quinta-feira, 17 de julho de 2014

Buscar a visão do todo

Nem sempre nos damos conta, mas uma das coisas mais complicadas na vida é olhar para uma situação e vê-la como um todo. Quase sempre nos atemos apenas ao nosso próprio ponto de vista, e (até certo ponto), está tudo bem com isso. Afinal, vivemos a nossa própria vida e não a dos outros, olhamos para o mundo com os nossos olhos e o ouvimos com os nossos ouvidos. Compreendemos e damos sentido ao que percebemos, vemos e ouvimos através das nossas próprias referências e valores. Portanto, quanto mais nos conhecemos, mais "parcial" será a nossa visão de uma situação.

A realidade em si não pode ser percebida. Tudo o que temos são olhares, formas de contar a situação.
Que são sempre tão (in)completos e (im)parciais como todos os outros.
Claro, quem não se conhece, quem não forma para si esse leque de referências e valores (mesmo que não tenha consciência plena deles), não terá uma visão própria. Ficará preso às interpretações do outro, seja esse outro as pessoas com quem convivemos, ou os pontos de vista da mídia ou de ideologias de qualquer tipo quando seguidas cegamente e sem questionamento. Essa condição é semelhante à de crianças pequenas, que ainda não formaram suas referências e "emprestam" a de pessoas importantes para elas como os pais e outros familiares, a professora, etc. Questionar é uma estrategia poderosa para refletir sobre o que vivenciamos ou percebemos, pois nos leva a encontrar a nossa visão dos fatos. É o que acontece na adolescência, por exemplo, quando o jovem passa a perceber que existem outras formas de olhar para a vida além da que aprendeu em casa. E no movimento da reflexão aprende que pode conservar as visões que aprendeu com a família e fazem sentido para si, além de poder mudar as que não fazem, adotar novas posturas e assim, aos poucos, formar o seu próprio leque de referências, valores e visões de mundo.

Mas mesmo depois de adultos, com toda essa nossa visão de mundo já bem estabelecida, o processo não termina. Estamos sempre repensando e reinventando essas referências, valores e visões da realidade, mesmo que a gente nem sempre perceba. Melhor dizendo, ampliamos e transformamos isso desde que a gente busque a visão do todo. Buscar a visão do todo é saber olhar para uma situação por diferentes pontos de vista, fazendo com que esses diversos olhares se cruzem e cheguem a um "acordo".

Pense numa situação que você esteja passando na sua vida. Qualquer uma. Pode ser mais fácil ou mais complicada, agradável ou ruim, tanto faz. Qual o seu jeito de entender a situação? O que você percebe, o que sente, como se posiciona? Descreva para si mesmo da forma mais clara e completa que conseguir. Depois, experimente fazer o mesmo com cada uma das pessoas envolvidas. Como você descreveria a situação, como se sentiria no lugar de cada uma? Como descreveria a mesma situação do ponto de vista de alguém neutro? Do ponto de vista de um sábio? Ou do ponto de vista de alguém que vive numa cultura completamente diferente? Este é um exercício interessante não só para compreender melhor as situações vividas, tendo uma visão do todo, mas também para exercitar o desprendimento da nossa forma de ver as coisas. É preciso estar firme nos nossos valores e referências para então saber questioná-los e se despir deles se necessário. Tudo aquilo que avança termina por voltar ao início, não tal como era, mas numa perspectiva simbólica. Para existir esse retorno, é preciso antes ir e ter a coragem de se desprender daquilo (valores, situações, etc.) que parecia tão sólido e "certo". Então algo novo surge disso e o todo se torna claro.

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