sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ágora - Seguir de volta nas redes sociais: reconhecimento, afeto ou conveniência?

Nas redes sociais, existe o fenômeno SDV (sigo de volta), pessoas que passam horas conectadas apenas atrás de 'seguidores', existem até sites que vendem 'seguidores'. Pergunto: quais os elementos psicológicos envolvidos nesse comportamento, que na minha opinião é bizarro?
Antecipadamente, obrigado
Érico


Olá, Érico!

As redes sociais são um fenômeno muito curioso dos dias de hoje, pois mudaram por completo a maneira como interagimos e nos relacionamos, e mesmo a relação do ser humano com a tecnologia. Tudo se tornou um pouco mais público, e as pessoas quase sempre se revezam entre a exposição excessiva de momentos que até poucos anos atrás eram íntimos, ou a preocupação quase doentia em não se expor e não mostrar detalhes da vida que não fariam diferença alguma se aparecessem ou não (e que, geralmente, quase ninguém se interessaria em saber). Ao mesmo tempo que a vida fica mais pública, fica mais imediata também. Nem precisamos voltar tanto tempo assim, para antes dessas tecnologias, basta pensar na época em que os emails eram novidade. Será que Fulano olha os emails dele todos os dias? Será que tem um email só para si ou devo escrever no da família? Será que vai me responder logo? Hoje, com as redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, isso é impensável. E esse imediatismo, muitas vezes, em lugar de aproximar as pessoas, se transforma numa nova e inesgotável fonte de estresse. Mas vamos ao tema!

Percebo nessa questão de seguir de volta, dois traços psicológicos que se destacam. Um deles é o narcisismo, um egocentrismo muito exagerado. O perfil na rede social passa a ser como uma revista de fofocas que fala apenas da pessoa em questão! Se acordou ou foi dormir, o que comeu, por onde andou, com quem esteve... A pessoa narcisista, apesar de parecer muito segura de si, esconde uma grande insegurança, por isso precisa ter sua personalidade, suas escolhas e seu comportamento legitimados, validados por outras pessoas o tempo todo. E no mundo de redes sociais, essa validação ocorre por meio de "likes" e "curtidas", um grande número de seguidores e compartilhamentos, que são sentidos por essas pessoas como carinho e afeto. 

Outro fator psicológico que percebo nessa questão, e que pode ou não estar associado ao narcisismo, é a baixa tolerância à frustração. Quase ninguém aprende a conviver com as frustrações e fracassos que fazem parte da vida de todos, não sabem ouvir "não". E aí, quando chegamos ao plano dos afetos (e curtidas, compartilhamentos ou seguidores são, nesse contexto, algo que demonstra algum tipo de afeto, ainda que um simples legal, eu também penso assim, amigo!), ocorre que não basta a pessoa demonstrar seu afeto, ela precisa receber do outro o mesmo carinho, na mesma intensidade, senão ela estaria "fazendo papel de trouxa"... e a vida não é bem por aí. Exigindo que siga de volta ou que curta fotos e posts em retribuição, é como se essas pessoas sentissem que podem controlar os afetos do outro para não se frustrarem. Eu te sigo se você seguir de volta. Eu curto sua foto e te digo que está lindo se você também curtir a minha e dizer que estou uma diva. Eu te apoio enquanto você me apoiar. Eu te amo, mas apenas se você me amar. A vida não é assim!

A vida tem altos e baixos. Tem momentos em que somos as estrelas e momentos em que somos platéia, e ainda tem momentos em que estamos nos bastidores arrumando a bagunça, remendando o figurino e preparando algo novo. A vida não é uma festa o tempo inteiro. Claro que é muito bom quando sentimentos (mesmo que uma simples e pós-moderna admiração na rede social) são recíprocos. Mas quando não são, não há motivos para "deletar" aquilo que sentimos ou pensamos apenas porque o outro não pensa ou sente igual. No meu ponto de vista, falta a essas pessoas maníacas por seguidores, uma boa dose de confiança em si e naquilo que pensam/sentem, mesmo porque, se eu só admiro alguém porque a pessoa me admira em retribuição, na realidade eu seria uma pessoa falsa, que estaria usando esse afeto enquanto fosse conveniente... e a vida é curta demais para viver de aparências.

Espero ter contribuído para a discussão.
beijos,
Bia


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2 comentários:

  1. o famigerado desenho 'south park' dedicou um episódio a essa problemática das redes sociais: a ânsia por seguidores, etc, com a pergunta básica: "quem tem mais poder, o usuário ou o perfil?"

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  2. Muito bom esse post, parabéns.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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