terça-feira, 15 de julho de 2014

Mythos - o deus branco e o deus negro: lidando com a dualidade

O Leste Europeu é uma região com um folclore e mitos muito ricos. Ao contrário do restante da Europa, que foi cristianizada mais cedo, essa região começou a se cristianizar apenas no século VIII e o processo durou até o século XIII. Ou seja, cristianismo e paganismo coexistiram por mais de 500 anos, levando a uma mescla bastante peculiar.

Uma marca nos mitos eslavos, assim como no cristianismo da região ainda nos dias de hoje, é a dualidade. Dualidade (e não dualismo) significa que dois elementos que a princípio parecem opostos, se unem e, quando essa união é harmoniosa, eles formam um todo muito maior mais pleno de significado do que se fossem apenas combinados "de qualquer jeito".

Paisagem de relevo acidentado no Leste Europeu.
O deus branco e o deus negro formam juntos um dos maiores símbolos dessa dualidade na cultura do Leste Europeu. Os eslavos os chamavam de Byelun e Cernobog, e acreditavam que o deus branco representava a luz e o deus negro as trevas. Assim, o mundo seguia em seu equilíbrio a partir das ações e conflitos dos dois.

Depois do cristianismo, o deus branco e o deus negro foram associados a Deus e ao diabo. Uma história comum na região, mesmo nos dias de hoje, é a lenda de que os dois criaram o mundo juntos. Assim, Deus/o deus branco pedia ao diabo/deus negro que mergulhasse no oceano de onde tudo surgiu e trouxesse lama para que a terra pudesse ser criada. O diabo obedeceu, mas ao invés de apenas encher as mãos com o lodo do fundo do oceano, ele encheu também a boca. Deus criou a terra, tomando todo o cuidado para criá-la plana e bem lisa. Mas quando o diabo ia comentar alguma coisa, engasgou-se com a lama que conservava na boca e tossiu. Correu pela terra em desespero, tossindo muito, e conforme a lama espirrava de dentro de sua boca e caia na terra recém criada, o diabo criava involuntariamente as montanhas, morros, falésias e diversos tipos de relevo.


Questões para reflexão:

1- Os mitos eram as manifestações religiosas de povos antigos mas, ao mesmo tempo, podemos vê-los como chaves de compreensão para situações, movimentos emocionais ou mesmo conflitos que todos nós passamos em algum momento. Pensando nisso, vamos ver o deus branco e o deus negro como partes nossas. Quais lados seus vivem como eles, algumas vezes em conflito, outras vezes em parceria, mas sempre com interação constante? Entram aqui características de personalidade, sonhos/desejos, áreas da vida...

2- O que você pode fazer para tornar a relação entre esses seus dois lados mais harmoniosa? Muitas vezes não são necessários grandes planos ou atitudes tão diferentes. Em boa parte dos casos, basta saber ouvir os seus diferentes lados e respeitar as necessidades de cada um. 

3- Gostaria de lembrar que nesse tipo de conto simbólico como são os mitos (ou mesmo a vida da gente, no momento em que se torna uma narrativa, ou seja, quando contamos as nossas vivências a alguém), todo acontecimento tem seu sentido na ordem das coisas. O diabo/o deus negro, com frequência é mostrado como um lado ruim, desajeitado, das trevas... Mas isso também tem seu lugar. Ele não estragou a criação da terra com seu pequeno incidente, ele acabou por contribuir. Nem tudo é tão ruim quanto pode parecer num primeiro olhar. Tudo é questão de foco. Percebo que as pessoas quase sempre contam suas vivências felizes e positivas de forma rápida, como no mito de hoje quando contei que Deus criou a terra. E ao mesmo tempo, deixam toda a ação e aventura aparecer pelo lado ruim, ao qual dão maior destaque. Foi o diabo quem movimentou o mito criando o relevo na terra ao engasgar com lama. Do mesmo jeito, repare em quanto tempo você gasta para contar algo bom e quanto tempo você usa no seu dia falando sobre situações difíceis e incidentes. Boa parte das situações que vivemos não são boas e nem ruins, elas se tornam aquilo que costumamos fazer delas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário