domingo, 1 de setembro de 2019

Palestra e livro: neurociência e tecnologia


No início da semana apresentei uma palestra sobre os aspectos neuropsicológicos do uso de tecnologia, englobando transtornos relacionados e também o uso dessas tecnologias para tratamento e reabilitação neuropsicológica. 

O evento aconteceu no Congresso Internacional de Ética Teológica, lá em Aparecida - SP. O conteúdo foi publicado num dos capítulos do livro "Ética: entre poder e autoridade", organizado por Márcio Fabri dos Anjos e Ronaldo Zacharias. 

Para adquirir o livro no site da editora, basta clicar aqui.

Deixo, novamente, meus agradecimentos aos organizadores do evento, pelo convite e acolhida!



quarta-feira, 10 de julho de 2019

Benefícios neuropsicológicos de escrever à mão

No último domingo saí no jornal A Tribuna de Santos, na coluna da jornalista Joyce Moyses da AT Revista. Dei uma entrevista e apoio técnico enquanto neuropsicóloga sobre os benefícios que a prática de escrever à mão pode trazer.

Escrevendo à mão, usamos mais áreas cerebrais e redes do que digitando. Isso ocorre porque integramos, na mesma tarefa, áreas e funções relacionadas à percepção, cognição e motricidade. Com isso, funções como memória, aprendizagem e diversos aspectos cognitivos se exercitam e se fortalecem, numa atividade acessível a todas as idades e praticamente sem custo!

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Alzheimer

O que é?
Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, ou seja, uma doença irreversível em que ocorre a morte progressiva de neurônios, comprometendo as funções do sistema nervoso. É o principal tipo de demência e uma das principais causas de morte em idosos.

Origem:
O psiquiatra alemão Alois Alzheimer descreveu a doença pela primeira vez ao atender uma paciente entre 1901 e 1903. Após a morte da paciente, em 1906, Alzheimer estudou seu cérebro e o prontuário, encontrando uma estranha substância acumulada no córtex (a proteína beta-amilóide, sobre a qual falaremos mais à frente). Ele apresentando o caso no mesmo ano, no 37º Encontro de Psiquiatras do Sudoeste da Alemanha. Os colegas ficaram desconfiados quanto ao "novo" distúrbio. Com a derrota da Alemanha nas duas Guerras Mundiais, os achados do Dr. Alzheimer ficaram de lado. Apenas na década de 1960, com o aumento da longevidade (e de casos da doença) se voltou a falar sobre o assunto. Hoje, conforme a expectativa de vida avança cada vez mais, é fundamental que profissionais de saúde e famílias com idosos estejam atentos aos primeiros sintomas.

O que ocorre no cérebro de um paciente com Alzheimer?
O cérebro acumula uma proteína chamada beta-amilóide que, por sua vez, forma placas. Essas placas destroem os neurônios, gerando perda de material cerebral e ocasionando os sintomas da doença. O líquor (líquido cefalorraquidiano), que circula ao redor do sistema nervoso central e deveria fazer a "limpeza" desse tipo de substância antes das placas se formarem, acaba não dando conta dessa função. Com isso, a perda de tecido cerebral se agrava cada vez mais: o córtex cerebral encolhe (região mais externa do cérebro, responsável especialmente por funções cognitivas), o hipocampo também diminui de tamanho (região responsável pela memória) e os ventrículos (cavidades cerebrais preenchidas por líquor) aumentam de tamanho.

Como essas mudanças cerebrais começam a se mostrar no dia a dia do paciente?
No início, o paciente apresenta principalmente dificuldades na memória recente, confusão mental e mudanças bruscas de humor. É comum que familiares ou até profissionais pensem, de início, que se trata de sintomas comuns do envelhecimento ou mesmo de depressão ou "desânimo".
Com o avanço da doença, diferentes funções neuropsicológicas são afetadas, além do comportamento, dos movimentos (incluindo a marcha, capacidade de engolir e controle dos esfíncteres). Também ocorre a perda de traços de personalidade, o paciente se torna cada vez mais apático e cada vez se parece menos com aquilo que familiares e amigos se lembravam dele.

A partir de qual idade há o risco de Alzheimer?
É uma doença típica de idosos. De modo geral, quando se inicia antes dos 50 anos, se diz que o Alzheimer foi de início precoce, e após os 65, de início tardio.
Um ponto muito importante para os colegas da área da saúde e mesmo famílias com idosos ficarem atentos: após os 60 anos, as chances de alguém desenvolver Alzheimer dobram a cada 5 anos.

Alzheimer tem cura?
Infelizmente não.

Mas se não tem cura, por que alguns pacientes com Alzheimer têm lapsos em que se recordam de algo ou de alguém?
São lapsos muito breves. Popularmente as pessoas pensam na memória como um grande arquivo no qual nossas lembranças e referências ficam armazenadas. No entanto, quando estudamos neurociências compreendemos que a memória não é esse grande depósito de lembranças, mas sim o processo neural de trazer à consciência fatos, pessoas, conceitos, etc. que não estão no presente momento/local. Assim, aquilo que se perde é a possibilidade que os neurônios/redes se comuniquem, devido à presença da proteína beta-amilóide. Por vezes, num breve instante, esse processo funciona, gerando esse tipo de lapso.

Como podemos prevenir o Alzheimer?
A OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta para as seguintes diretrizes como forma de diminuir as chances de vir a desenvolver Alzheimer:
- Não fumar
- Alimentação saudável
- Praticar atividades físicas regularmente
- Controle da pressão arterial
- Controle dos níveis de açúcar no sangue
- Dormir bem (com qualidade e em quantidade de horas)

O Alzheimer pode ser confundido com outras doenças? Como diferenciar?
Pode sim. Desde quadros mais simples, como depressão (que, em idosos, pode se mostrar com mudanças de humor, desânimo, apatia e dificuldades de memória/cognição) ou mesmo infecção urinária, muito frequente nessa faixa etária (quando a infecção está muito forte, pode ocorrer confusão mental). Com o envelhecimento, também pode ocorrer um leve declínio das funções cognitivas. Além disso, o Alzheimer é um tipo de demência, mas não a única.
A solução é procurar um especialista para descartar possibilidades e fazer um bom diagnóstico diferencial.

Como é feito o diagnóstico?
1- Descartar outras possibilidades (como depressão / distúrbios de humor, declínio cognitivo leve, outras demências, outros quadros neurológicos, infecção urinária, déficits de nutrientes...)
2- Avaliação neuropsicológica
3- História clínica do paciente
O diagnóstico definitivo só ocorre por biópsia do tecido cerebral (após a morte).

Quais os sintomas e sinais do Alzheimer?
Podemos separar a doença em 3 estágios:

1- Estágio Inicial:
- Dificuldades com a memória recente
- Dificuldades com a fala e linguagem
- Desorientação temporal (não sabe a data, dia da semana, ano...)
- Perder-se em locais conhecidos
- Deixa de se interessar por atividades ou assuntos que gostava, fica inativo ou apático, parece desmotivado
- Reage com raiva ou agressividade incompatíveis com a situação
- Depressão, ansiedade, mudanças bruscas de humor
- Dificuldade para fazer escolhas
- Alterações visuais
- Distúrbios de sono

2- Estágio Intermediário/Moderado:
- Problemas de memória se agravam (por exemplo, não se lembra do nome de familiares ou amigos)
- Pode se perder até mesmo dentro de casa (ex.: não sabe onde está, tem dificuldade para chegar até a cozinha...)
- Não consegue viver sozinho, precisa de um familiar/cuidador de quem tende a depender cada vez mais
- Precisa de ajuda para atividades simples como trocar de roupa ou tomar banho
- Dificuldades de fala
- Dificuldades em coordenar movimentos (risco de queda)
- Comportamento característico (ex.: repetir muitas vezes a mesma pergunta ou comentário)
- Gritos
- Alucinações e delírios

3- Estágio Avançado/ Grave:
- Cada vez mais dependente e inativo
- Incontinência urinária e fecal
- Já não reconhece familiares e amigos
- Problemas para comer (não consegue engolir)
- Muita dificuldade de comunicação
- Dificuldades motoras se agravam (paciente passa a depender de cadeira de rodas ou fica no leito)
- Não compreende o que ocorre ao seu redor

Repare no cérebro à direita (com Alzheimer), como o tecido parece
ter "encolhido" e os ventrículos (as cavidades centrais) aumentaram de tamanho.
Qual a sobrevida de um paciente com Alzheimer?
Em média, cerca de 10-12 anos, mas há casos em que a sobrevida chega a 20-25 anos.

Como é a morte de um paciente com Alzheimer?
Paciente no leito, já não fala nem compreende o que ocorre ao seu redor, sente dor para engolir.
As causas de morte mais comuns são AVC, pneumonia ou problemas cardíacos.

Há algum tipo de tratamento?
Como não há cura, todo o tratamento é orientado no sentido de aliviar os sintomas ou desacelerar o avanço do Alzheimer, sempre com foco em melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares.
Geralmente, o tratamento envolve uso de medicação, suplementação alimentar, atividade física (de acordo com as possibilidades) e estimulação cognitiva.

Sobre a saúde mental de familiares e cuidadores de pacientes com Alzheimer:
Cuidar ou conviver com pacientes com Alzheimer traz uma grande sobrecarga mental, gerando estresse (o que, por sua vez, desencadeia problemas na saúde física e mental).
Observa-se em familiares/cuidadores de pacientes com Alzheimer:
- Maior probabilidade de adoecer que a média da população
- Níveis mais altos de colesterol
- 5 vezes mais chances de desenvolver depressão ou ansiedade
- Deixam de lado os cuidados pessoais (má alimentação, sem tempo ou disposição para atividade física, pouco convívio social fora das rotinas do paciente, sem tempo para atividades de lazer, sono de má qualidade e/ou dormem menos que o necessário)
Frente a isso, é muito importante que os familiares/cuidadores tenham ajuda nos cuidados com o paciente, além de procurarem psicoterapia para aliviar ou prevenir o estresse, suas consequências e outros sintomas, além de procurar o médico regularmente.

Orientações práticas aos familiares:
- Faça para o paciente uma pulseira ou colar com as seguintes informações em papel plastificado: seu nome e celular, nome do paciente e um aviso que ele sofre de problemas de memória. Isso facilitará caso a pessoa venha a se perder.
- Pelo mesmo motivo, avise familiares, amigos e vizinhos sobre a condição do familiar
- Conheça sobre a doença. Além de ajudar a compreender o que está havendo terá mais paciência com a pessoa. Muitas vezes é difícil e cansativo, mas o paciente não faz "de propósito", e também sofre com a situação.
- Caso o paciente fume ou consuma álcool, é importante parar.
- Ter uma rotina muito bem estabelecida.
- Sempre avise o que vai acontecer (ex.: agora estamos indo ao médico; é hora do almoço, vamos comer; já é noite, vamos dormir)
- Incentive seu familiar a desempenhar tarefas para mantê-lo ativo (de acordo com as possibilidades dele, e sem esperar "perfeição")
- A dificuldade em tomar decisões é muito comum, gera ansiedade extrema e crises emocionais. Por isso, sempre limite as opções de escolha. Por exemplo, no lugar de "o que você quer almoçar hoje?", é melhor perguntar "você quer arroz com feijão ou macarronada?"
- Estimule a convivência familiar e social, dentro das possibilidades.
Nunca faça perguntas ou comentários que possam desestabilizar o paciente ou gerar ansiedade (ex.: não pergunte coisas como "você sabe quem eu sou?", "como assim você não se lembra do seu neto?!")
- Adaptar a residência para evitar perigos e quedas, e para facilitar a rotina e os cuidados com o paciente (passagem de cadeira de rodas, banheiro adaptado para facilitar o banho, acabar com desníveis no chão, etc.). Para isso sempre indico o serviço da Ferrara Poblet - Arquitetura e Engenharia.

Infelizmente, até o momento não existe cura para o Alzheimer. Seu familiar não vai voltar ao que era antes. Então, faça tudo o que estiver ao seu alcance para tornar essa fase melhor para ambos. Tratamentos... mas também esteja com ele. Conversem. Vejam fotos antigas e contem histórias. Chorem e deem risada. Participem da vida um do outro, um dia de cada vez, aproveitem o tempo juntos.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Doença de Parkinson

O que é e como ocorre?
A doença de Parkinson, assim como o Parkinsonismo são causados pela perda de neurônios na substância negra, área do cérebro responsável por produzir dopamina. A dopamina é um neurotransmissor, substância produzida pelo próprio organismo a partir de certas proteínas. São responsáveis por estimular ou inibir certas funções e comportamentos. No caso da dopamina, sua atuação ocorre em aspectos como os movimentos, o controle do humor, das emoções, atuando ainda na aprendizagem, cognição e memória. Deste modo, os sinais e sintomas de Parkinson ocorrem pela queda nos níveis de dopamina. A doença tem componentes genéticos e é mais comum em homens, de modo que, com o avanço da idade, a prevalência aumenta.

Origem:
A doença foi descrita pela primeira vez em 1817, pelo médico inglês James Parkinson na obra "Ensaio sobre a Paralisia de Agitação". Apenas em 1875 o neurologista francês Jean Martin Charcot modificou o nome do distúrbio para Doença de Parkinson, em homenagem ao seu primeiro estudioso.

Parkinson ou Parkinsonismo?
Parkinsonismo é um termo mais genérico. É a presença de alguns sintomas de Parkinson, de forma que nem sempre se fecha o diagnóstico da doença. Inclusive, pode ter causas diferentes, como sequela de AVC ou de traumatismo craniano, ou ainda efeitos adversos de medicamentos. Parkinson é o tipo mais frequente de Parkinsonismo, cerca de 75% dos casos.

Apenas uma doença de pacientes idosos?
Não. Apesar de ser muito mais frequente em idosos, pessoas mais jovens também podem desenvolver a doença de Parkinson.

Sobre os tremores:
Quando falamos em doença de Parkinson, a maioria das pessoas imagina um paciente com tremores e dificuldades motoras. Apesar de ser um dos sinais mais populares no imaginário das pessoas, nem todo paciente com Parkinson apresenta tremor. Estima-se que 30% dos pacientes não apresentam tremor.
Durante nossa conversa sobre Parkinson no Instagram (veja os destaques no perfil @bia.carunchio), uma pessoa perguntou se quem apresenta tremores por ansiedade quando jovem teria maiores chances de desenvolver Parkinson quando idoso. A resposta é não. Existem diferentes tipos de tremor, quanto ao padrão, duração, frequência... Os tremores de ansiedade são bem diferentes dos de Parkinson!

No entanto, existem alguns sinais precoces de Parkinson (tremor não é um deles!), que podem ser percebidos várias décadas antes da doença se manifestar.

Sinais precoces de Parkinson:
- Depressão
- Alterações ou perda do olfato
- Constipação intestinal
- Alterações de humor
- Distúrbio comportamental do sono REM (enquanto dorme e sonha, o paciente se movimenta de acordo com o sonho: pode ficar agressivo, se machucar, é frequente que o paciente ou familiares relatem queda da cama...)

Como todos devem estar pensando, muitos desses sinais e sintomas são frequentes na população geral. Por isso, para serem significativos, todos esses sinais devem aparecer, em especial o distúrbio comportamental do sono REM e as alterações de olfato, muito menos frequentes na população que os demais sintomas. Lembrando, não é para entrar em pânico! Se for o caso, procure o médico para avaliar e acompanhar esses sintomas.

Sintomas de Parkinson:
Como são muitos, vamos por partes...

1- Sintomas Motores:
- Tremores
- Lentidão
- Rigidez muscular
- Dificuldade de movimentar-se
- Poucas expressões faciais
- Caminha de forma lenta e arrastada
- Dificuldade para engolir
- Dificuldades com tarefas simples do dia a dia, como vestir-se, comer sozinho, tomar banho...
- Postura característica (costas curvadas, cabeça inclinada)
- Quando escreve, a letra se torna miúda

2- Sintomas na Fala:
- Dificuldades de fala
- Ritmo de fala tende a se tornar lento
- Espasmos na laringe

3- Sintomas no Sono:
- Insonia terminal: o paciente desperta num horário muito precoce e sem ter essa intenção, por exemplo, acorda às 3 da madrugada e não consegue mais dormir
- Pesadelos
- Sonolência diurna

4- Sintomas Neuropsíquicos:
- Confusão noturna
- Ansiedade
- Depressão
- Apatia
- Problemas de memória
- Dificuldades de comportamento
- Problemas de compreensão
- Sintomas psicóticos, alucinações
- Demência por corpos de Lewy: com o avanço da doença, a formação de partículas chamadas corpos de Lewy fazem com que o paciente desenvolva um quadro de demência, com perda progressiva das funções neuropsicológicas.

4- Outros Sintomas
- Perda de peso
- Seborreia
- Medo de cair
- Perda ou redução do olfato
- Paciente baba
- Constipação
- Dificuldades de manter o equilíbrio, quedas frequentes
- Fadiga
- Incontinência urinária
- Distúrbios sexuais

Sexualidade e Parkinson:
É comum o paciente apresentar dificuldades no âmbito da sexualidade, como redução da libido, disfunção erétil ou secura vaginal.
Hipersexualidade também pode ocorrer, pois a redução da dopamina traz a dificuldade em refrear impulsos e comportamentos (inclusive os sexuais). Caso ocorra, é preciso comunicar o médico, para que a medicação seja ajustada e dê conta deste sintoma.

Parkinson tem cura?
Infelizmente não. O tratamento é orientado para amenizar e, dentro do possível, controlar os sintomas.

Tratamento:
- Medicação
- Estilo de vida saudável
-Tratamentos complementares conforme cada caso (estimulação cognitiva, psicoterapia, terapia ocupacional, fisioterapia, fono, nutrição...)
- Em alguns casos, cirurgia para tratamento do tremor e rigidez
- Também é importante adaptar a casa de modo a evitar quedas e facilitar a rotina (indico o pessoal da Ferrara Poblet)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Debate sobre EQM

O podcast sobre Experiência de Quase Morte e o da conversa que tivemos com os ouvintes dia 14 lá no estúdio da rádio CBN já estão disponíveis! Clique aqui para baixar e ouvir.
Mais uma vez agradeço à equipe da CBN pelo trabalho sério e imparcial frente a um tema tão delicado.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Podcast sobre EQM - Rádio CBN

Participei do podcast Vozes 04 - EQM: um outro mundo, da rádio CBN. Hoje compartilho com vocês o link de acesso ao conteúdo (clique aqui!)


Semana que vem, dia 14/01, estarei na rádio CBN às 19:30 hs para conversar com os ouvintes. 
Fico muito feliz e grata por ver o tema na mídia tratado com seriedade.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Inimigos do cérebro

Hoje vamos conversar um pouco sobre alguns comportamentos, situações e más escolhas que podem nos fazer mal por dificultarem o bom funcionamento cerebral e, com isso, acabam prejudicando a nossa saúde física e mental, a qualidade de vida e o bem estar geral.


1- Má alimentação
Quando nos alimentamos, nosso corpo metaboliza o alimento e transforma seus nutrientes e componentes em "combustível" para o nosso corpo. O cérebro é um dos órgãos do corpo que mais consome glicose e nutrientes. Além disso, substâncias essenciais para o bom funcionamento do cérebro, como a serotonina e outros neurotransmissores, dependem de uma boa alimentação para serem produzidos/liberados. Por isso, o ideal é seguir uma alimentação equilibrada, sem excessos e sem ficar por longos períodos em privação de alimento, sempre dando preferências às opções caseiras, com frutas, legumes e verduras frescas, cereais integrais e proteína em porções adequadas.

2- Dormir pouco e/ou dormir mal
É fundamental para a nossa saúde e para a manutenção adequada das funções cerebrais praticar aquilo que chamamos de higiene do sono. Isso significa dormir a quantidade de horas recomendada para nossa faixa etária, e em condições e horário adequado, pois alguns hormônios que são secretados pelo corpo durante o sono só são liberados no sono noturno. Para dormir bem, é importante ter um estilo de vida saudável e tratar possíveis distúrbios, como o ronco/apneia, insônia, terror noturno, sono irregular, sono pouco profundo, alterações no ciclo circadiano... Dormir mal pode levar a problemas como alterações do humor, "necessidade" de alimentos mais doces e gordurosos, depressão, ansiedade,  estresse, maior risco de acidentes, baixa produtividade, dificuldades de aprendizagem/ problemas na cognição, aumento de peso, e até hipertensão e problemas cardiovasculares.

3- Desorganização
Quando nos organizamos, liberamos tempo e espaço para atividades que realmente importam ao invés de perder tempo e o foco procurando objetos ou tentando lembrar de compromissos. Com o local e a mente organizados, funções como a nossa atenção, atenção concentrada, memória, raciocínio e resolução de problemas podem ser otimizadas, melhorando a nossa produtividade e nos fazendo render mais cansando menos. Algumas sugestões práticas (além de arrumar o ambiente, a mesa, os armários...): organizar os arquivos do computador, adotar uma agenda ou um calendário para marcar compromissos e prazos, criar listas de tarefas e ter uma rotina prática e funcional.

4- Deixar de beber água
Em média, 75% do nosso peso corporal é composto por água. No cérebro essa porcentagem chega a 85%. A desidratação pode causar sintomas como tontura, apatia, dificuldades cognitivas, confusão mental, dores de cabeça, reflexos lentos, problemas na coordenação motora e taquicardia. Funções como a aprendizagem e a memória já ficam diminuídas mesmo quando perdemos "só" 01% de água. Por isso, sempre indico aos meus pacientes manter uma garrafa ou jarra de água por perto. Mais uma coisa: idosos e crianças se desidratam com mais facilidade e, neles, esses sintomas podem ser muito piores! Além disso, os idosos e crianças sentem menos sede e acabam não tomando a quantidade de água necessária. Por isso, ofereça água regularmente, insista, mesmo que eles digam que não estão com sede.

5- Deixar-se dominar pelos medos
Se por um lado o medo pode ser bom, pois nos protege de perigos e riscos, quando excessivo, ele nos amarra, impedindo que a gente viva aquilo que almejamos. Sempre questione seus medos. São medos racionais? Ou são medos de riscos que existem apenas na nossa imaginação? Qual o pior cenário possível e qual a probabilidade de "o pior" acontecer? O que ganhamos e o que perdemos com esse medo? Se necessário, se os medos estiverem num ponto que dificultem ou impeçam as atividades do dia a dia, é aconselhável buscar ajuda com um psicólogo. 

6- Rotinas estressantes ou pouco funcionais
Se por um lado seguir uma rotina é algo importante para manter a organização (já vimos a importância dela para o cérebro no ponto 3), por outro lado, quando essa rotina não é funcional, não serve para nós, o efeito pode ser o oposto. A pessoa se sente pesada, lenta, desmotivada, passa a protelar ou a não dar tudo de si em suas metas e tarefas. Avalie que tipo de rotina se encaixa nas suas necessidades e projetos, crie a realidade ideal para colocar seus sonhos em ação!

7- Falta de atividade física
Atividade física nos ajuda a controlar taxas de substâncias como o cortisol e a liberar outras como as endorfinas. O resultado dessa química é a redução do estresse e ansiedade e aumento da sensação de bem estar. Além disso, o cérebro se oxigena e, portanto, funciona melhor. Outro aspecto interessante é que, em pacientes acamados ou imobilizados por longos períodos, pode ocorrer a diminuição da neuroplasticidade, ou seja, o surgimento de novos neurônios diminui. Ao que tudo indica, provavelmente isso está associado à diminuição da necessidade em manter o equilíbrio do corpo.

8- Falta de sol
O sol é essencial para manter saudáveis nossos níveis de melatonina, substância que regula nosso sono, entre outras funções. Além disso, quando tomamos sol, nosso organismo sintetiza vitamina D. Essa substância é essencial para a fixação do cálcio nos ossos e para a nossa saúde geral. A falta de vitamina D pode estar associada a dores musculares e nas articulações, quadros de depressão, sonolência e fadiga, baixas no sistema imunológico e quadros de depressão. Ah, não precisa "fritar" no sol, alguns minutos bastam!

9- Relacionamentos complicados
Hoje em dia muita gente usa o termo "relacionamentos tóxicos", aqueles permeados pela agressão física e/ou psicológica, constrangimentos, abusos... Aqueles relacionamentos que fazem a pessoa se sentir inadequada, triste e acabam com a autoestima. Bem... corte dos seus contatos esses relacionamentos (sejam amorosos ou "amizades", colegas...). Essas consequências, além de gerarem mal estar, favorecem o surgimento de transtornos depressivos e de ansiedade, estresse, desmotivação, até que chega um momento em que a própria pessoa passa a duvidar de si mesma, do seu valor, das suas capacidades. Se necessário, peça ajuda.

10- Não conhecer a si mesmo, suas necessidades e limitações
Invista em autoconhecimento. Como lidar bem com a gente mesmo (e com aqueles com quem convivemos) se não nos conhecemos? Não sabemos como reagimos às situações, o que nos agrada ou desagrada, o que nos faz mal, o que nos ajuda a ficar melhor, o que queremos para o nosso futuro. Em resumo: muitas vezes nem a própria pessoa se entende, mas exige que o outro a compreenda! Uma ótima forma de se conhecer é fazer psicoterapia.