sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ágora - Medo de sair sozinha

Minha filha de 12 anos tem medo de sair na rua sozinha e mesmo de sair só com as colegas da idade dela, é normal isso? Nossa cidade é pequena e tranquila, não tem essa violência das grandes cidades que mostram nas notícias. Eu vejo que os amigos dela não tem esse medo e alguns até tentam ajudar se oferecendo pra ir e voltar em grupo pra escola e outros lugares. Eu me preocupo por que vejo as crianças querendo sair e passear e ela só vai se um adulto estiver junto.
Vânia


Bom dia, Vânia!

A princípio, os medos estão aí como uma defesa. Nesse sentido, é normal a pessoa ter medo de algo novo, ou que ela não sabe muito bem como será, ou ainda de situações que ela percebe como ameaça (mesmo que na realidade não sejam tão perigosas). Não é "anormal" uma menina de 12 anos ter um certo medo de sair só, especialmente se for uma situação nova para ela, mas ao mesmo tempo, é algo que foge do comum. Em geral, na pré-adolescência e adolescência a garotada busca uma independência maior. Claro que cada um faz isso no seu tempo e a independência só faz sentido quando é conquistada, quando parte da própria pessoa e nunca quando é imposta.

É interessante saber do que exatamente sua filha tem medo, Vânia. Da violência que a mídia mostra com tanta intensidade? De se perder? De encontrar pessoas que podem ser hostis? Ou seria a própria insegurança do início da adolescência? Uma criança que já era insegura tem mais chances de ter essa insegurança destacada na adolescência, fase em que é fundamental se "treinar" para a vida adulta e que, portanto, nos exige maior confiança do que a infância. Conhecendo o que realmente faz sua filha ter medo, se pode pensar em estratégias mais eficazes para lidar com ele. Outra possibilidade é o medo ser uma forma socialmente aceita de "exigir" a presença e o olhar cuidadoso dos pais e familiares, caso a menina não se perceba tendo isso da forma como precisa.

Comecem devagar. Não precisa ir para um bairro mais afastado ou um lugar desconhecido sozinha. A independência precisa ser parte do dia a dia. Já que os colegas se ofereceram para ajudar, quem sabe se sua filha começar a ir e voltar da escola com eles, aos poucos ela perceberá que não há o que temer, e que a experiência é até bem divertida. Talvez ela queira que algum adulto a acompanhe no primeiro dia, isso também a ajudaria a não se sentir "abandonada". Outra ideia é vocês estudarem o caminho junto com ela, talvez até desenharem um mapa, que ela poderá carregar na mochila para se sentir um pouco mais segura.

Procure, gentilmente, mostrar ara sua filha que ela está crescendo, Vânia. Não adianta dar uma super independência, porque isso assusta mesmo, é preciso começar devagar, com independências com as quais o jovem saberá lidar e poderá, assim, usar a experiência como algo que lhe dá confiança. Algo como "se consigo ir para a escola sozinha, devo acertar ir até a sorveteria que fica na rua de trás". Mostre o quanto você se orgulha das pequenas conquistas da sua filha, isso lhe dará maior confiança em si mesma e a fará perceber que não se trata de um abandono, e sim de uma situação feliz: ser cada vez mais responsável por si mesma e poder, com isso, fazer suas escolhas na vida. Pode ser uma boa ideia fazer uma pequena comemoração quando ela passar a sair só, o que funcionaria como um "rito de passagem" que lhe mostre que já está mais crescida (e isso pode ser algo tão simples como preparar seu prato preferido ou fazerem juntas algo que ela goste - claro, avisando o que estão comemorando). 

Mais importante que sair sozinha ou não, é a confiança que a sua filha tem em si mesma. Dependendo de como for, pode ser mais interessante demorar um pouco mais para sair sozinha e viver isso como uma conquista do que fazer às pressas e viver essa experiência como um abandono.

beijos,
Bia


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