quinta-feira, 26 de junho de 2014

Em busca de si mesmo: medo e libertação

O medo é a prisão e a técnica de controle mais eficiente que existe. Quando sentimos medo, não precisamos que ninguém nos desencoraje ou nos pare, fazemos isso sozinhos! Além disso, a pessoa cheia de medos ou no auge desta emoção, é facilmente manipulada. A maior parte dos psicólogos e neurocientistas concorda que o medo é uma das emoções mais antigas que existem, seja pensando no desenvolvimento evolutivo (boa parte dos animais, mesmo com um sistema nervoso rudimentar, apresentam sinais de medo), seja no sentido do desenvolvimento da pessoa (o medo é uma das primeiras emoções que aprendemos a sentir, está numa parte mais “antiga” do nosso cérebro).

Como tudo, o medo tem dois lados. O lado bom, e o maior objetivo, é nos proteger. Quando uma pessoa tem medo, digamos, de altura ou do fogo ou de tempestades com muitos raios, ela está se protegendo, evitando acidentes e até a morte. Quando o medo é mais refinado, mais inserido no dia a dia do mundo cultural, como o medo de não ser aceito, de fracassar em algo importante, de perder pessoas queridas, o objetivo também é a proteção. Quem sente medo, arrisca menos e diminui assim as chances de ter de lidar com uma fatalidade... Mas ao mesmo tempo, quem não arrisca por medo, quem se permite ser controlado pelos medos que tem, também nunca terá uma boa surpresa por ter conseguido algo e superado o controle que essa emoção tinha na pessoa.

Em resumo, o medo é bom quando atua como defesa, mas é ruim quando, de tão grande que é, nos impede de dar os passos que tanto desejamos. Por isso, o oposto do medo é a liberdade. A liberdade exige coragem, ou melhor, exige que a gente supere os nossos medos, principalmente aqueles medos que vêm muito bem disfarçados de ideias fortes e significativas como “nunca vou fazer X” ou “uma pessoa prevenida vale por duas”, entre tantas outras.

A liberdade mais especial que existe não é aquela de ir e vir ou de dizer o que quiser ou de fazer o que vier na cabeça. A melhor liberdade que podemos conquistar é aquela que é freada pelos verdadeiros medos, a liberdade de ser quem realmente somos. Independente das amarras do “tenho que...”, “deveria...”; das armadilhas do “receio” de falhar ou da “insegurança” do que os outros poderiam achar, do “sentimento de instabilidade” frente ao que poderia acontecer... Apenas ser quem somos, sem rótulos nem amarras. Claro que isso é difícil. E mais: isso provavelmente é algo que sempre buscaremos, mas nunca atingiremos por completo, o que apenas incentivará ainda mais a busca.


Não pense que essa busca é tão racional, nem que ela acontece rapidinho no intervalo da novela. É uma busca que dura toda uma vida. É uma busca que exigirá de nós todo o nosso envolvimento, inclusive de reconhecer quando estamos recuando ou paralisados pelo medo. Apenas quando nos desprendemos e soltamos todos esses medos é que estamos de fato protegidos, num jogo de opostos muito curioso: quando deixamos ir e nos submetemos ao que mais tememos é que nos é revelada a nossa recompensa.


Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 17 de fevereiro de 2014.

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