quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ágora - Família não aceita a orientação sexual da filha


Bom dia Bia, tudo bom? Então, eu e minha mãe somos muito amigas e tudo mais. Somo muito unidas. Ela sempre me disse que eu posso contar qualquer coisa a ela. Bom, acontece que eu confiei e acabei contando a ela que havia beijado uma garota e ela praticamente surtou.

Ela me xingou, chorou, disse que tinha vergonha de mim, etc. A partir daí eu resolvi não tocar mais no assunto e nem em nenhum outro. Passei a não contar nada sobre mim e novas experiências a ela. Eu entendo que pode ter sido um choque, mas não esperava esse tipo de reação. Eu esperava uma conversa civilizada. Hoje em dia ela fica em cima de mim, perguntando com quem ando e dizendo que tem "trauma" da situação. Procuro não discutir, mas isso me magoa muito. Eu não sei como faze-la aceitar esse meu lado (sou bissexual na verdade). De qualquer forma, sinto que no futuro isso vai me prejudicar muito. O que eu faço?


Obrigada pela atenção e desculpe o incômodo.
Anônima


Olá, Anônima.

Essa situação infelizmente é muito comum. Muitas famílias reagem dessa maneira, e eu sei como isso é chato. Se a relação entre você e sua mãe sempre foi boa, provavelmente ela só precisa de um tempo para compreender. Estranho isso não é? Estranho pensar como nossos pais, que sempre foram pessoas boas conosco, que são pessoas coerentes, podem "não entender" o amor fora dos padrões tradicionais. Afinal, amor é amor, beijos são beijos, e nós sabemos que isso é o que importa.

Não sei a idade da sua mãe. Mas especialmente se ela já for mais velha, ou se recebeu uma educação muito rígida, na certa ela cresceu escutando que o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é "errado", já associa a homo/bissexualidade a uma série de estereótipos de abuso de drogas, criminalidade, doenças, prostituição... E por mais que a gente saiba que não é nada disso, por mais que hoje em dia tudo seja mais liberal (ainda bem!), por mais que a gente queira gritar que eles estão malucos, é bem difícil para eles desconstruir essas ideias e passar a ver de outra forma. Mas não é impossível. Muito provavelmente, conforme a sua mãe digerir a novidade, conforme ela perceber que você continua a ser quem sempre foi, a filha carinhosa e companheira, ela começará a mudar a visão dela sobre a homossexualidade.

Tem pais ainda que agem assim por medo. Medo do preconceito e da violência que pode acontecer nas ruas, infelizmente tem muita gente ruim por aí. E nesse medo, acabam reproduzindo o preconceito dentro de casa, o que pode ser ainda pior. Uma coisa é ser discriminada ou hostilizada por um colega, outra coisa bem diferente é enfrentar isso dentro de casa. Você confiou nela, talvez esperasse algum apoio emocional ou quem sabe uma conversa tranquila (como certamente teria acontecido se você contasse que beijou um garoto), e não esse tipo de reação. Provavelmente, quando sua mãe digerir melhor a ideia, vai perceber que ser hetero, homo, bissexual, é apenas um detalhe. Não muda caráter, e muito menos o amor que une você e sua mãe.

Não acho que se fechar pode ser uma boa escolha. Por um lado, ela não vai se irritar (e nem você). Por outro lado, fica aquela tensão chata no ar, aquele sentimento de confiança perdida, de que tudo pode explodir a qualquer momento. Dê um tempo a ela, mas não abra mão de falar sobre isso. Sem bater de frente, sem rebeldia, não é por aí que se quebram tabus e preconceitos. Aos poucos, com muita calma. Pode levar tempo, mas como você contou, o relacionamento entre vocês sempre foi bom, sua mãe te ama e se preocupa com você, logo ela perceberá que juntas vocês poderão superar essas tensões, verá que o que importa para uma mãe é ver a filha bem e feliz, tanto faz a orientação sexual. Um dia ela percebe que vale mais aceitar sua orientação sexual do que te ver frustrada e reprimida só para estar no padrão. Na convivência ela aprende que gostar de meninos ou de meninas (ou, por que não, dos dois) não muda o caráter de ninguém.

Se as coisas não melhorarem, não hesite em procurar um psicólogo (para você, pois não é nada fácil enfrentar isso sozinha; para ela superar essas ideias ultrapassadas e refletir um pouco; ou ainda para as duas juntas poderem se entender e conversar de forma franca e aberta). Importante: psicólogo não muda a orientação sexual de ninguém. Homossexualidade não é doença e nem transtorno psíquico, e sim um dado sobre a nossa identidade, sobre o nosso jeito de ser, como seguir esta ou aquela religião, torcer para determinado time, ter certa preferência política... Somos o que somos, e o que vale nessa vida é a gente ser sincera com a gente mesma e coerente com os nossos sentimentos e as nossas verdades.

Você foi uma menina muito corajosa. Eu sei que agora pode não parecer, mas com respeito, paciência e muita conversa, é possível superar esse conflito entre vocês. Se precisar conversar, tem aqui uma amiga. 

Beijos,
Bia


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