terça-feira, 14 de outubro de 2014

Mythos - A noiva espírito: vida, morte e a nossa meta

O mito de hoje é do povo algonquino, um povo nativo que vivia em tribos no nordeste da América do Norte. No mito, a questão da morte de uma pessoa querida e tentativas de revertê-la são usadas como metáforas para discutir a questão do irreversível e inevitável, coisas da vida que simplesmente não estão nas nossas mãos e não podemos controlar. Podemos com isso pensar ainda na questão da existência e da maior meta que cada pessoa tem, do sentido que cada um percebe em sua própria vida

Imagem: The ghost bride, de Atropo Tesiphone, DeviantArt.
Havia, muito temo atrás, um guerreiro muito leal e corajoso. Ele lutou em muitas batalhas, trazendo honra e orgulho para seu povo. Esse guerreiro estava noivo da moça mais linda da tribo. Ela era muito doce e amorosa, e eles tinham planos de casar em breve e formar uma linda família. Acontece que, por uma infelicidade da vida, a noiva morreu na véspera do casamento. A morte nem ao menos pensou que o casal se amava, que a moça era jovem e uma boa pessoa e que ainda tinha muito para viver. Também não se importou com o fato do guerreiro ser um homem bom e leal, que não merecia tamanha dor. Porque a morte é uma daquelas coisas que chega para todos, sem perguntar se pode ou como seria. Ela apenas acontece e nos deixa perdidos, pensando naquela vida que poderia ter sido, mas não foi.

Como era de se imaginar, o guerreiro ficou muito abalado com a morte da noiva. Enquanto os outros rapazes caçavam, ele passava os dias sem comer e nem dormir, ao lado do túmulo da noiva, contemplando o nada. Até que um dia escutou por acaso uma conversa dos mais velhos da tribo, que comentavam sobre o caminho para o mundo dos espíritos. Sem pensar duas vezes, partiu na mesma hora, decidido a trazer a noiva de volta!

O guerreiro caminhou sem parar por dois dias, e quando olhava ao seu redor, não havia nenhum indício de estar se aproximando do mundo dos mortos. Até que ele avistou uma cabana e parou por ali. Uma noite bem dormida não faria mal... O homem que vivia lá era muito sábio, e contou ao guerreiro que viu a noiva passar por ali há pouco tempo, mas avisou que, para segui-la, teria de deixar o corpo físico para trás e ir até ela apenas com seu espírito. O guerreiro seguiu as instruções do sábio e assim foi feito. Ele viu a esposa pouco antes de chegar ao lago em que ficava a ilha dos espíritos, mas lembrou-se que não se deve falar com os mortos antes de chegarem ao seu destino. Ele entrou numa canoa e seguiu a esposa. Quase no meio do caminho o céu se fechou e uma grande tempestade caiu, arrastando para longe alguns mortos que não eram dignos das bênçãos que aguardavam na ilha. O guerreiro e a esposa, que eram pessoas justas, continuaram seu caminho e chegaram em segurança à ilha dos espíritos. 

Na ilha era sempre primavera, o tempo era bom e o sol brilhava sempre. Flores de todas as cores desabrochavam o tempo todo, e árvores com frutos doces e maduros estavam por toda parte. O guerreiro encontrou sua esposa na praia, deram as mãos e caminharam. Mas pouco depois, uma voz muito boa, do Mestre da Vida, disse ao casal que o guerreiro precisava retornar, pois ainda não era sua hora. Ele obedeceu e se tornou um grande chefe da sua tribo, vivendo o resto dos seus dias em paz por saber que reencontraria sua amada.


Questões para reflexão:

1- O primeiro ponto para refletir é que cada um só pode viver a sua própria história. Podemos caminhar ao lado de alguém, dar forças a essa pessoa, mas nunca agir e sentir no lugar dela. Isso fica claro no mito quando, ao atravessar o lago, cada espírito entra e conduz sua própria canoa, cada um só pode sofrer as consequências (boas ou ruins) daquilo que fez, cada um só pode responder por si, por mais que algumas vezes gostaríamos de responder por quem amamos para lhe atenuar o sofrimento. Como você se responsabiliza (isto é, como responde) por si? Existe a tendência a responder pelos outros, ou a esperar que outras pessoas escolham e ajam por você? Se sim, em quais momentos?

2- A morte e o Mestre da Vida são duas personagens muito interessantes. Apesar de opostas, vida e morte são faces da mesma moeda: a existência. Ninguém pergunta se queremos morrer, e nem se queríamos viver... Apenas existimos e isso basta para que passemos a vida procurando um sentido para isso, mesmo que a gente sequer perceba esse movimento. Quando pergunto sobre o que dá sentido à nossa vida, as pessoas me dão muitas respostas. A família, as pessoas queridas, as práticas religiosas, os momentos de alegria, o trabalho e a sensação de dever cumprido, ajudar a melhorar o mundo, e por aí vai... Mas, quando pergunto o que vale a nossa morte, a coisa muda! Pare por alguns minutos e pense: o que dá sentido à sua existência a ponto de valer a sua vida/morte? O que vale seu sacrifício (mesmo que em sentido simbólico)? Quase sempre, é aí que mora a nossa meta de vida.

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