sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ágora - O sentimento de nacionalismo e a Copa do Mundo

Oi Bia! Escreve alguma coisa sobre a Copa do Mundo? Não esses protestos e esse lado mais político, que apesar de eu achar importante, todos já estão falando. Eu queria entender é sobre o sentimento de nacionalismo, o pessoal andando por aí com as cores da bandeira, enfeitando ruas... Eu sei que isso é mais que o amor por uma equipe esportiva, tem algo a ver com o sentimento de nação, e queria entender isso. Valeeeu!!! 
Marcel - Mauá, SP


Oi, Marcel!

Esse nacionalismo recebe o nome de identidade nacional, isto é, a forma como um povo se percebe e olha para si mesmo. Ao mesmo tempo que essa identidade pode dar margem a certos estereótipos e preconceitos (como os populares "brasileiro é folgado",  "japonês é inteligente", "italianos só comem macarronada" e tantos outros), a identidade nacional mostra as características de um povo. Isso é bom ou ruim? Nem um nem outro, é apenas a expressão dessas características e da forma de ser de um povo.

Décadas atrás, estudiosos da identidade falavam muito sobre o sentimento de nacionalismo e a identidade nacional. Lembro sempre do caso do sociólogo Zygmunt Bauman, nascido na Polônia e exilado, buscando abrigo na Grã-Bretanha. Certa vez, ao receber uma homenagem, perguntaram-lhe qual hino tocar, o da Polônia ou o hino inglês. Bauman disse que não se considerava polonês por ter sido expulso de seu país de origem, mas também não era um inglês. Resolveram o impasse tocando o hino da Europa, mantendo o foco numa identidade que vai além da nacional. 

Hoje em dia, a identidade nacional já é um assunto um pouco menos falado nos meios acadêmicos, mas ainda presente em alguns contextos. Com o avanço da globalização, as fronteiras entre os povos ficaram mais tênues. Especialmente as fronteiras culturais e emocionais. Em especial nos casos de locais que receberam imigrantes de forma mais intensa, observa-se muito essa necessidade de preservar a cultura do local de origem, na linguagem, nos costumes, nos pratos típicos e nos valores do povo em questão. Não é preciso, por exemplo, ir até a Itália para participar de uma festa italiana ou japonesa, alemã, boliviana... elas acontecem com regularidade nos locais que receberam esses povos, permitindo que todos conheçam um pouco de suas tradições e costumes.

A identidade nacional tende a ficar mais intensa em algumas situações, como em momentos de crises (econômica, política, social, etc.), após acidentes graves ou grandes desastres, nos momentos em que um país ou povo está em evidência (como na Copa do Mundo, no momento de alguma grande conquista ou em outros eventos internacionais), e mesmo entre pessoas que se encontram fora de seu país de origem (repare como muitos imigrantes e descendentes preservam as tradições culturais de forma muito mais intensa do que quem permaneceu no país de origem, chegando até a apresentar certa rigidez em alguns casos). 

Entendido o que é a identidade nacional, podemos perceber que ela se apresenta de acordo com os valores de um povo. A Copa do Mundo não é o elemento principal, é apenas um cenário usado para a expressão dessa identidade nacional de maneira mais clara. No entanto ela acontece todos os dias, quando puxamos conversa com as pessoas no transporte público ou numa fila, mostrando que somos um povo sociável e que valoriza essa interação com os demais. Ou quando fazemos piadas e brincadeiras com algo sério, mostrando que apesar de compreender a gravidade de uma situação, sabemos rir de nós mesmos e ver o lado inusitado da coisa. Não somos um povo "sem identidade" como vivem querendo nos jogar goela abaixo. Ao contrário, somos um povo culturalmente rico e que cresceria muito se soubesse valorizar essa riqueza cultural.

beijo,
Bia


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