quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O desejo de viver em outro país: 5 reflexões

O tema do artigo de hoje foi sugerido pela leitora Rogéria, e é algo que observo em muitas pessoas hoje em dia, pacientes, colegas e amigos: o desejo de ir fazer a vida em outro país. Essa vontade de ir embora, se colocada em prática, é uma escolha daquelas que deixam uma bifurcação no nosso caminho, uma espécie de rompimento radical com a vida que a gente levava até então. Por isso, é importante examinar alguns pontos sobre a situação, para que a escolha seja feita e vivida da forma mais harmoniosa possível.


1- Você está fugindo dos seus problemas?
Não é uma regra, mas algumas vezes isso acontece. O desejo sincero não é de ir viver em outro lugar, e sim de deixar os problemas para trás. Sejam dificuldades financeiras, questões familiares, um trabalho pouco estimulante, questões emocionais mais profundas... O problema é que lá no fundo da bagagem, esses problemas todos pegam carona. Independente de onde se planeje viver, é preciso encará-los e lidar com eles. O fato é: ninguém deixa o país de origem porque tudo está bem. O que motiva a mudança precisa estar claro para a pessoa.

2- Existem dificuldades em todos os países...
Todo lugar tem regras e leis que precisam ser seguidas, todo lugar tem chefes e supervisores exigentes e rigorosos, algum colega sem noção ou um vizinho mal humorado, todo lugar tem normas culturais que precisam ser respeitadas e que nem sempre compreendemos bem o porquê... É uma ilusão acreditar que nesses aspectos as coisas serão tão diferentes assim. O cenário é outro, mas a situação em si é exatamente a mesma. Todo país é um lugar fantástico para se viver quando a gente se envolve com a vida.

3- Por quanto tempo essa experiência no exterior duraria?
A ideia é ir fazer um curso fora ou está sendo transferido pela empresa com data para (possivelmente) voltar? Nesses casos, a situação é mais simples, pois já sabemos de antemão que logo voltaremos ao nosso país, é apenas uma experiência diferente por uns tempos. No entanto, se a ideia for, de fato, ficar por lá, é preciso pensar em tudo com mais cuidado. De quanto em quanto tempo voltariam para o país de origem para rever familiares e amigos? A princípio, as pessoas sempre dizem que "em todas as férias!", mas isso não é a realidade... Quanto mais nos envolvemos com a nova vida, mais difícil é retornar à antiga, ao mesmo tempo que, se não nos envolvermos, dificilmente as coisas dariam certo. Meus pais só conseguiram retornar ao país de origem mais de 40 anos depois de saírem de lá. Conheço muitas pessoas que nunca voltaram. E tantos outros passam pela mesma situação. Isso deixa uma lacuna na nossa existência, e muitas vezes é bem difícil lidar com ela.

4- A adaptação no novo país.
Todos os que vão te acompanhar realmente querem ir (marido/esposa, filhos, namorado/a, pais, sogros...)? Ou a ideia é ir sozinho? E se for sozinho, como seria para você não ter ninguém num lugar desconhecido? Onde iriam viver? Já viram trabalho? Se for com as crianças, como seria a adaptação delas numa escola estrangeira, com outra língua, outros costumes, sem os amiguinhos? Todos falam minimamente a língua do novo país? Tudo isso precisa ser muito bem conversado, para que a mudança seja mais tranquila.

5- Preconceito.
É difícil ser estrangeiro. E é difícil ser filho de pais estrangeiros. Às vezes fica aquele sentimento de não ser completamente entendido, apenas "tolerado", aquela sensação chata de não fazer parte do grupo, de nem sempre entender a situação ou sobre o que exatamente as pessoas estão falando, por mais que as duas culturas sejam semelhantes. Preconceito e discriminação, apesar de ser contra as leis da maioria dos países, é algo que infelizmente acontece muito mais do que se pensa e deixa marcas muito ruins na gente. Este é outro ponto a ser considerado, especialmente na questão de como iremos lidar com essas situações e, quem for se mudar com a família, instruir suas crianças sobre atitudes que podem ser tomadas.

Hoje em dia, com a globalização e o avanço tecnológico (especialmente os meios de transporte e de comunicação), parece que as distâncias ficam mais próximas entre povos e culturas. Entretanto é preciso perceber que, apesar de ser possível ir e vir de um continente a outro em menos de um dia (o que antes poderia levar meses) ou mesclar diferentes culturas ao nosso gosto, nem sempre as coisas funcionam desse jeito. Há nem tanto tempo assim atrás, quando um imigrante partia de sua terra natal, o sino da igreja local tocava como se alguém houvesse morrido. Isso é muito forte, é realmente um fim, e isso precisa ser levado em conta antes dessas grandes mudanças. Tentar a vida em outro país é um passo válido e meio que "na moda" hoje em dia, mas precisa ser planejado com cuidado para que essa experiência seja proveitosa.

Quem se interessa pelo tema e quiser ver outro artigo sobre mobilidade, clique aqui e leia Mobilidade: peregrinos, imigrantes, refugiados e vagabundos.

Um comentário:

  1. Bia, muito obrigada pela atenção de sempre.

    Muitas dúvidas que eu tinha foram sanadas com esse post. Mas, também percebi que preciso refletir sobre outros questionamentos que sequer tinha dado a devida atenção.

    Não é novidade que adoro seu blog, mas é sempre bom falar rsrs

    Abraço.

    Rogéria

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