sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Ágora - Tempo de duração da psicoterapia

Oi Bia. Queria perguntar quanto tempo dura a terapia. Quantas vezes eu teria que ir? Em quantas sessões mais ou menos o paciente é liberado? Obrigado. Bjs
José Carlos - Curitiba, PR


Bom dia, José Carlos!

Essa é a dúvida de quase todos os pacientes. Quantas sessões vou ter de fazer? Infelizmente,não existe uma resposta clara para essa dúvida. Tudo depende do caso de cada pessoa, do quanto o paciente irá se envolver no processo terapêutico, como ele reagirá às técnicas e procedimentos aplicados e, como nem sempre as coisas dependem apenas de nós, dos rumos que a vida e o contexto ao nosso redor tomará durante o processo (perdas, grandes mudanças boas ou nem tanto que acontecem independente da nossa vontade, etc.). O que se costuma fazer é aplicar um bom psicodiagnóstico no início do processo terapêutico. Isso dura algumas sessões e inclui entrevistas, testes psicológicos e/ou neuropsicológicos, observação lúdica no caso de crianças, bem como outros procedimentos e atividades que sejam necessárias conforme cada tipo de caso. Com base nos resultados do psicodiagnostico é possível avaliar com mais clareza a dinâmica de personalidade do paciente e como ele tende a reagir ao quadro clínico ou problema que vem enfrentando. Isso permite ao psicólogo, além de ter um "raio X" da pessoa e da situação, estabelecer estratégias, técnicas e procedimentos a serem utilizados no caso. É importante saber que um processo de psicoterapia é diferente de um tratamento médico, em que ao iniciar o paciente já sabe quantas sessões fará, quantas doses de medicamento terá de tomar, etc. Na terapia mexemos com a psique e, ao mesmo tempo, com a forma como essa psique interage com o dia a dia da pessoa. E certas coisas não podem ser previstas, precisam se desenrolar, precisam ser vividas, sentidas e pensadas conforme acontecem.

Uma situação comum, e sobre a qual o paciente precisa ser avisado, é que nem sempre ele estará pronto para ter alta assim que o desconforto e os sintomas desaparecerem. Existem situações em que a pessoa tem plena consciência de que não está bem. Por exemplo, quadros como síndrome do pânico e outros transtornos de ansiedade, alguns quadros depressivos, entre outros. E muitas vezes, ao sair da crise e começar a retomar sua rotina normal, o paciente já pergunta se está pronto para ter alta. Não, não está. Uma coisa é sair da crise, e outra coisa é ter recursos e estar fortalecido o suficiente para não ter recaídas e novas crises. Por isso, a continuidade da terapia após o fim dos sintomas é importante, até que o psicólogo observe que a pessoa já está pronta para caminhar por si.

O psicodiagnóstico normalmente é repetido de tempos em tempos ao longo do processo terapêutico, para que se possa observar com clareza o desenvolvimento do paciente, as mudanças que já ocorreram e também para observar se surgem outros problemas ou conflitos que vêm à tona conforme a queixa inicial é trabalhada (o que é comum de acontecer, pois algumas vezes um problema mais grave encobre outros um pouco menores, mas que também causam desconforto e precisam ser vistos).

Outra situação que acontece algumas vezes é o paciente que já saiu da crise, já tem os recursos emocionais necessários  para dar conta das situações que vivencia... Mas não quer ter alta. Mas doutora, como você vai me dar alta se minha vida ainda está cheia de problemas?  Nessas horas, é importante mostrar para a pessoa que uma vida normal não é aquele final feliz de novela. Uma vida normal inclui problemas, desafios e alguns conflitos ou situações mais complicadas, e nenhum tipo de tratamento ou método muda isso. O que muda é a forma como a pessoa lida com essas situações, como maneja os conflitos e busca soluções para seus problemas. Em casos assim, é preciso mostrar para a pessoa como ela estava e como mudou (com base na fala dela, em resultados de testes, em dados de comportamento, etc.), apontar os recursos emocionais que desenvolveu e a confiança em si mesma que vem demonstrando. Além, é claro, de trabalhar o desligamento do vínculo com o psicoterapeuta, encorajando a independência.

Como deu para perceber, não é um processo tão simples, e nem sempre tão rápido quando o paciente gostaria. A psicoterapia é um processo que se insere na vida, que precisa ser vivenciado e nutrido no dia a dia para que dê bons frutos. Mas é também um processo que sempre nos faz crescer e descobrir formas e estratégias mais eficientes e tranquilas de levar a vida.

beijos,
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário