sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Ágora - Confiança e relacionamentos

Bom dia Bia. Eu queria mandar uma pergunta pra Ágora. É assim eu sou homem, tenho 23 anos, minha vida é quase normal a não ser por um problema com meus relacionamentos. Eu tenho muita dificuldade porque nunca consigo confiar em ninguém. Mesmo com os meus amigos eu sempre acho que podem me fazer algo de ruim mesmo que demonstrem serem legais comigo e que nunca aconteceu nada demais. Porque sou assim? Prefiro ficar anônimo ta? Obrigado. beijos.
Anônimo


Bom dia, Anônimo!

Esse tipo de situação que você contou é cada vez mais comum hoje em dia. Vamos ver alguns lados da questão. Primeiro, hoje as pessoas são muito mais individualistas do que há algum tempo atrás. As famílias pouco convivem, e em muitos casos parecem até um grupo qualquer de pessoas que, por acaso, têm a chave da mesma casa, como ouvi por aí. Mesmo entre amigos íntimos e antigos, existe uma distância estranha. Tudo é meio burocrático, precisa ser marcado, combinado, confirmado... Até uma ligação parece que incomoda. Conversas são vistas como chateação e intromissão. Isso sem falar nas muitas pessoas que são gentis com desconhecidos na rua mas bem grosseiros com as pessoas mais próximas, aumentando ainda mais as distâncias emocionais e aquele sentimento de que sempre estaremos sozinhos no mundo. Tudo em nome do individualismo, da tal "privacidade". Veja que até a tecnologia, cada vez mais, é feita para uma só pessoa usar: os telefones da comunidade se tornaram telefones da casa, que se tornaram celulares. Só para pensar num exemplo simples.

Mas o problema é que apesar das pessoas quererem (ou pensarem que querem) toda essa "liberdade" levada ao extremo, elas não a suportam. A vida se torna chata, cinzenta, solitária e meio ameaçadora. No popular, surgem as pessoas carentes. E surge também a ideia de que todo mundo "tem que" ser extrovertido, sociável, ter mil amigos e tudo mais. Mas como ter amigos e relacionamentos sinceros e que valem a pena conviver se mal conhecemos a pessoa, e se pouco nos damos a conhecer? Fica aquela coisa meio fria e forçada. E porque conhecemos pouco, nos envolvemos pouco e o relacionamento fica ainda mais estranho. E porque tudo está estranho, não confiamos, temos dificuldade de ver essas pessoas no nosso futuro.

Se a situação for essa, Anônimo, a chave é fazer o caminho oposto. É melhor ter poucos amigos com quem convivemos e confiamos de verdade do que ter milhares de "desconhecidos simpáticos" na nossa vida. A confiança vem com o envolvimento (seja num relacionamento afetivo, nas amizades, na família). Para existir esse envolvimento, é preciso muita convivência, é preciso querer conhecer os outros e aceitá-los como são (e não da forma como queremos vê-los!), ao mesmo tempo que é preciso se dar a conhecer. Claro, com aquelas pessoas que realmente fazem diferença na vida da gente, não com qualquer "amigo" aleatório que acabamos de conhecer. Aquela pessoa simpática no metrô é apenas uma pessoa simpática. Os colegas são apenas colegas. Nem sempre o problema é medo de confiar, algumas vezes estamos apenas confundindo pessoas com quem temos uma interação gentil com amigos.

O que falamos até agora é o cenário em que vivemos hoje. Mas se a sua questão for mais da vida pessoal, se o problema é confiar, digamos, na namorada, na família, nos amigos íntimos, talvez seja o momento de pensar bem sobre como está escolhendo levar a vida. Se o problema for esse, faça um bom exame de consciência: algumas dessas pessoas já te fez mal? Se sim, foi de propósito? Resolveram a situação com uma boa conversa ou deixaram as feridas abertas? Caso essas pessoas sempre tenham sido fiéis e leais a você, então cabe pensar por quais motivos você acredita que pessoas que te amam iriam te fazer mal. Talvez, se o caso for com você apenas (e não com as outras pessoas ou com o estilo de interação de hoje em dia), possa existir aí questões ligadas à autoconfiança e autoestima, que podem ser resolvidas em psicoterapia.

beijos,
Bia


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