fazer um bom planejamento (daquilo que queremos produzir, mas também do nosso desenvolvimento) e dar um passo por vez.

beijos,
Bia


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