quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Mobilidade: peregrinos, imigrantes, refugiados e vagabundos

Antes da gente começar com o artigo de hoje, faço um pedido para que compreendam o assunto não apenas ao pé da letra, mas principalmente de forma simbólica. Vamos conversar sobre mobilidade e, para isso, vamos usar algumas figuras de destaque: imigrantes, peregrinos, refugiados e vagabundos. Não pense nas figuras em si apenas, mas também nessas personagens como posturas que todos nós podemos assumir na vida em determinados momentos. Quando falo em mobilidade, não quero dizer apenas ir de um lugar para outro como um peregrino (ou qualquer outra das figuras que mencionei). A mobilidade não é só física, não é apenas ir de casa para o trabalho, para a Avenida Paulista encontrar os amigos ou para uma praia agradável passar um final de semana diferente. A mobilidade também é simbólica, é mobilidade de ideias e informações, é transitar por sentimentos, por esperanças e medos, é interagir com outras pessoas. Isso tem relação com as nossas escolhas, mas também com as possibilidades que se abrem a cada uma das figuras.

O peregrino é, em tradução livre, aquele que caminha através dos campos. Ele não é alguém do lugar, está apenas de passagem. Importante destacar, ele partiu por livre escolha e logo retornará ao seu lugar de origem. A mobilidade é um recorte no tempo, um momento de sua vida em que ele parte (geralmente em busca de algum tipo de interação com o sagrado, seja o que for que ele coloque nessa posição "sagrada"), no processo ele se transforma. Quando parte, o peregrino sabe que vai voltar mas, como ouvi de um deles, nem os outros e nem ele mesmo sabem quem exatamente ele será ao retornar, não é possível saber as transformações pelas quais passará.

O imigrante parte por escolha, seja essa escolha mais livre, seja ela motivada por situações problemáticas (como a miséria, a fome, o desemprego...). Ele escolheu partir mas carregará para sempre a dor de saber que dificilmente voltará, mesmo que alimente essa esperança. Em algumas regiões, era comum tocar o sino antes de um imigrante partir, com o mesmo toque de quando alguém morria. Algumas vezes a viagem era longa e perigosa e as pessoas realmente não sabiam se sobreviveriam. Outras vezes, aquele que partia já tinha mais idade ou uma saúde mais frágil e todos imaginavam que dificilmente retornaria. Mas no fundo, todos sabiam que aquela partida era um rompimento definitivo, uma "morte" simbólica. Quando o imigrante parte, ele já vai sabendo que, para quem ficou, ele está como que "morto". Dificilmente irá retornar em definitivo. Tudo o que lhe resta é reconstruir a vida no novo lugar.

O refugiado é um pouco semelhante ao imigrante, mas com uma diferença dramática e fundamental: ele nunca escolheu partir, foi forçado a isso (quando não expulso) por situações extremas, como guerras ou perseguições. Com frequência chega ao novo lugar sem nada, nem sequer documentos pessoais ou um visto de entrada, o que dificulta ainda mais sua situação. Ele dificilmente terá a escolha de voltar, não teve a escolha de partir e além disso deixou tudo o que possuía e conhecia para trás, para nunca mais ver, para dificilmente voltar a ser. Ele está completamente à mercê dos fluxos da vida.

Já o vagabundo (no sentido de: aquele que vagueia, que anda sem rumo e sem destino) é o extremo oposto. Ele não partiu e nunca chegará. Ele não saiu de lugar nenhum e não tem um lugar para onde retornar, nem mesmo apenas como referência ou ideal (como o imigrante ou o refugiado). O vagabundo prima pela mobilidade, pelo não envolvimento com o cenário. Ele está lá, mas apenas por enquanto. No momento seguinte, já não haverá nem vestígio dele, já estará longe, sabe lá onde.

O que quero dizer com essas descrições? A ideia é pensar sobre como todos nós somos assim. Como no mundo de hoje existem apelos para que ninguém se envolva demais (em relacionamentos, com o trabalho, com as pessoas, consigo mesmo). Não somos daqui (deste espaço, deste tempo, deste contexto, desta situação, desta família, deste grupo, desta empresa, ou o que você quiser acrescentar). Estamos todos apenas de passagem. Este é o apelo do mundo de hoje. Mas, ao mesmo tempo, as mesmas pessoas que idealizam essa mobilidade toda, sentem falta daquele modo de vida mais fixo. E esse sentir falta aparece de forma bem clara nos conflitos de relacionamento (que tendem a ser frágeis e passageiros), na indecisão quanto a que caminho seguir (em qualquer contexto da vida); em sintomas sociais como o individualismo, o não se importar com os outros e com o que é público, o aumento da violência gratuita; em sintomas psicológicos como a solidão mesmo estando cercado de pessoas, a insegurança, uma vida em meio a incertezas, o que em alguns casos pode levar a quadros de ansiedade, estresse, depressão...

Para terminar, quero deixar claro que nenhum modo de vida é bom ou ruim, melhor ou pior, certo ou errado, desde que seja uma escolha da pessoa. Nenhum ser humano é menos do que outro. Nenhum ser humano é um intruso neste mundo. Merecemos estar aqui, existir não é ilegal (ou não deveria ser). Ao mesmo tempo que a mobilidade é tentadora quando nos oferece novas formas de vida, ao mesmo tempo em que esse não envolvimento dá uma certa ideia de leveza, a mobilidade exige um preço caro: a liberdade levada ao extremo pode ser a pior das prisões para quem não sabe lidar com ela.

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