quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Rede social, segredos, vida pública e vida privada

Nas últimas semanas, algumas pessoas têm me procurado para conversar sobre questões como boatos, difamações e exposição excessiva nas redes sociais, em especial sobre uma rede que chegou ao Brasil há pouco tempo chamada Secret. Para quem não conhece, é um aplicativo/rede social anônima. Quando a pessoa baixa o aplicativo, ele se conecta aos contatos da pessoa que também usam o aplicativo, e então todos podem postar "segredos" de forma anônima, receber apoio e opiniões dos contatos (que também estão anônimos). O problema começou quando diversas pessoas passaram a difamar outras, com revelações, fotos de nudez e comentários impertinente. Chegou ao ponto de algumas pessoas se organizarem para pedir que o aplicativo saia do ar no país. 

Difamações em redes sociais já não são mais uma novidade no mundo de hoje. Acontecem com muito mais frequência do que se pensa e muitas vezes leva a consequências bem complicadas. Mas no Secret estamos assistindo a esse fenômeno de um jeito muito mais forte. Parece que os usuários realmente acreditaram na questão do anonimato. Esqueceram-se que ser anônimo no aplicativo frente aos seus amigos não significa que aquilo que elas postam não possa ser rastreado. Esqueceram-se que hoje temos delegacias especializadas em crimes virtuais (e difamação e coisas do tipo se enquadram nessa categoria). Esqueceram-se de que aquilo que elas fazem ou dizem tem consequências para muito além das curtidas e comentários dentro da rede social, espalha-se pela vida e, algumas vezes, pela vida de outras pessoas que não têm nada a ver com a história. E por último, mas não menos chocante, os usuários "esqueceram-se" que a ideia era postar os próprios segredos, não os do colega!

E daí? Temos aqui uma questão de limites bem problemática. O limite entre si mesmo e o outro, aquela ideia básica de respeito que nos diz que não temos o direito de difamar alguém. Claro que cada um pode ter sua opinião, inclusive a respeito de outras pessoas, mas ter uma opinião não dá o direito de dizê-la publicamente de forma a constranger ou difamar o outro. Não é novidade que todos temos nossos segredos e que, algumas vezes, dizê-los a alguém que não irá nos julgar (como os antigos diários, um amigo de confiança, um terapeuta...) dá um grande alívio. Também não é novidade que a maioria das pessoas sente uma certa "curiosidade" pela vida pessoal das outras. Mas esse tipo de situação de exposição em excesso nos fala de um limite muito mais sutil e que muita gente não nota: o limite para consigo mesmo, entre o que é público e o que é particular. Em outras palavras, não é só porque a pessoa fez algo que gostou muito, passou por maus bocados ou teve uma noite maravilhosa que o mundo precisa saber de certos detalhes pessoais. Isso é se respeitar.

Outro ponto que chama a atenção não é bem sobre os usuários, mas sobre o mundo. Quando as redes sociais foram criadas e se aperfeiçoaram, eu ouvia muita gente dizer que nelas é como se todos fossem celebridades. E parece que para muita gente, este é um grande atrativo (mais do que manter contato com amigos e familiares que estão distantes). No entanto, quando isso parece ter chegado ao auge, surge uma rede que apela para algo que sempre tivemos, mesmo fora do mundo virtual: o anonimato. E aí temos outra questão de limites, pensando em como as fronteiras entre vida pública e privada podem ser tênues e permeáveis.

Este parece ser um ótimo momento para que cada um pense um pouco sobre essas questões, sobre as formas como costuma se expor, sobre o que (para cada um) é público, o que você gostaria que fosse conhecido apenas por pessoas próximas e o que é apenas seu. Parece uma boa oportunidade ainda para que famílias e educadores conversem a esse respeito com suas crianças e jovens. Por que tanta gente se sente bem ao se expor em redes sociais para desconhecidos (mesmo que com a ilusão do anonimato) mas ao mesmo tempo se sente desconfortável ao se expor para pessoas próximas e queridas? Acredito que a resposta (seja ela qual for, cada um terá a sua) conta muito sobre a maneira como nos revelamos ou nos escondemos de nós mesmos.

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