quinta-feira, 3 de julho de 2014

Acolhendo o peregrino

Já comentei antes que na época em que fiz meu mestrado trabalhei com peregrinos. A figura do peregrino é muito simbólica, pois não é só alguém que percorre um caminho qualquer: ele percorre um caminho sagrado e busca algo, um contato direto com o divino, que quase sempre culmina numa grande transformação.


As peregrinações quase nunca são viagens rápidas. Falo daquelas tradicionais, feitas caminhando a pé e carregando numa mochila apenas aquilo que cada um aguenta levar. Elas levam vários dias, algumas levam semanas, meses... A pessoa sai completamente daquela vida que estava acostumada: trabalho, estudos, família, amigos, o conforto do lar... para embarcar numa aventura que quase sempre é solitária, com uma só grande meta, chegar ao destino (de preferência, bem), enfrentando todo tipo de perigo, de ladrões de mochila e dores, até os perigos que moram dentro de nós mesmos. As necessidades mudam, se tornam simples e da vida bem prática, como chegar ao próximo abrigo antes que escureça, ter água limpa e comida... Os desejos, os luxos? Um banho no final do dia e, se tiver sorte, uma cama quente.

Nós temos todos os arquétipos dentro de nós. Isto é, existem dentro de nós, no inconsciente, cada “personagem” típico de cada vivência possível (mãe/pai, filho, irmão, estudante, profissional, construtor, psicólogo, pessoa em alguma situação de vulnerabilidade, a bruxa, a sábia, o doente, o mestre, a prostituta... enfim, quando digo todas as vivências, digo todas mesmo!). Existe um peregrino dentro de você. Não importa se você nunca fez uma peregrinação, ou mesmo se até agora você nem sequer havia pensado sobre peregrinações. Existe um peregrino aí dentro. E ele precisa caminhar, ele precisa ter o contato com o sagrado e transformar-se!

Mas a forma como o peregrino continuará a caminhar no começo do dia, depende da noite anterior. Como esse peregrino foi acolhido? Nas grandes rotas de peregrinação, a população que vive nos arredores convive bastante com os peregrinos. Embora hoje em dia grande parte delas contem com albergues e centros de apoio próprios para a situação, onde podem descansar num beliche, tomar banho e usar a cozinha para preparar um jantar, em trechos mais isolados ainda é comum que, em uma noite ou em outra, algum peregrino bata à porta pedindo acolhida. E, geralmente, são muito bem recebidos, pois acolher o peregrino é receber em casa um agente do sagrado, alguém corajoso e ousado o bastante para largar tudo por uns tempos e buscar o sagrado, enfrentando os perigos e hostilidades da caminhada. Muitas pessoas chegam a dividir a pouca comida que têm ou a dormir no chão para que o peregrino possa descansar bem numa cama e continuar a jornada da melhor forma possível pela manhã. O que as faz acolher tão bem alguém que nunca viram antes? A solidariedade, o gosto de saber que a chegada do peregrino ao seu destino, o encontro que ele terá com o sagrado e que irá transformá-lo, também irá transformar aqueles que o ajudaram através da convivência que tiveram, mesmo que breve.

Acolher o peregrino é a única forma de deixa-lo pronto para a caminhada e preparado para a busca. E o mesmo vale para o peregrino que existe em cada um de nós. Como você o acolhe? Permita que ele tome um banho relaxante, que se purifique de todo o pó da estrada. Permita que ele seja nutrido com um bom prato de algo quente, ou com o que quer que sustente o nosso peregrino interior, simbolicamente falando. Cuide dos ferimentos, das bolhas, das dores. Acalme os medos e inseguranças que sempre surgem nos trechos mais perigosos do caminho – na vida. Permita que ele descanse. Mas permita também que, pela manhã, ele se levante e volte à estrada. O peregrino precisa caminhar e buscar. É isso que o torna peregrino.


Publiquei este artigo originalmente no site Frutos do Carvalho, no dia 03 de fevereiro de 2014.

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