terça-feira, 22 de julho de 2014

Mythos - Hine Nui Te Po: a origem da morte

O povo Maori vive na Nova Zelândia e tem alguns mitos muito interessantes. O que veremos hoje é uma tentativa de explicar a origem da morte. É curioso pensar que para muitos povos, num estágio muito antigo da humanidade, ninguém morria. Mas sempre acontece algum "acidente" que marca o ser humano como um ser para a morte e, sendo um ser que sabe que irá morrer, isso o leva a pensar bem sobre o que fará com sua vida e o tempo que tem nas mãos. 

Imagem: http://onesian.tumblr.com/page/3
Vamos ao mito. Tane é o deus mais próximo dos seres humanos, tanto que seu nome significa "homem". Ele era deus das florestas, criando árvores e permitindo que os humanos usassem a madeira para construir coisas e fazer fogo. Mas a floresta era muito solitária, Tane queria uma companheira. Ele tentava se casar com deusas, mas nenhuma o aceitava por ele ser "humano" demais, ou então ele que não as queria por criarem apenas rios e plantas, nunca filhos. Então Tane foi até a praia e, com lama e areia, criou a mulher. A escultura era linda e quando Tane lhe deu o sopro da vida, ela transformou-se numa mulher encantadora e doce. O nome dela era Hine Nau One, que significa "a donzela feita de terra".

Eles viviam felizes, e tiveram uma linda filha chamada Hine Titama, "a donzela da aurora". Ela se tornou uma linda jovem e também foi esposa de Tane, sem saber que ele era seu pai. Certo dia, Hine Titama estava numa aldeia e perguntou a uma das mulheres mais velhas quem era seu pai. Quando ouviu o nome de Tame, a jovem fugiu e escondeu-se no Submundo. Tane a procurou e ouviu seu lamento triste vindo da entrada do Mundo Inferior. No entanto, ele não podia chegar até lá, pois não tinha como entrar no Submundo. Ela lhe disse o que havia descoberto e pediu-lhe que ficasse no mundo da luz e criasse os filhos. Hine Titama ficaria no mundo das trevas, lamentando-os. O nome dela passou a ser Hine Nui Te Po, "a grande deusa da escuridão" e não mais a donzela da aurora. Desde então a morte passou a existir, pois a deusa da escuridão tem saudade de seus filhos e em algum momento os chama para si.


Questões para reflexão:

1- Como falamos no início, em muitas culturas a morte não é algo natural, que já existia, mas algo que passa a existir e a valer como regra a partir de algum tipo de acontecimento que rompe a vida normal. A morte também é isso, por mais que a gente entenda que todos nós morreremos algum dia, quando ela acontece com alguém próximo não deixa de ser um susto, algo que rompe com o dia a dia comum que vinhamos levando. É um tema que muitos acham pesado e meio triste. Mas também é um tema que, quando abraçado sem medo, nos lança para a vida. Como se alguém dissesse "olá, um dia você vai morrer! O que gostaria de fazer com esse tempo que tem em mãos?" Essa é a reflexão pela qual vamos começar. Como você vê a morte e como vê a vida? Perceba as semelhanças e diferenças na forma como olha para cada uma.

2- Ainda sobre a morte. Qual foi o seu primeiro contato com a morte? Como foi? Como você reagiu na época e como isso te marcou?

3- No mito, a origem da morte está numa verdade, numa informação que foi recebida e com a qual Hine Titama não soube lidar, pois rompeu o ritmo do seu dia a dia. Assim, a morte não é apenas a morte propriamente dita, mas também aquelas perdas e situações da vida que nos tiram da nossa posição cômoda sem nos oferecer respostas sobre o que fazer agora. Quando ela se refugia no Submundo, isso representa bem a reação que temos após a morte de alguém especial ou de qualquer tipo de perda significativa, ficamos tristes, algumas vezes com raiva, abatidos... No entanto, assim como aconteceu no mito, após vivenciar esses sentimentos, a pessoa se fortalece, torna-se outra como a donzela da aurora que se tornou a grande deusa da escuridão. Elas não são pessoas distintas, uma carrega a história da outra (em lembrança ou em potencial) e uma sempre fará parte de quem a outra é. Assim a passagem (pois se a morte é um rito de passagem, a perda de algo ou alguém também é, pois nos muda) se completa e a vida-morte/existência segue.

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