quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A geração que não se preparou para o mercado de trabalho

Alguns chamam de "geração Y". Outros, apenas de "jovens". Estamos falando da geração atual, que ingressa ou ingressou há pouco no mercado de trabalho e, há tempos, provoca discussões e reflexões sobre a forma como as empresas e o mundo do trabalho poderiam ser inovados. De fato, muitas empresas se humanizaram em diversos pontos, indo desde as roupas menos formais (algumas trocaram a roupa social por jeans, camiseta e até bermuda!), maior informalidade na interação entre os colaboradores, ambiente descontraído, com jogos e video games, e mesmo a forma de disposição da mobília, que passou a favorecer a interação. Claro que isso é interessante e há pontos positivos nesse novo "estilo" de trabalhar, como a melhora na produtividade e a redução do estresse, para citar alguns.

No entanto, sendo este um espaço voltado para a psicologia e para o autoconhecimento, o ponto a ser discutido não é a empresa, mas sim os seres humanos que a "animam". Hoje em dia, boa parte das empresas já não são tão formais e permitem uma liberdade maior que décadas atrás, quando não apenas o trabalho, mas o mundo de forma geral (as escolas, a família, a sociedade) adotava posturas muito mais rígidas e hierarquizadas. O ponto é que ainda assim, tenho ouvido de muitos jovens que não conseguem se adaptar às formalidades e exigências do mundo do trabalho. 

Escritório da Google. Lembrando que a questão aqui não é a maior ou menor formalidade no local de trabalho,
e sim que seja o contexto como for, ainda existem prazos, responsabilidades e a expectativa de um comportamento adulto.
Minha primeira reação é perguntar se acontece algo irregular no contexto em que atuam, ou seja, se são registrados e pagos conforme dizem as leis, se sofrem algum tipo de agressão ou assédio (moral, sexual...), se o ambiente é hostil... Prontamente, respondem que tudo é correto como deveria. Então, pergunto se gostam da profissão que têm. Muitas vezes, respondem que adoram. Conforme a conversa flui, percebo que são jovens que, infelizmente, não foram preparados para o mundo do trabalho. Não se engane com o meu comentário! Muitos têm uma formação impecável: falam diversas línguas, estudaram fora do país, fizeram pós graduação, cursos extracurriculares, tocam algum instrumento, frequentam museus, teatros, exposições, veem filmes, leem... Mas, apesar do preparo intelectual e da competência, não estão felizes.

O problema não é esse. A raiz é o aspecto emocional. Ingressar no mundo do trabalho é algo muito ligado a ingressar no mundo adulto. Não é algo que se limita à inteligência ou às capacidades. É algo marcado pelas nossas emoções. São elas que dão o colorido à forma como falamos e nos comportamos, à forma como criamos laços e interagimos com as pessoas, por fim, à forma como afetamos e somos afetados pelo nosso ambiente. Em muitos casos, não é a falta de preparo acadêmico ou a inexperiência que dificulta a vida profissional, e sim a falta de preparo emocional. Foram educados para saber bastante, mas não para virar adultos. Para liderar, mas não para respeitar a ordem e a hierarquia. E sofrem com isso. Angustiam-se. Adoecem.

Queixam-se que o trabalho é entediante, que não permite "realizar outros sonhos", como viajar, ter tempo livre, ser reconhecido e admirado. Não vêem que, para que isso ocorra, antes é preciso  "fazer por merecer", trabalhar com envolvimento e competência. Uma pessoa querida costuma dizer que só quem admira de forma despretensiosa é mãe e pai, e olhe lá! Queixam-se que o chefe não os entende, mas não vêem que o chefe não está lá para mimar ou entender suas necessidades emocionais, apenas para organizar e coordenar as tarefas referentes ao trabalho. Querem "seguir seus sonhos" como todo mundo supostamente faz, mas ignoram que a própria expressão "seguir os sonhos" ganhou popularidade apenas nas últimas décadas do século XX, e até então, sonho e realidade eram contextos mais possíveis de serem conciliados. Queixam-se que o mundo é duro e burocrático, que o trabalho deveria ser mais leve e informal, mas, muitas vezes, burocratizam as relações da vida pessoal e os momentos de lazer de forma mais intensa que as gerações anteriores supostamente faziam. Essas gerações mais antigas ao menos encontravam uma "folguinha" da pressão e da "dureza" do mundo do trabalho entre familiares, bons amigos e domingos de sossego. Preparar-se para o trabalho é preparar-se para crescer. E isso inclui os aspectos emocionais: maturidade, jogo de cintura e uma dose saudável de disciplina, sem perder a maleabilidade e o sorriso no rosto.

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