terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mythos - Larunda: mãe dos mortos

O mito de hoje é de origem sabina ou etrusca, não se sabe ao certo. Os dois povos que viviam na região central da Península Itálica, e foram um dos primeiros a serem conquistados pelos romanos. Como já comentei em outras ocasiões, os romanos eram extremamente estratégicos quanto à dominação de outros povos. Ao invés de banir a cultura do povo dominado, eles a englobavam à própria. Isso não apenas tornou a cultura romana cheia de pluralidades, mas facilitou esse processo de fazer com que diferentes povos se identificassem com os ideais romanos e se sentissem parte daquele povo.

Já conversamos algum tempo atrás sobre os Lare, os espíritos dos antepassados cultuados pelos romanos. Para lembrar este mito, entre no link: Os Lare: a força dos antepassados. Hoje vamos falar sobre Larunda. Ela era uma ninfa que não conseguia guardar segredos. No contexto romano, militar e cheio de estratégias, sempre com o foco em novas conquistas, isso era uma grande traição. Certo dia, Juno, a rainha dos deuses, perguntou a Larunda se ela sabia de algum caso extraconjugal de Júpiter, seu marido e líder dos deuses. Larunda ficou num empasse... e acabou revelando os segredos de Jupiter sobre seus casos românticos. Como era esperado, Júpiter ficou possesso e ordenou que lhe cortassem a língua. Depois, chamou Mercúrio (deus da comunicação, dos caminhos, do comércio e dos ladrões) e ordenou que conduzisse Larunda para o Mundo dos Mortos. Mercúrio, assim como Hermes na mitologia grega, tem o papel de psicopompo (condutor de almas). Acontece que Mercúrio se encantou com Larunda e acabou forçando-a a se deitar com ele. Como resultado, ela teve dois filhos, os Lare. Em algumas versões, ela passa a viver numa cabana escondida na floresta, se tornando a protetora do lar (é chamada de Lara). Quando chamada de Larunda, ela vive em algum lugar subterrâneo e é a mãe dos mortos, das almas e dos antepassados. 


Questões para reflexão:

1- Larunda é o aspecto mãe-terra dos Lare. Não apenas como uma entidade, mas como uma ideia, como a noção de se pensar a terra em si como mãe e, assim, como antepassada de todos nós. Esse conceito traz o sentimento de ser parte de um todo maior. Em quais ocasiões você experimenta uma sensação semelhante? Essa percepção tem qual resultado em você (aconchego, sentimento de proteção, de assombro, ou ainda desconforto...)?

2- Larunda e Lara são aspectos diferentes da mesma entidade, assim como nós também temos os nossos diferentes lados. Olhe para si e para o seu jeito de ser e perceba as diversas faces que você tem, as diferentes personagens que se mostram em cada contexto ou tipo de situação que você vivencia. Quem são essas personagens? Como você as chamaria?

3- Larunda, a mãe dos mortos, nos traz uma reflexão interessante: na morte também existe vida! Simbolicamente, quando conheceu Mercurio e teve seus filhos, a ninfa já estava morta, pois apenas dessa forma poderia ser conduzida pelo psicopompo, sendo uma alma e não uma criatura viva. Assim, ela tem seus filhos (os espíritos dos antepassados) depois de morta. As mortes simbólicas que todos nós passamos algumas vezes na vida (as grandes perdas, os momentos de luto, uma situação muito difícil e que parece não ter saída, uma doença grave...) também trazem um potencial imenso. Essas "mortes" podem até nos lançar nas profundezas da terra. Talvez, no início, a gente se deixe levar pela desesperança, pelo medo e pela dor. Mas eventualmente percebemos que é nas profundezas da terra que a semente se nutre para crescer, florescer e dar frutos num futuro breve.

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