terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mythos - Saci Pererê: sintomas, prevenção e acontecimentos desagradáveis

Esta semana vamos falar sobre uma das criaturas mais conhecidas do folclore brasileiro, o Saci Pererê. A origem do Saci está num mito indígena tupi-guarani. Mas o curioso é que o Saci indígena não era um menino, e sim um pássaro mágico que, por toda aldeia que passava, trazia desgraças e mal entendidos. Com a chegada de outros povos ao Brasil, em especial os africanos e portugueses, o mito ganhou contornos antropomórficos, isto é, o Saci passou a ser visto como menino, embora ainda hoje, no extremo norte do Brasil, que tem maior influência das culturas indígenas, ainda existe essa versão do pássaro.

O Saci Pererê é uma espécie de duende, um menino negro de uma perna só, que usa um gorro vermelho e está sempre com o cachimbo na boca. Ele aparece sempre durante a noite, com gritos e assobios, por onde passa faz muitas travessuras, como fazer com que viajantes e tropeiros se perdessem, fazer trança nas crinas dos cavalos, azedar o leite, impedir que o milho de pipoca estoure e bagunçar os lugares por onde passava. Nas fazendas do interior do país, sempre que algo aparecia revirado da noite para o dia, todos já sabiam que o culpado era o Saci. Até hoje, nos lugares mais afastados das cidades, é comum que as pessoas deixem fumo para o Saci nos galhos das árvores ou na janela de casa, para que ele fique contente e não cause estragos.

Algum tempo depois, outra versão surgiu, a partir do Saci menino: o Romãozinho. Também era um menino negro que aparecia durante a noite bagunçando tudo. Diz a lenda que ele era um menino desobediente que bateu em sua mãe, por isso não tem quem olhe por ele e vaga sozinho por aí, sempre aprontando.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto que chama a atenção neste mito é a forma como ele se desenvolve: de mito animal (o pássaro que traz as maldições), tornou-se um mito humanizado (o Saci) para, então, ter uma história mais elaborada na forma do Romãozinho, que tem uma história de vida explicando sua situação. A vida da gente funciona assim também. Um comportamento ou sintoma começam como algo de que temos pouca consciência (como o pássaro, pois nas mitologias, seres de forma animal ou com partes de animais, em muitos casos, representam aqueles lados nossos com menos consciência, menos racionais). Então, o sintoma ou comportamento se estabelece e nós tomamos consciência dele, isto é, percebemos que ele existe e como influencia a nossa vida, como quando o pássaro se torna um menino arteiro e todos já sabem quem é o autor das travessuras... Apenas numa terceira fase é que nosso sintoma ganha um discurso, conforme contamos sua história (por exemplo, naquela consulta inicial, em que o paciente conta como foi que começou a ficar deprimido, em que momentos a ansiedade mais aparece ou conta a história do AVC de seu familiar e quais tratamentos tem feito desde então). Apenas nessa terceira fase, quando nossos sintomas ou comportamentos pouco funcionais ganham um discurso (uma história, um modo de se mostrar) é que ele pode ser verdadeiramente acolhido e cuidado. Qual a história dos seus sintomas (se não tiver um sintoma, tente fazer o exercício com algum comportamento, por exemplo, impulsividade ou dificuldade de interação, etc.)? E quais outras histórias você percebe por trás do sintoma/comportamento, mesmo que aparentemente não estejam relacionadas diretamente a ele? 

2- Outro ponto interessante é o fato da população deixar fumo para apaziguar o Saci e prevenir suas travessuras. Comportamentos preventivos (num sujeito ou num povo) mostram amadurecimento psíquico, pois existe a capacidade de ir além do aqui e agora e pensar no futuro, supondo que esse porvir nem sempre será tão lindo e tranquilo quanto a gente gostaria... Prevenir implica em buscar soluções para problemas e dificuldades que não estão presentes (por enquanto!). Você previne acontecimentos desagradáveis na sua vida? Como?

3- Romãozinho não tem quem olhe por ele desde que foi rude e se desentendeu com sua mãe. Desde então, vaga pela noite fazendo travessuras, deixando com que a população se sinta tão desprotegida quanto ele mesmo provavelmente se sente. Na vida real, você reconhece algum comportamento semelhante em si? Algumas vezes repetimos com os outros um mal que sofremos, numa tentativa de superar o acontecido conforme desempenhamos o papel inverso, como agressores que, no passado, foram vítimas de agressão, ou pessoas que foram abandonadas e posteriormente abandonam ou negam cuidados a suas crianças. Mas esse é um método nada eficaz, só agrava o estado da pessoa e faz novas vítimas. O ideal é buscar ajuda e começar a refletir sobre o que passamos, criando um discurso (como no ponto 1), para, depois, dar a esse discurso novos olhares e novos sentidos.

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