quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A máscara e o espelho

Quando eu era adolescente participava de um grupo de teatro. Certa vez fizemos um exercício de expressão corporal. E em seguida, fizemos o mesmo exercício usando uma máscara sem rosto. Parece simples, mas isso realmente me marcou. O grupo logo notou como todos pareciam se soltar quando usavam a máscara durante o exercício. 

Na vida também somos um pouco assim. Temos muitas máscaras sem rosto, e podemos pintá-las com as cores e expressões que melhor encaixarem numa situação. Não falo de "falsidade", antes que me interpretem mal! Falo daqueles papéis sociais que todos cumprimos. No mundo formal/burocrático (por exemplo no mundo do trabalho) isso é fácil de ser notado. Ninguém responde a um cliente ou a algum colega de trabalho como quer. Responde-se o que precisa ser respondido, da forma como se deve. Ou seja, faz-se o que precisa ser feito. Porque é assim que anda o mundo burocrático: os papéis já são determinados e os roteiros meio que já estão escritos. São fáceis de representar, como o exercício de teatro com a máscara. Mas ao mesmo tempo, deixam pouco espaço para algo realmente autônomo e livre, quando isso é levado para outros contextos ou cenários. 

O problema começa bem aí, quando queremos carregar essas máscaras sem face para o mundo da vida, dos relacionamentos ou, se preferirem, para a nossa vida pessoal. Fica aquela coisa fria e distante. Aquela pessoa que não se envolve, nunca se dá a conhecer e que parece estar sempre do lado de fora da própria vida. Como se fosse "feio" ou errado se envolver com aquilo e aqueles que nos fazem bem. Como se não fosse adequado a pessoa se envolver com a própria vida e vivê-la ao máximo.

Aqui sai a máscara e entra o espelho. Quem é você quando se olha no espelho? Apenas um reflexo. Podemos olhar para qualquer pessoa, mas nunca para nós mesmos. No máximo vemos o nosso reflexo no espelho ou a nossa imagem numa foto, num vídeo, no olhar do outro. Uma curiosidade: pacientes com depressão profunda têm muita dificuldade de olhar para si mesmos e isso se reflete no mundo exterior quando eles passam a evitar espelhos, inclusive retirando ou cobrindo aqueles que têm em casa. Olhar para si não é tarefa fácil. Porque quando tiramos nossas máscaras, todas elas, não sabemos o que vamos encontrar ou se vamos gostar daquilo que veremos. Mais do que isso, nem sempre sabemos se vamos verdadeiramente reconhecer a nossa imagem.

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