quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Ano novo vida nova?

"Jamais haverá ano novo se continuar a copiar os erros dos anos velhos." - Luis de Camões (poeta português, 1524-1580)

Você já deve ter reparado nisso. Sempre que se aproximam as festas e, com elas, a passagem de ano, parece que um sentimento diferente toma conta de boa parte das pessoas. Alguns dizem que é esperança. Outros dizem que é o sentimento (ou o desejo?) de renovação que chega com o ano novo. E aí começa uma série de tradições que vão desde comer alguns alimentos e evitar outros, vestir roupa nova e/ou de determinadas cores, pular ondas no mar, fazer listas com "promessas" (de emagrecer a trocar de emprego e, por que não, de namorado!) e por aí vai.

O comportamento das pessoas na virada do ano é uma coisa que desde menina me deixa curiosa. Porque é algo que contagia! Você vê alguém lá, todo animado com esperanças de uma vida melhor - que chegará com as doze badaladas! - e já começa a fazer planos também. Pintar a casa, praticar esporte, trocar o carro pela bicicleta, começar um curso novo... Por que agimos assim? Gosto muito desse clima de renovação, tenho que admitir isso. Depois das festas juninas, o ano novo é minha data comemorativa preferida. Fica um clima de paz e união, uma esperança! Mas, de novo, por que? Por que esperar o ano novo se podemos mudar em qualquer outra época do ano, bastando que a gente queira e faça as escolhas que direcionem nossos passos para onde queremos ir? Parece que os finais de ciclo tendem a nos colocar nessa situação. Como será o novo? Que preparações fazer? Tanto faz se é o fim do ano, o término de um curso, o fim de um tratamento ou de um relacionamento, uma mudança de emprego. O comportamento frente aos "novos tempos" é bem parecido.

Isso me lembra muito a questão dos ritos de passagem. Arnold Van Gennep (1873-1957) foi um antropólogo francês que se dedicou ao estudo dos ritos de passagem em diferentes culturas. Ele concluiu que os ritos de passagem representam um processo de vida, morte e renascimento. Talvez daí a esperança que sentimos e a renovação que almejamos. Além disso, Van Gennep também aponta que, em geral, os ritos de passagem são estruturados em três partes: separação, transição e incorporação. Durante a separação, é comum que os neófitos (as pessoas que vão passar pelo ritual) fiquem isolados, sejam indígenas que passam parte da puberdade num local fora da tribo ou estudantes aguardando o momento da formatura numa sala separada da que estão os familiares e amigos. Então segue a transição, o ritual em si. Isso muda a forma como a pessoa se percebe e como é percebida pelos outros. Morre o "eu" antigo para dar lugar ao novo. Ou, se preferir, o mesmo "eu" renasce num novo papel e/ou posição social (torna-se adulto, profissional, casado, pajé ou o que for). Por fim, ocorre o que Van Gennep chama de "incorporação", isto é, a pessoa que passou pelo ritual é reintegrada ao grupo com seu novo status, posição, papel... Por exemplo, a festa que se segue após um casamento ou aquele momento em que se cumprimenta alguém que acaba de defender seu mestrado ou doutorado. Essa pessoa já não é mais aquela que costumava ser. Foi profundamente transformada pelo rito de passagem.

Voltando ao nosso tema, a passagem de ano. Apesar da atitude de algumas pessoas nessa época me lembrar a de alguém prestes a viver um rito de passagem, não acho que se trate disso. Depois da meia noite, continuamos os mesmos, com os mesmos papéis, as mesmas funções, a mesma vida. E, de maneira geral, poucas pessoas levam adiante suas resoluções de ano novo. Assim, a virada de ano não é um rito de passagem no sentido acadêmico de Van Gennep. Mas me parece que muita gente anseia por isso. Desejam aquele momento mágico em que, ao terminarem as doze badaladas da meia noite, elas estarão mudadas (para melhor!) e a vida será diferente, mais fácil e mais feliz. Como já conversamos em outro momento (clique aqui para lembrar!), em nossa sociedade dificilmente encontramos ritos de passagem que sejam levados a sério, e não vividos somente como uma grande festa. E parece que muita gente sente mais falta deles do que estes tempos de correria nos permitem admitir.

Terminando por este ano, quero aproveitar para desejar a todos um 2013 muito feliz e com muita coragem de buscar aquilo que realmente faz sentido para cada um de nós. Como será o futuro? Só podemos sonhar e supor. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Qual é o seu lugar na vida?

"O que importa não é o ponto de partida, mas a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher." - Cora Coralina

Boa parte das pessoas que procuram um psicólogo se faz esta pergunta em algum momento: qual é o meu lugar na vida? O cenário onde a pergunta é feita pode variar bastante, do emprego que de repente deixou de ser estimulante para tornar-se tedioso, relacionamentos que parecem sempre acabar mal, até o ambiente familiar que pode ser sentido por alguns como um ambiente de muitas exigências e poucos recursos, entre tantas outras possibilidades. Essa questão pode aparecer ainda diante de qualquer tipo de insatisfação ou escolha com a qual a pessoa se defronte e tenha dificuldade em superar. A escolha da profissão, um novo relacionamento, após um trauma ou acidente... Claro que a coisa nem sempre é tão clara assim. Muitas vezes a pergunta é feita de maneira inconsciente, seja na forma de sintomas (psicológicos ou físicos, mais leves ou mais graves), seja na forma de situações que teimam em se repetir na vida da pessoa (situações de abuso ou assédios de diferentes tipos, conflitos com autoridades, conflitos/sintomas ao ter de fazer escolhas sozinho, problemas que se repetem nos relacionamentos...).

"Os valores pessoais", René Magritte, 1952
Em meu mestrado, procurei investigar como ocorre a atribuição de sentido para a vida. Para isso, entrevistei e apliquei questionários em peregrinos brasileiros, de ambos os sexos, com idades entre 18 e 54 anos. Via de regra, quase todos mencionam como motivação para a viagem a necessidade de saber o seu lugar na vida, o que deixavam claro em frases como "quando olhava para minha vida, o que eu sentia era uma grande insatisfação", "eu olhava para a minha vida e ela não ia para onde eu queria que fosse", ou ainda "era como se a pessoa que eu era e a que eu mostrava para os outros não fosse a mesma". Nem sempre temos consciência da questão, mas parece que a insatisfação é um ponto que se mostra com frequência quando essa pergunta aparece na vida da gente. Muitas vezes, a insatisfação vem camuflada no tédio, no desânimo, na sensação de vazio, nas compulsões, no cansaço excessivo...

De toda forma, numa tentativa de responder a pergunta de forma que nos acalme e que preencha nossa vida com sentido, surge a "necessidade de se encontrar". Há algum tempo li um dos ótimos livros de Jostein Gaarder, chamado O dia do coringa, que conta a história de um menino de 10 anos que parte com o pai numa viagem em busca da mãe, que havia abandonado o lar anos antes. Em meio a diálogos e situações que nos levam a repensar muito a nossa própria postura na vida, o garoto conta ao leitor, com a simplicidade de seus 10 anos, que a mãe partiu dizendo que precisava se encontrar e que, na opinião da criança, pessoas com essa necessidade deveriam respirar e ficar bem paradas por alguns momentos, antes que ninguém nunca mais as encontre. É exatamente o que convido o leitor a fazer. Vamos parar por um momento e respirar bem fundo.

Agora sim podemos continuar. A respiração profunda serviu para que, antes da reflexão, o leitor tome consciência de seu corpo e de onde está neste tempo e neste espaço. Voltando. Costumo dizer aos pacientes na clínica que nem sempre temos os planos tão claros na nossa mente. Não somos máquinas, é normal nos sentirmos perdidos de vez em quando. E é claro que estar numa situação assim não é nada tranquilo, ao contrário, gera angústias, ansiedades e temores. Qual é o seu lugar na vida? Talvez seja difícil responder a questão de pronto. Geralmente é. O que proponho nesses casos é usar um pouquinho a nossa imaginação. Por um momento, vamos nos permitir pensar sem julgamentos de certo ou errado, sem que você precise se preocupar em ser adequado ou em ter aquela vida perfeitinha ou ainda sem se preocupar com a viabilidade e a aplicabilidade dos seus planos. Vamos apenas imaginar e, para facilitar as coisas, vamos adaptar um pouco a pergunta: qual você gostaria que fosse o seu lugar na vida? Não se reprima, a ideia neste momento é soltar a imaginação, brincar com várias possibilidades. E, nessas brincadeiras, podem aparecer coisas bastante interessantes.

O leitor mais atento, ao pensar sobre a pergunta que propus, logo irá notar que tanto o lugar que gostaríamos de ter quanto o lugar que, gostando ou não, de fato temos, têm algo em comum: ambos são dirigidos pelos nossos valores pessoais. Mais uma vez digo, em qualquer processo de autoconhecimento é de suma importância conhecer nossos próprios valores. Porque, imaginando a vida como um caminho, os valores seriam nosso mapa. E como chegar onde pretendemos chegar sem um bom mapa?

Você pode estar onde quiser estar, você é livre para caminhar no sentido que te trouxer mais satisfação. Estamos o tempo todo interagindo e criando a nossa realidade, pois cada ato nosso, mesmo que apenas um pensamento ou algo que sentimos, nos modifica. Modifica o nosso corpo (expressões faciais, postura corporal, descarga de hormônios e neurotransmissores, sinapses...) e, portanto, cada ato nosso modifica a forma como percebemos a nossa realidade. Então, antes de partir em busca do seu sonhado lugar na vida, prepare-se em todos os sentidos para caminhar até ele com prazer e leveza, apreciando o caminho. Esteja e sinta-se apto a conquistar e ocupar o seu lugar. Busque ser uma pessoa digna de ocupá-lo.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Ousar, transgredir e criar

"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se." - Soren Kierkegaard (filósofo dinamarquês precursor do existencialismo, 1813-1855)

Ousadia e transgressão. Muitos temem essas palavras. O Dicionário Online de Português define ousar como "tentar, empreender com coragem, audácia, atrever-se (...)". É graças à ousadia, portanto, que transgredimos. Muitas pessoas têm medo de ousar, mas nem sempre sabem disso. Geralmente esse medo se traduz por insegurança ou na escolha pelo tradicional, pelo habitual ou pelo conhecido, em geral porque "assim é mais fácil". É claro que é. Ousar envolve coragem, envolve ter que se expor e a grande possibilidade de ouvir críticas, que nem sempre serão gentis e agradáveis. Por outro lado, é a ousadia que move o mundo. Porque sem ela, as coisas nunca seriam diferentes.

Freud, em seu texto Tipos Libidinais (1931, vol. XXI das Obras Completas), destaca que existem três maneiras do sujeito se posicionar no mundo, que seriam a maneira erótica (pessoas que valorizam mais a busca por afeto), a maneira obsessiva (pessoas que o autor define como "conservadores veículos da civilização"), e a maneira narcísica (pessoas mais voltadas à autopreservação). É claro que todos nós temos em nossa personalidade elementos dessas três formas de posicionamento frente à realidade mas, para Freud, uma delas sempre se destaca, geralmente combinada a um tipo secundário. Em termos psicológicos, falamos no texto dessa semana sobre aqueles momentos pelos quais todos nós passamos em algum momento ou fase da vida, em que o medo, ricamente disfarçado de autopreservação, prevalece sobre a busca por afeto ou sobre a vontade de agir no mundo ou seja lá o plano que temos em mente. No popular, insegurança, dúvidas e dilemas. Quero X, mas e se não der certo? O que os outros vão dizer? E quando eu chegar lá não gostarem de mim? E se?

Ousar também é estar em equilíbrio. Não é fácil. Pode doer. Mas vale a pena!
Já comentei outras vezes sobre o quanto gosto de mitologia. Gosto porque os mitos mostram de forma artística, poética e, muitas vezes, mostram de maneira assustadoramente real, as questões e situações pelas quais nós todos, em algum momento da vida, passamos ou passaremos. Na mitologia grega esse tipo de situação envolvendo ousadia e convenções sociais fica clara quando pensamos nos deuses Dionísio e Apolo. Dionísio é o deus do vinho, das festas, da alegria e transcendência - seja pelo álcool do vinho ou mesmo por estados místicos que podem ocorrer após meditações intensas. Já  Apolo é o deus que conduz o carro do sol, portanto, é aquele que, tal como o sol, nunca falta e nunca se atrasa, é considerado entre os antigos gregos como um deus civilizador e que pregava que tudo deve ter a sua justa medida. Conhecidas as personagens! Mas hoje não vou contar uma história envolvendo esses deuses. Ao invés disso, examinaremos esses dois enquanto arquétipos, ou seja, formas e estruturas, "modelos" que todos temos na psique e que, alguns mais outros menos, se manifestam em nossas vidas, seja na personalidade ou nos sintomas, sonhos, desejos... Sem dúvida, Dionísio e Apolo são figuras muito diferentes, basta ver o que cada um deles rege e imaginar. São figuras quase opostas. Entre os antigos gregos, Apolo era um deus muito querido e muito cultuado, pois a razão era uma qualidade (ou uma forma de agir?) muito valorizada. É a razão que permite pensar em estratégias, criar e aprender filosofia, é ela que permite que existam e sejam cumpridas as leis e regras. Assim, quando os gregos antigos (e muita gente hoje) valorizavam a razão, isso não se limitava à produção de conhecimento, como muitos pensam. Ao valorizar a razão, os gregos antigos visavam um estilo de vida regrado, buscando o equilíbrio e evitando excessos de todo tipo, sempre tendo em mente a "justa medida" pregada por Apolo. E é aí que entra Dionísio. Havia dias especiais no ano dos gregos, dias dedicados ao culto a Dionísio e ao vinho. Numa comparação grosseira, eram festas semelhantes ao carnaval no Brasil. Festas de excessos dos mais variados tipos, em que a "justa medida" passa bem longe! Eram, porém, festas muito necessárias, com um importante papel a desempenhar no equilíbrio da sociedade, da psique, da vida. Porque as regras e convenções nunca se equilibram sozinhas, precisam de um contraponto, como uma balança de pratos em que, se enchermos apenas um dos pratos, não há como manter a balança em equilíbrio.

Assim, a ousadia se manifesta sempre que agimos contra as convenções, quando transgredimos e/ou criamos algo novo. Não apenas no sentido ruim de transgressão (crimes, por exemplo). Ela pode ser bela e muito produtiva, como ocorre nas artes, na literatura, nas religiões e mesmo nos sonhos. Quando um escritor cria um mundo de fantasia, está subvertendo a realidade externa. Porque o escritor fala de uma realidade mágica, de possibilidades e situações que não estão aqui e agora. E, se for um bom escritor, fará o leitor acreditar, por alguns momentos, que a história é real (e, em algum sentido, sempre é). E, quando lê, também o leitor transgredirá a realidade fria e regrada, viajando num mundo de fantasias que, por mais realistas que sejam, não estão aqui e agora, mas num campo intermediário entre a imaginação do escritor e a do leitor.

A transgressão está em tudo aquilo que nos leva a alguma realidade além do aqui e agora. Ou, no caso de projetos, quando temos aquela super motivação que nos faz sentir esperança (independente do plano que possamos ter, vejo que os resultados que esperamos quase sempre são referentes a ter uma vida melhor, diferente da atual). Mesmo sabendo que sempre existe uma chance das coisas não saírem como planejamos, é a ousadia que nos apresenta a possibilidade de transgredir esta realidade estanque e concreta, é ela que nos faz arriscar ainda quando parece que daremos um passo em falso, pois a ousadia, ao trazer esperança, nos faz confiar num bom resultado e em nossa própria capacidade de transformar a nossa vida e a nossa realidade. Nesse sentido, a transgressão e a ousadia podem ser um passo importante para que se viva de maneira mais plena, de acordo com aquilo que valorizamos e que sonhamos para nós. Para haver crescimento, os opostos não podem guerrear, precisam interagir pacificamente, absorvendo as diferenças e aprendendo um com o outro, isto é, amadurecemos quando somos capazes de integrar os opostos que fazem parte de nossas vidas e de nós mesmos. Porque mesmo para buscar um equilíbrio "perfeito", a "justa medida" de Apolo, nunca haverá equilíbrio preenchendo apenas um dos pratos da balança.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Nomes, apelidos e sobrenomes: uma questão de identidade


"Todos os casos são únicos, e muito similares a outros." - Thomas S. Elliot, poeta e dramaturgo norte-americano (1888-1965)

O texto desta semana surgiu de uma conversa com alguns amigos sobre o filósofo e médico Sexto Empírico. Mais especificamente, sobre o nome dele. Ou melhor, o sobrenome, Empírico. Explico nossa curiosidade: como um estudioso que viveu na antiguidade grega, pode ter como sobrenome "Empírico", linha de pensamento que prega que para se conhecer um fenômeno, é preciso usar a percepção, os órgãos dos sentidos, quando essa postura formalizada por Locke, no século XVII? Muito estranho! Coincidência? O primeiro ponto da nossa discussão foi que apesar do empirismo ter sido formalizado muito depois, a observação de fenômenos com o objetivo de aprender é muito mais antiga que o próprio Sexto. Não é pelos sentidos que uma criança pequena começa a conhecer o mundo? Além disso, Empírico não era o sobrenome de Sexto, mas provavelmente um tipo de apelido que deixava clara sua postura adotada em seus estudos médicos. Em tempos antigos, uma pessoa de destaque ganhava um "sobrenome" ligado a ocupação, local de origem, etc. que a diferenciava das demais. Passamos então a falar sobre a origem dos nomes, e é sobre nomes que vou falar hoje.

Nome traz à tona a discussão sobre como nos identificamos e como os outros me reconhecem. Prazer, eu sou a Beatriz, mas ninguém me chama assim, nem mesmo a minha mãe! Pode me chamar de Bia. E assim a identidade vai se moldando a quem somos. Mas nem só de nomes é feita a identidade. Ela também é marcada pela nossa origem, grupos dos quais fazemos parte, papeis sociais que desempenhamos, ocupação, pontos da nossa história... O rapaz de origem oriental, a menina da escola X, a senhora do grupo de orações do meu bairro, o advogado que resolveu mudar de ramo e abriu um café, o homem que se divorciou da esposa. Assim, diz Antonio Ciampa, psicólogo social com quem tive a oportunidade de estudar identidade na PUC-SP, a identidade não é estática. Não é uma coisa que formamos e pronto, mas está sempre em transformação, a cada momento, pois tudo aquilo que fazemos nos transforma. E transforma a maneira como nos vemos e como somos vistos, como nos colocamos perante à vida.

Você vê a jovem ou a velha na imagem?
Há diferentes formas de perceber e significar a mesma coisa!
Outra coisa: se a identidade se forma ao longo da vida, não somos os únicos responsáveis por ela. Porque viver é interagir, de um jeito ou de outro. A forma como os outros pensam que somos à primeira vista, o que Ciampa chama de "identidade pressuposta", assim como a forma como os outros nos percebem (identidade posta), também marcam quem somos. "Moça, o banco é ali, perto daquele senhor careca de óculos!" Isso também é parte da identidade dele. Quando o leitor imaginou o homem do meu exemplo, provavelmente já fez suposições sobre como ele dave ser, o que gosta e o que não gosta. Daí surgem preconceitos (para ver outro texto em que falamos sobre preconceito, clique aqui!) e com os preconceitos, surgem apelidos. Não necessariamente o bullying ou algo pejorativo, mas qualquer tipo de apelido não derivado do nome. Quando chamamos alguém por algum termo que não é o nome da pessoa, marcamos a identidade dela. A típica história dos pais que procuram psicoterapia para o filho que não tem sossego e, ao fim da consulta, chama o garoto: "vamos, peste!" Oras, como a pessoa vai responder a isso? A tendência é cumprir a "profecia", agir como o outro espera que eu haja. E o pai da suposição espera um garotinho terrível! Precisaria de muito questionamento para agir diferente disso.

Exercício para esta semana: pegue papel e lápis e vá para um lugar tranquilo. Anote todas as formas possíveis que poderiam te identificar. Valem nomes, origens, apelidos de todo tipo, pontos significativos da sua história, observações sobre como os outros te percebem... Isso é importante para ajudar no autoconhecimento. E não é apenas sobre como você se identifica, mas sobre a forma como nos colocamos no mundo. O garotinho que o pai chama de "peste" não se posiciona frente à vida da mesma maneira que outra criança chamada por apelidos mais construtivos ou "apenas" pelo nome. A visão que tem de si mesmo, provavelmente é falha, marcada pelo apelido pejorativo vindo de pessoas tão importantes para ele como seus pais. Sua perspectiva de futuro também é bem diferente da sonhada por outra criança cujos pais reforçam constantemente a criatividade ou a mente ágil ou o bom desempenho em esportes ou a sensibilidade ao lidar com as pessoas...

Outro passo: como você gostaria de se ver e de ser visto? Esta seria a "identidade mito", aquele ideal que todos têm, cada um a seu modo, e ao qual buscamos corresponder, ainda que nem sempre tenhamos consciência deste movimento. Quanto mais conhecemos a identidade mito (semelhante ao que os psicanalistas chamam "ideal de ego"), mais saberemos sobre nós mesmos, sobre nossos sonhos, sintomas ou mesmo sobre o motivo pelo qual agimos assim e não de outro jeito.

Para terminar, como já conversamos em outro texto (clique aqui para rever!), não transforme suas qualidades em problemas! Existem muitos jeitos de perceber uma mesma característica e de aproveitá-la para o nosso próprio bem e para o mundo em que vivemos. A menina que vive com a cabeça nas nuvens vai ter melhoras incríveis, inclusive na autoestima, se passar a se identificar como a menina criativa. O que seria de Sexto Empírico se fosse "Sexto Inxirido"? Na certa meus amigos e eu não conversaríamos sobre ele tantos séculos depois... Para mim, identidade é uma busca por ser a pessoa que gostaríamos de nos tornar. E nunca é cedo demais ou tarde para isso. Precisamos apenas ter coragem de ser.




quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por que não valorizamos as boas notícias?

"Seja como for o que penses, creio que é melhor dizê-lo com boas palavras." - William Shakespeare

Vivemos na era da informação. Ninguém quer ficar desinformado. Chegamos ao ponto de ter canais de TV especializados em jornalismo 24 horas. Sites na internet constantemente atualizados com as notícias mais recentes. Mas poucas vezes se para e pensa no teor das notícias e no impacto que podem ter sobre nós.

Os sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann, em seu livro A Construção Social da Realidade, afirmam que construímos a realidade em que vivemos (e a nós mesmos) através da linguagem. Interiorizamos um discurso, seja ele vindo de pessoas (em especial aquelas que os autores chamam de "outros significativos", por exemplo, nossa família, amigos, companheiros, enfim, pessoas que têm uma importância maior em nossas vidas e cujas palavras também terão grande importância para nós), ou o discurso vindo de instituições, como a escola, a ciência, as religiões, a mídia... Após interiorizado (ou seja, quando lemos ou ouvimos o que foi dito ou escrito - ou ainda quando percebemos o que nos foi transmitido por linguagem não verbal: comportamentos, ações, imagens, expressões faciais...), o discurso é "digerido", passando por um processo em que refletimos sobre ele, fazendo correlações com outras informações que temos, sejam elas técnicas, pessoais, histórias que ouvimos de amigos, lembranças... Por fim, exteriorizamos o discurso, agora marcado pelos nossos próprios conteúdos. E, enquanto fazemos isso, o interiorizamos outra vez, por exemplo, quando ouvimos o que dizemos. Logo, existe uma grande quantidade de discursos e informações disponíveis para serem interiorizadas e passarem pelo processo descrito. Consensos são criados nesse diálogo que nunca para e nunca termina ou, usando as palavras dos autores, são criadas referências. Formamos assim, um conjunto de referências: ideias e símbolos compartilhados entre nós todos, também conhecido como cultura.

Faça uma experiência: passe um dia inteiro vendo e
valorizando o que há de bom na vida, em você, nos
outros,  na realidade...
Comecei toda essa conversa acadêmica para mostrar como aquilo que vemos, ouvimos ou percebemos marca o nosso mundo interno e a nossa identidade, refletindo também na nossa realidade externa. Claro que não somos uma esponja, temos crítica, ao longo da vida aprendemos a separar o joio do trigo. Mas, uma vez que conhecemos uma ideia, ainda que não nos agrade, já não somos mais os mesmos. Por que, então, não valorizar mais as boas notícias?

Entendo que, na era da informação, precisamos estar bem informados sobre o que acontece ao nosso redor. E nem sempre são coisas boas. Agora, sei também que tudo tem limite. Não basta saber que houve um terrível acidente aéreo  com X vítimas? Muitos gostam de acompanhar as investigações das causas de um acidente. Mas será que é mesmo necessário, em nome da informação, ver por dias a fio, às vezes por semanas, o choro daqueles que perderam alguém importante ou as imagens dos destroços? Qual é o limite entre a informação e a exploração da dor do outro? Na era da informação, esse limite, se existe, não é claro.

Por que, então, compactuar com isso? Veja bem, não estou defendendo a alienação, só estou questionando com que tipo de discurso temos alimentado nossas mentes. Que tipo de discurso você permite que se torne parte de você e ajude a construir sua realidade? Quais são as suas referências?

Uma curiosidade interessante é que têm aparecido mais e mais sites apenas sobre boas notícias. Pode parecer estranho, mas se existem jornais apenas sobre crimes e perseguições policiais (com grande audiência, devo acrescentar), por que não um sobre boas notícias? Um desses sites que gosto de acompanhar é o Só Notícia Boa (conheça clicando aqui), onde podemos ler desde novidades sobre músicas, filmes e livros, notícias sobre tecnologia e ciência, saúde, economia, educação e mesmo sobre acontecimentos de solidariedade entre pessoas. Por que paramos tudo para saber sobre um crime horrendo e cruel, mas não prestamos atenção a algo bom?

Uma atitude sensata seria valorizar mais as boas notícias. Já notou como o tempo dedicado a elas na TV, por exemplo, é muito menor que o tempo dedicado às tragédias, crimes ou problemas do tipo que for? Ninguém voltou a entrevistar os medalhistas olímpicos alguns meses após os jogos, como fazem com familiares de vítimas de acidentes de grande repercussão ou com acusados de crimes bizarros. O telejornal de horário nobre não reprisou aquela notícia boa sobre o vizinho que ajudou outros moradores durante uma enchente. Ou sobre o garoto simples e humilde que passou no vestibular. Ninguém foi lá acompanhar como é o dia a dia dele, como foi a rotina de estudos e o que mudou na vida dessa pessoa com o acontecimento. E, se alguma emissora reprisou a matéria sobre um novo medicamento ou vacina descoberto por cientistas brasileiros, na certa cortou a maior parte da reportagem. Por que? Por que negar a esperança?

As boas notícias (sejam da mídia, dos amigos ou dos grupos dos quais fazemos parte) são importantes porque nos trazem esperança. Nos fazem acreditar que algo melhor é possível e viável. E é a esperança o que nos faz continuar. Certa vez quando eu era estudante de psicologia, durante uma orientação para minha iniciação científica, meu orientador, Prof. Dr. Ricardo Franklin Ferreira, me disse o seguinte: "você acorda cedo e vem para a universidade todos os dias não porque gosta de aprender, mas porque tem esperança em algo melhor. Você sabe que, a cada manhã que você vem para cá, está um dia mais perto de ser a psicóloga que vai se tornar no futuro." Essa fala me marcou e me inspira até hoje. Sim, somos seres movidos pela esperança. E só há esperança quando alimentamos nossa mente, nosso ser, com bons discursos. Claro, com consciência de que coisas ruins também podem acontecer. Mas sem negar a felicidade, pois ser feliz não é um crime. Talvez por isso não dê audiência.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O que é ter foco?

"Tente mover o mundo - o primeiro passo será mover a si mesmo." - Platão (pensador grego do século V a.C.)

Hoje em dia, com a valorização cada vez maior da vida profissional, ouvimos muito sobre a necessidade de ter foco. Ter foco nos estudos para passar no vestibular. Ter foco na carreira para ser um profissional melhor e receber as regalias que isso envolve (benefícios, promoções, prestígio social...). Mas, afinal, o que é ter foco? E como saber se o temos na medida "certa" (usarei aqui o termo saudável, me nego a pensar o ser humano em termos de certo ou errado).

Todos precisamos de metas. Elas nos ajudam não apenas a direcionar nossos esforços e recursos para algo que nos faria sentir realizados e felizes, mas também fazem com que nossas ações ganhem um sentido. Seja qual for a sua meta, é muito importante que você tenha consciência dela, para que haja com clareza. Aliás, é muito bom que se tenha mais de uma meta, em diversos setores da vida. Alguém pode manter o foco em começar um novo projeto profissional, passar a fazer exercícios físicos, melhorar a vida afetiva e planejar uma viagem para as férias, por exemplo, sem que uma meta prejudique a outra. Além disso, com mais de uma meta, a chance de atingir um objetivo aumenta... no popular, é pouco provável que tudo, em todas as áreas da vida, dê errado de uma só vez!

É, eu sei, algumas pessoas com astigmatismo sentem tontura
ao olhar para esta foto. Sentiu? Visite seu oftalmo!
A primeira coisa que deveríamos perceber é se todas as nossas metas são compatíveis. Já se diz na física, dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, assim como um corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. O que quero dizer? Não dá para planejar passar as festas de final de ano em casa com a família e também planejar uma viagem nessa época. Uma das metas será frustrada. É bem difícil planejar arrumar mais um emprego e também passar mais tempo com as crianças... Mas, é claro, tudo pode ser reajustado. Posso ter dois empregos e reservar os domingos como dias de brincadeiras e passeios com os pequenos. Posso planejar uma viagem com a família na época das festas. Tudo pode ser ajustado e planejado para que fique o mais fiel possível ao nosso ideal.

Mas até que ponto o foco é saudável? Costumo dizer que o foco não pode ser tão fraco que faça a pessoa se sentir perdida na vida, nem excessivo a ponto de fazer da pessoa uma bitolada que, em prol de conseguir o que quer, atropela tudo e todos que estiverem na frente, até a própria saúde. Nesse caso, muito frequente em pessoas viciadas em trabalho, os famosos workaholics, é importante parar e repensar, ir abrindo pequenas brechas aos poucos no corre corre da vida. É preciso ver que outras esferas da nossa vida são tão importantes quanto aquele super negócio com os empresários americanos... Ajuda especializada com um profissional de psicologia pode ser muito útil se este for o seu caso.

No outro polo temos o contrário. Aquela pessoa "sem foco". O primeiro ponto a ser pensado nesse tipo de caso é se a pessoa realmente não tem foco. Porque em boa parte dos casos, o que acontece é que a pessoa tem focos diferentes daqueles que a sociedade valoriza. Talvez esteja empenhada em ser uma pessoa muito presente na educação dos filhos enquanto eles ainda são pequenos. Ou em conhecer o maior número de lugares e culturas diferentes. Ou em buscar algum tipo de espiritualidade que preencha a vida com um sentido especial. Ou em tratar algum problema de saúde. Ou em algum projeto profissional extra oficial. Enfim, muitas vezes as pessoas apontadas como alguém sem foco (muitas chegam a acreditar nisso!) na verdade têm apenas um foco pouco valorizado pela sociedade, focada em produzir e acumular. Talvez ela viva bem assim. Talvez até dê risada quando lhe perguntam se não gostaria de ter um foco como a maioria.  Em alguns casos, no entanto, pode ser necessário ajustar o foco para que englobe também os setores da vida que, supostamente, vêm sendo negligenciados, pois tal como o hiperfoco em trabalho, existe a pessoa muito focada em festas, por exemplo, numa medida em que isso atrapalha o bom andamento das outras esferas da vida, como os estudos, trabalho, relacionamentos... Será que não se pode ter algum outro tipo de atividade (profissional, um curso, um hobbie...) no período do dia em que as crianças estão na escola? Ou reservar as viagens apenas para as férias, feriados e finais de semana, mantendo uma rotina mais regular nos demais períodos?

Claro, em alguns casos a pessoa realmente não tem um foco. Pode ser o caso de quem apenas se sente meio "perdido", incerto sobre qual caminho escolher. E aí será preciso repensar sobre as escolhas que faz - e, principalmente, sobre as que gostaria de fazer. Pode ser também que a pessoa tenha uma grande dificuldade em manter a atenção em um estímulo. É o caso de pacientes com déficit de atenção, associado ou não à hiperatividade. Pessoas com esses transtornos, quando começam a fazer algo (assistir um filme na TV, por exemplo), são desviadas da tarefa por inúmeros estímulos, algo que vê pela janela, o comentário de alguém, uma ideia que vem de repente... Se for o seu caso, busque ajuda com um psicólogo, pessoas com déficit de atenção e/ou hiperatividade podem sim levar uma vida normal. Ah, mas observe bem! É bem frequente que pais tragam seus filhos com suspeita de déficit de atenção só porque não faz as lições ou não vai bem na escola. Pergunto: e numa atividade que ele gosta (um jogo, um programa de TV, uma brincadeira, o video game...), ele mantém a atenção? Quase sempre a resposta é sim. Damos então a boa notícia: isso não é transtorno de déficit de atenção/hiperatividade! Pode ser um desestímulo com relação aos estudos (ou à vida profissional, no caso de adultos). Pode ser um desencorajamento com relação à escola (por fatores que vão da criança precisar de óculos, insegurança, baixa autoestima ou mesmo casos de bullying ou assédio). Pode ser que apenas não seja incentivado a estudar em casa (tem um horário e um local adequado para os estudos e tarefas?). Pode ser, ainda, que o problema não seja a aprendizagem, e sim a "ensinagem" como diz Rubem Alves. Cada caso é um caso e precisa ser avaliado com cuidado.

Há casos, porém, em que mesmo sem transtorno algum, a pessoa não consegue manter o foco. Sabe aquela velha história do grupo de estudantes que se reúne para fazer aquele trabalho super importante ou para estudar para os testes finais mas, no processo, acabam comentando sobre o jogo da seleção que transmitiram ontem, ou combinando alguma coisa para fazer no final de semana e, no fim, acabam por deixar de lado a meta - o trabalho a ser feito. Quem nunca? Pode acontecer fora do grupo também, em qualquer área da vida. O livro que você ia ler mas abandonou. O passeio que planeja mas nunca faz. A conversa importante cujo assunto é desviado para uma infinidade de outros tópicos, irrelevantes.

O que fazer para melhorar o foco? Primeiro é preciso saber com clareza qual é a meta. Algumas vezes, escolhemos a meta de acordo com nossos desejos e valores pessoais: planejar um passeio, por exemplo. Outras vezes, não fomos nós que, diretamente escolhemos a meta (estudar para uma prova, por exemplo). Segundo: não tenha dó de si mesmo! Nem sempre fazemos o que queremos quando crescemos, muitas vezes fazemos o que precisa ser feito. Não é agradável, por exemplo, para um paciente com sequelas de um AVC ter que vir à reabilitação sabendo que dificilmente voltará a ser como antes. Dói. É chato. Mas precisa ser feito. Tendo clareza da meta, essas são algumas alternativas que podem ajudar a manter o foco:
- Ter um lugar e estrutura adequada. Por exemplo, se você estudar ou trabalhar sentado à mesa, a oxigenação do cérebro (e a atenção) melhoram muito.
- Ter um período para se dedicar à atividade. Se quer passar a praticar exercícios, reserve um horário certo para sua caminhada, por exemplo. Isso dará disciplina, fará com que você crie um compromisso consigo mesmo. O mesmo vale para a hora da lição, da leitura, do planejamento do novo projeto...
- Tenha uma agenda ou listas de atividades. E risque cada tarefa conforme for cumprida. Isso não só ajuda na organização e planejamento, como também faz o cérebro visualizar o quanto já caminhamos, nos estimulando a continuar.
- Ter metas estimulantes e que você realmente queira atingir ajuda (muito!) a manter o foco.
- Pense estrategicamente. Nem sempre o caminho óbvio é o mais indicado, nem o mais estimulante, nem o mais eficaz. Ou, em alguns casos, o óbvio pode ser a solução. Avalie.

Acima de tudo, tenha metas. Metas que valem a pena e que façam sentido para você. Por mais óbvio que pareça, muita gente não se dá conta de que, se não tem meta, também não tem foco. Afinal, como focar algo que não existe? Algumas metas são mais difíceis e trabalhosas, mas, se é o que queremos para nossa vida, valem a pena. Como disse Viktor Frankl, um psicanalista austríaco que sobreviveu ao campo de concentração na II Guerra, "quem tem um porquê enfrenta qualquer como."


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Você já planejou a sua velhice?

"O importante não é por quanto tempo viverás, mas que qualidade de vida terás." - Sêneca (jurista e escritor do Império Romano, 04 a.C. - 65 d.C.)

No último final de semana estive presente no V Seminário de Psicogerontologia da UNIP, em São Paulo. Foram discutidos diversos temas ligado ao envelhecimento e aos idosos, como qualidade de vida, relação com as famílias, estratégias usadas pelo psicólogo no trabalho com pacientes idosos, doença de Alzheimer, depressão e outros transtornos que podem surgir com o envelhecimento. Mas também se discutiu muito sobre o envelhecimento saudável, que é sobre o que eu gostaria de comentar com vocês. Afinal, tanto faz se você tem 15 anos, 35, 55 ou 85, estamos todos envelhecendo!

O convívio entre diferentes gerações faz bem para todos nós,
mais jovens ou mais velhos.
Vamos começar com alguns números. Segundo o psicólogo americano Donald Schultz, que apresentou uma videoconferência no evento, em 2065, haverá mais de 5 milhões de centenários apenas nos Estados Unidos. Isso me chamou muito a atenção. Em 2010 estive presente em outro evento de gerontologia na PUC-SP, onde falou-se muito na 4a idade (idosos a partir dos 80 anos) e sobre como havia tanta gente na 4a idade em São Paulo. E agora, apenas dois anos depois, fala-se em centenários e em super centenários (120 anos). Pessoas nessas faixas etárias serão cada vez mais presentes e precisamos conhecer suas características e necessidades, para lidar com elas da melhor maneira possível. A  expectativa de vida vem aumentando de forma alarmante. Assim, se pensamos numa vida de 120 anos, seremos idosos durante metade desse tempo (dos 60 aos 120 anos). É preciso pensar não apenas em estratégias para que o processo de envelhecimento ocorra com saúde, mas também é necessário rever a visão que temos das gerações mais velhas.

Maria Luisa T. Bestetti, no ótimo texto "Falando de arquitetura em moradias para idosos", aponta que ter 80 ou 90 anos hoje em dia é muito diferente de ter essa faixa etária antigamente. Cada vez mais as pessoas têm acesso aos serviços de saúde. Cada vez mais os tratamentos são preventivos ao invés de curativos. E cada vez mais a tecnologia se desenvolve, possibilitando detectar problemas de saúde antes que se instalem no corpo. Mas não é apenas isso. Hoje a visão que temos do idoso vem mudando a passos largos. Se antes o "velhinho" estava apenas esperando pelo fim da vida, o idoso de hoje pode ser uma pessoa ativa, que faz ginástica, viaja com amigos, passeia com os netos, trabalha, cuida da família, namora, tem passatempos...

Por que então o medo de envelhecer? Por um lado, percebo com frequência os sentimentos de tédio e de vazio. Num mundo como o nosso, em que só tem valor quem produz e gera renda (financeira!), o idoso fica esquecido, é percebido por muitas famílias como um entrave na vida dos mais novos. Isso porque perdemos o sentido do envelhecer.

Imagine uma tribo ou povoado num tempo em que não havia escrita. Ou em que a escrita era reservada a uns poucos privilegiados. Os mais velhos do grupo eram quem mantinha o povo unido, pois eram eles quem sabiam e ensinavam as histórias e tradições, mantendo a identidade cultural do grupo. Nosso presente não tem sentido se não conhecermos esse contexto em que vivemos. E, se não sabemos de onde viemos, como saber para onde vamos?

Como você planeja sua velhice?
Além disso, percebo com pesar que perdemos o contato com os ciclos da nossa vida. Quase não temos ritos de passagem. Ah, tem as festas de 15 anos que voltaram a moda!, alguém pode sugerir. Bem, mas se você observar friamente, apesar de divertidas e bonitas, essas festas são só  isso mesmo: apenas festas. Não é como se a vida da garota fosse mudar dali para frente: antes dos 15 ela já usava salto alto, roupas "de mocinha", já namorava... Muitas culturas têm ritos de passagem para a velhice. No Japão, por exemplo, a entrada na velhice é tradicionalmente celebrada no aniversário de 60 anos, o kanreki. Outros povos, sobretudo povos antigos, que contavam o tempo com base nos ciclos da natureza, costumavam celebrar a menopausa, num bonito rito de passagem que dá à mulher madura a permissão de gerar frutos não mais em seu ventre, mas em sua alma, mantendo vivas as histórias e tradições. Com o rito de passagem para a velhice a pessoa meio que recebe "permissão" para voltar-se para si. Enquanto o jovem é voltado para o mundo (trabalho, festas, amigos, filhos...), o idoso pode se permitir voltar-se para si com mais cuidado e com maior liberdade, já não tem mais as obrigações de antes.

Quando Bestetti fala sobre arquitetura, diz algo semelhante. Para a autora, temos hoje a "tecnologia da praticidade". Graças aos equipamentos que temos, podemos forjar o clima que quisermos dentro de casa. Ninguém precisa mais se preparar para o inverno nem fazer grandes planos para o verão. Podemos congelar praticamente qualquer tipo de alimento. Ninguém mais precisa aguardar aquela festa de família para saborear um assado ou um prato especial. Ninguém mais precisa esperar com ânimo os primeiros frutos amadurecerem. Abra o congelador e pegue o que gostar, em qualquer época do ano ou momento do dia. Até mesmo os jardins podem estar sempre floridos e as árvores frutíferas podem ser plantadas já carregadas de frutos, pois todo tipo de planta é cultivada em estufas durante todo o ano. No meu entender, isso nos isola dos ciclos de plantar, cuidar, acompanhar o germinar e o crescimento, colher... É um mundo em que não se valoriza o apego a nada (nem o apego aos que amamos!), pois fomos educados a ter tudo ao alcance das mãos o tempo todo. E tudo, até mesmo pessoas, podem ser descartáveis nessa lógica.

E o envelhecer? Quando a gente se aliena dos ciclos, isto é, quando a gente ignora essas diferentes fases (do ano, das plantas, das estações, das marés, da lua, da vida), ignoramos a nossa própria condição como um ser vivo. Todo ser vivo se transforma. O bebê se torna criança, que se torna jovem, que vai amadurecendo mais e mais até encontrar seu próprio fim. Esse é o sentido, é nessa direção que andamos pela vida. Nosso mundo não nos permite esse desenvolvimento. Olhe para as roupas, para um exemplo bem claro. Todos se vestem como adolescentes, tanto faz se ainda é criança ou se já saiu da adolescência faz tempo. Porque é legal. Porque é prático. Porque minha turma anda assim. Porque quero me sentir mais jovem, no máximo com uns 30, mesmo que eu já tenha passado dos 50 há tempos! Quem vai saber, não é? Isso demonstra como, apesar das mudanças que já vêm ocorrendo na nossa sociedade, por exemplo o Estatuto do Idoso, que existe no Brasil desde 2003 (e que você pode conhecer clicando aqui), ainda é preciso mudar mais. Por que envelhecer deixou de ser algo natural para ser ruim?

Para compreender isso, é preciso compreender nossos medos e angústias com relação ao envelhecimento. Medo de perder o corpo jovem (será que um corpo mais maduro não tem sua própria beleza? Não pode ser atraente ao seu modo?). Medo da proximidade inevitável da morte (jovem ou velho, ninguém escapa dela). Medo de adoecer (o que, é sempre bom lembrar, pode acontecer em qualquer fase da vida). Medo de depender dos outros (como se até então não dependêssemos de ninguém para nada!). Parece-me que boa parte dos medos ligados ao envelhecimento são, mais profundamente, um certo pudor em mostrar as próprias fragilidades. Todos somos frágeis em algum aspecto, mesmo que você seja jovem e forte fisicamente. Todos precisamos do outro em algum momento. Além de compreender o que tememos no envelhecer, é preciso conhecer os idosos. O convívio entre diferentes gerações não apenas é saudável para todas elas, como também nos acalma. Acalma os jovens, que aprendem que envelhecer é algo natural e pode sim trazer muitos benefícios. Acalma ainda os mais velhos, que podem redescobrir com os jovens certa leveza na vida. E acima de tudo, é fundamental que, independente da sua idade, você faça planos. Por que não ter planos para a velhice? O que gostaria de fazer quando se aposentar? Ou quando tiver 80, 100 anos? Somos encorajados a planejar as próximas férias, a planejar o que fazer quanto terminar o colégio ou a planejar nossa vida profissional. Mas nunca ninguém te fala sobre planejar a velhice, como se estar vivo naquela fase já fosse um "bônus". Tenha planos. Planos dos bons, daqueles que nos fazem esquecer da hora. Quem tem planos vive mais e com mais qualidade, pois há algo de bom a ser buscado. Busque o que te faz feliz. Tanto faz a sua idade.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ouvir a voz interior

"Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fossemos feitos de ferro." - Sigmund Freud (criador da psicanálise, 1856-1939)

Hoje vamos falar sobre ouvir a voz interior. Ou sobre ouvir a voz do coração, em palavras mais poéticas. Para muita gente isso é besteira. Para muitos outros, "é claro que me escuto, o que você pensa que faço o tempo todo? Não sou um alienado!" Mas será que ouve mesmo? Pergunto porque, com muita frequência, pessoas desses dois grupos me procuram com a queixa que revela o principal sinal de que a pessoa não se ouve: "parece que a minha vida não caminha exatamente para onde eu gostaria que ela fosse". E aí vem o primeiro baque, porque quem caminha não é a vida, é o próprio sujeito! É a pessoa quem não está indo para onde gostaria, e não a vida! E é claro que aí nada mais na vida faz sentido, pois o sentido (perdão pelo trocadilho!) em que a pessoa avança não é aquele que ela gostaria.


Quando isso acontece na vida de alguém, as consequências podem ser as mais variadas, de sintomas físicos  (corriqueiros ou mais graves, incluindo alergias, dores misteriosas sem causa concreta, pequenos e grandes acidentes) a depressão, síndrome do pânico ou compulsões (por compras, por comida, por sexo, etc.), passando pelos sentimentos de insatisfação, tédio e vazio. Observe bem se você não se sente assim. Talvez não o tempo inteiro, mas em alguns momentos da vida (se você observar com cuidado perceberá que são os momentos em que "a vida" não foi para onde você esperava que fosse).

Muito bom, identificamos a raiz da questão! Quem gosta de jardinagem sabe bem que não basta cortar as ervas daninhas de um vaso de flores ou de um canteiro de legumes, é preciso remover as raízes, caso contrário ela voltará a crescer e provavelmente vai prejudicar a plantinha que estamos cultivando. O que quero dizer? Oras, não basta tentar preencher o vazio que você sente comprando tudo o que vê pela frente ou se entupindo de comida ou de remédios para dor. Nem adianta justificar a falta de esperança alegando que tem depressão/alergias/enxaqueca/etc. Vamos olhar para o problema sem medo!

O tratamento mais funcional e menos invasivo? Ouvir a voz interior. Ela pode falar com você através de sonhos (aliás, eu super recomendo a todos que anotem seus sonhos, mesmo que se lembrem apenas de uma pessoa ou uma cor ou uma sensação...). Pode falar de forma mais concreta nos planos que temos ou que gostaríamos de ter. Se você pudesse fazer qualquer coisa de sua vida, o que faria? Não precisa se jogar de uma vez num a grande mudança, comece devagar e respeite o seu ritmo. O que você gostaria de fazer num final de semana livre, por exemplo? Ir a festas? Sair com amigos? Visitar aqueles parentes que você não encontra há muito tempo? Passar o dia num parque ou na praia? Ou se permitir ficar em casa assando pão e lendo amenidades? Mas pense bem! É o que você gostaria que conta aqui, e não que que você pensa que os outros acham que você deveria gostar! Pode parecer banal pensar nas próprias preferências, mas, se eu sugerir os leitor que faça uma pequena lista com dez atividades que realmente goste de fazer, muitos terão dificuldade. Ah, e quando resolvemos ignorar nossa voz interior (porque não paramos para ouvir ou apenas porque é mais "prático" assim), ela continua falando mais e mais alto, na forma de sintomas físicos, mentais, emocionais...

Vamos lá, aqui vai uma pequena atividade para ajudar no processo de ouvir a si mesmo. Pegue uma folha de papel e dobre duas vezes, formando assim quatro espaços. No primeiro espaço, coloque o título "gosto e faço". No segundo, "gosto e não faço". No terceiro, "não gosto e faço". E no último, escreva "não gosto e não faço". Agora respire fundo e limpe a mente. Diga a si mesmo que você está protegido dos olhares e julgamentos dos outros, pode apenas ser você mesmo e ser sincero com você. Agora, preencha os espaços com pelo menos cinco atividades em cada um. Vale qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Desde que elas se refiram a você e a sua realidade, e não a forma como você acha que deveria ser. Terminou? Agora vamos ver... qual dos espaços foi mais fácil de preencher e qual foi o mais difícil? Qual dos espaços tem a maior lista? E a menor? Mais do que isso, em quais estratégias você pode pensar (e colocar em prática!) para mudar esse panorama, se for o caso? Procure se ouvir, se conhecer. Procure no seu dia a dia prestar atenção em como os ambientes, as diferentes relações, as atividades, etc. te fazem sentir. Será que precisa mesmo continuar com o que não te faz bem? Se precisar, será que não tem um jeito de tornar a coisa melhor? Percebo que a questão não é fazer o que não se gosta, afinal ninguém gosta de tudo o tempo todo. O problema é nunca fazer o que se gosta. É aí que chegam os sintomas e a sensação de vazio. E aquela impressão de que "a vida" não anda (ou pelo menos não para a direção que queremos).

É importante ouvir a voz interior e caminhar para onde gostaríamos que a nossa vida fosse. Porque no fim, a vida é nossa, e a única pessoa que você tem o compromisso de fazer feliz é você mesmo. Não quero dizer que precise atropelar os outros, mas sim que apenas nós podemos dizer as palavras que saem dos nossos lábios e apenas nós podemos caminhar com os nossos pés. Ninguém pode fazer isso por nós, ao mesmo tempo em que não podemos fazer isso por ninguém. Não basta apenas agir na vida. As nossas ações precisam fazer sentido para a gente, em palavras mais psicológicas, as escolhas precisam ser autônomas, fruto da nossa decisão pessoal e sincera. Ouça sua voz interior. E faça por você o que mais ninguém pode fazer: busque o que faz a sua vida ter sentido, faça valer a pena!


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Perdoar o passado e seguir em frente

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós." - Jean Paul Sartre (escritor e filósofo existencialista francês - 1905-1980)


A vida nem sempre é um caminho plano e florido. Algumas vezes podemos nos deparar com pedras, com buracos profundos ou com subidas tão íngremes que nos fazem duvidar da nossa capacidade de continuar. Algumas vezes, percebemos o obstáculo e habilmente o contornamos. Outras vezes, porém, só percebemos o buraco quando já estamos lá dentro. Ou só vemos a pedra quando já temos os joelhos esfolados pelo tombo. Acidentes acontecem no caminho de todos...

O que fazer? No dia 1º de novembro de 1755, a cidade de Lisboa foi devastada por um terremoto de quase 9 graus de intensidade. Não bastando isso, houve em seguida um tsunami e um grande incêndio que durou por volta de 5 dias. A maior parte das construções foi totalmente destruída ou seriamente danificada. Não se sabe o número de mortos, mas estima-se entre 10 mil e 100 mil. Desastre? Imagine só, em meio a tudo isso, uma grande onda de saques! Na ocasião, com o caos sob controle, o rei Dom José, vendo a dimensão dos estragos, perguntou ao general Pedro D'Almeida o que se poderia fazer. E a resposta foi simples, mas muito sábia: "sepultar os mortos e cuidar dos vivos".

Porque não usar as pedras do caminho para
construir algo que nos leve mais longe?
Sempre me lembro dessa pequena história. Porque algumas vezes é o que nos resta fazer, deixar ir o passado e cuidar do que ainda tem jeito. Ao contrário do que muita gente pensa na hora do problema (seja uma doença, problemas de relacionamentos, perder o emprego, acidentes ou o que for), os contratempos, maiores ou menores, não são exclusividade de ninguém, em algum momento acontecem com qualquer pessoa. Claro que muitas coisas podem ser previstas e prevenidas. Outras, no entanto, fogem ao nosso controle. Para quem gosta de escrever, se a sua vida fosse um livro, estou falando daquele momento mágico em que a história parece ganhar vida na imaginação do escritor e se desenrolar por si só. O fato é: a coisa aconteceu. E não foi agradável.

Outra vez, o que fazer? "Sepultar os mortos e cuidar dos vivos." O que aconteceu, por mais terrível que tenha sido, agora é parte de você porque ajuda a contar a sua história. E nesse sentido, o acontecimento sempre vai estar lá e sempre vai te marcar, de uma forma ou de outra. Eu sei bem como muitas vezes é mais fácil culpar outras pessoas, só porque dói tanto admitir que uma coisa realmente ruim aconteceu com a gente, mesmo que há muito tempo atrás. E sei também que em muitos casos, a culpa é mesmo do outro (por exemplo, casos de estupro, agressões ou outras formas de violência gratuita).

O primeiro passo depois da queda é avaliar os danos, admitindo assim o que aconteceu, mesmo que apenas para si mesmo. Sim, determinado fato aconteceu, faz parte da minha história e me faz sentir ... (insegurança, medo, raiva, culpa, solidão, tristeza, etc.). Avalie os danos. Desde que passou por isso, o que mudou? Quais dificuldades surgiram? De locomoção (em caso de acidentes físicos), dores, medos, insegurança, dificuldades de relacionamento... É importante, depois que algo grave acontece na nossa vida, deixar que esses sentimentos saiam. Não tenha vergonha de chorar a sua perda, seja ela a perda da saúde, da paz interior, do emprego, de um relacionamento... É como se você dissesse para si mesmo algo como "sim, aconteceu e me afetou desse jeito". Porque ignorar só vai tornar tudo mais difícil. Afinal, como superar um problema que eu não admito que existe? É como lutar contra moinhos de vento!

O segundo passo, já disse Pedro D'Almeida, é cuidar dos vivos. Admitiu o que houve, viveu o seu luto pelo tempo que precisou, percebeu as reações que o acontecimento desencadeou em você e/ou na sua vida. Agora vamos ver o que restou. O que ainda está inteiro aí? Ou o que pode ser consertado, reconstruído? Existem problemas que trazem uma solução criativa e inovadora bem escondidinha, só é preciso olhar bem. Você deve conhecer histórias assim. O grande executivo que após ser demitido ou após um período de doença ou de estresse intenso resolveu mudar tudo e abrir um restaurante porque gostava mesmo é de cozinhar e de ver as pessoas juntas e felizes. Ou a pessoa que sofreu algum tipo de violência e, ao se recuperar, tornou-se uma militante ativa pela paz ou pelos direitos das minorias. Ou o garoto desengonçado que sofreu bullying e hoje busca conscientizar outros jovens de que as diferenças são o maior tesouro que temos. Ou a pessoa que nunca teve um bom relacionamento com os pais e decidiu fazer diferente com os filhos. Existem muitas histórias como essas. Algumas vezes os diamantes mais valiosos estão escondidos sob as pedras mais brutas.

Depois do tombo, só poderemos seguir em frente se nos levantarmos. Do contrário a pessoa poderá, no máximo, se arrastar pela estrada. E, acredite, isso causará mais estragos do que tomar coragem para levantar! Essa coragem vem quando olhamos para o que houve e pensamos sobre isso e sobre o que nos causou, dando um sentido ao acontecimento, o que faz com que ele se encaixe na nossa história e ganhe coerência. A partir daí poderemos realmente perdoar. Não apenas os outros envolvidos na situação, mas perdoar principalmente a si mesmo e ao fato em si, através da compreensão e da aceitação dos nossos sentimentos. E aí sim podemos levantar e seguir em frente, ainda mais fortes do que costumávamos ser.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Necessidades e Excessos

"O consumo é a única finalidade e o único propósito de toda produção." - Adam Smith (filósofo escocês do século XVIII)

Durante minha graduação em psicologia fiz, com algumas colegas de sala, um trabalho junto a mulheres que se prostituem nas ruas de São Paulo. Durante as entrevistas, invariavelmente surgia o tema "por que essa profissão", quando nós não perguntávamos, a própria mulher começava a explicar. Nosso grupo entrevistou desde mulheres que cobravam R$5,00 (isso, cinco reais) por um programa até as que cobravam valores altos, beirando os mil reais. E todas elas sempre davam a mesma resposta, independente da pergunta ser feita ou não: faço isso por necessidade. Entrevistas feitas, começamos a questionar... quais as necessidades de cada uma? Algumas falavam de pobreza e miséria. Outras falavam sobre roupas de grife e artigos de luxo. E aí, quando eu comentava sobre o andamento da pesquisa com amigos e familiares, sempre tinha alguém que dizia "poxa, mas tanta gente também passa necessidade! Por que não foi fazer faxina? Ou trabalhar numa loja? Ou de telemarketing?" Bem, o fato é, não foram. Seja lá qual tenha sido a razão da escolha delas, ou o motivo pelo qual a vida se desenrolou dessa maneira.

 Mas o que quero discutir aqui hoje não são os motivos que levariam alguém a se prostituir, seja por escolha ou não. Quero discutir as necessidades do ser humano. Se em parte existem algumas necessidades que qualquer ser humano tem, seja lá na cultura, lugar, época ou classe social em que viva (como as necessidades fisiológicas - alimentação, água, sono...), também existem as necessidades que variam de acordo com o lugar e o contexto em que vivemos (e por contexto, pensamos desde o tempo e a cultura, até o gênero, faixa etária, ocupação...). O que para alguns é apenas um luxo desnecessário, para outros é um item de primeira necessidade. Para alguns, aqueles minutinhos a mais na cama de manhã são uma grande necessidade, sem eles o dia não começa! Já outros não abrem mão de começar o dia com caminhada e exercícios físicos, ou com um bom café da manhã, ou meditando, ou anotando os sonhos da noite anterior... É importante conhecer e respeitar as próprias necessidades, pois assim vivemos com mais qualidade.

Mas a questão começa quando as necessidades passam a ser moldadas não pelo próprio sujeito, mas impostas pelos discursos da mídia (e reforçadas pelas pessoas e instituições com quem convivemos). Uma tarde por semana atendo pessoas carentes como voluntária num ambulatório de saúde no bairro do Rio Pequeno, São Paulo. Lá, uma coisa que me chocou bastante foi a frequência com a qual adolescentes me procuravam com a queixa de que são odiados pelos pais. Não sofriam maus tratos, nem negligência, nem violência.  Quando questionados a razão do suposto ódio, vinha a resposta: "porque minha mãe disse que não pode me dar o video game / o celular novo que lançaram. Se me amasse faria um sacrifício, né?" Não, não é. Entendo a pressão social imposta por muitas campanhas publicitárias. Algumas delas são cruéis ao ponto de fazer a pessoa pensar que só será amada e feliz se tiver os artigos anunciados. Será que ter você em casa, nutrir, dar carinho, estudo e até trazer na terapia, conversar, passar bons momentos juntos, já não são mais provas de amor suficientes?

Para os povos antigos, a coisa mais importante era garantir segurança e fertilidade. Fertilidade das mulheres, mas também dos animais e da terra. Assim, com essa combinação, a vida se manteria, pois haveria a sonhada abundância. Abundância e prosperidade com as quais (em outros contextos) sonhamos até hoje. Porém, se antes a abundância significava ter todas as necessidades supridas, hoje se busca o excesso. E o problema do excesso, diz o sociólogo Zygmunt Bauman, é que ele nunca é o bastante. Nada nunca se torna excessivo porque a pessoa é incentivada a querer mais e mais, numa competição sem fim com a própria sombra.

O resultado disso? Para Bauman hoje em dia as pessoas são reduzidas a consumidores. Comprar (seja um produto, um serviço ou um afeto) é o que lhes mostra quem são, e não mais a relação com os outros. Nesse contexto que o autor propõe, quando a pessoa é vista apenas como consumidora (e é assim que boa parte da mídia nos percebe!), nossa única função no mundo é essa, consumir. Não é amar ou se divertir, ou fazer um bom trabalho, ou procurar ser um ser humano melhor. Tudo isso passa a ser, nessa linha de pensamento, algo sem sentido, que não leva a nada. Triste. E mais triste ainda é quando o produto a ser consumido passa a ser outra pessoa. Não só os usuários de redes sociais que colecionam amigos (com os quais nunca conversaram ou interagiram, são apenas mais produtos na sacola de compras!), mas também aqueles que reduzem o outro. O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas menciona que hoje em dia as pessoas tendem a reduzir o outro a apenas uma faceta de sua personalidade. Ou melhor, a um papel ou função. E aí dá nisso: para a empresa, o funcionário não tem vida fora do horário de expediente. Para o estudante, o professor está 24 horas por dia nessa função, como não corrigiu as provas de ontem? Como que o mecânico deixou a oficina e foi almoçar? Que descaso com o consumidor!  Para Habermas, essa redução das outras pessoas a apenas uma face nos faz entrar num individualismo isolacionista. Quando não existem sujeitos, e sim papéis ambulantes, o indivíduo se sente solitário, por achar que suas dores e alegrias, seu modo de vida e suas escolhas são um fenômeno único no mundo, não consegue perceber que isso acontece na vida de todos os outros. Aliás, muitos nem se dão conta que todos os outros também têm uma vida com necessidades, planos, sucessos e fracassos... Se apenas ele é um sujeito, não existem pares com quem se relacionar!

Como contornar isso? Procurando ver a si mesmo e ver o outro como sujeitos inteiros. Mantendo o que Habermas chama de "mundo da vida", o mundo das relações pessoais e dos afetos. Sabe aquele grupinho entre amigos ou familiares tão queridos que você sente que pode ser apenas quem é, sem máscaras, sem competições desnecessárias?  Aqueles que não ligam se as suas notas nem sempre são tão boas ou se você foi ou não o funcionário do mês. Aqueles pra quem você pode telefonar de madrugada. Aqueles com quem pode apenas ficar descalça e brincar na chuva, sem pressões e sem medo de ser feliz, pois sabe que eles te amam assim como você é. Provavelmente são eles, o seu "mundo da vida", que suprem suas necessidades mais básicas: a de poder ser a pessoa que você é.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Linguagem, expressões e palavras mágicas

"O verdadeiro significado das coisas é encontrado ao se dizer as mesmas coisas com outras palavras." - Charles Chaplin

Já notou a importância que as palavras têm na nossa vida? São elas que nos permitem sair do nosso mundinho e entrar em contato com outras pessoas, criando laços e relacionamentos. As palavras nos permitem expressar aquilo que acontece no nosso interior, nossas ideias, alegrias e dores. Permitem ainda que a gente organize nosso mundo interno, quem nunca sentiu algo estranho e se acalmou ao se dar conta de  que está chateado com algo ou apenas angustiado? Elas nos permitem ainda sentir um grande alívio (por incrível que pareça, existem estudos que mostram que, quando nos machucamos, a dor diminui com o grito de "aaai!!" ou apenas com um palavrão bem empregado!). O fato é que as palavras nos permitem nomear as coisas, descrevê-las. E aí essas coisas/emoções/ideias passam a ser parte do nosso mundo interno.

Do ponto de vista da psicologia e neuropsicologia, adquirir a linguagem é algo compreendido como um dos mais importantes passos no desenvolvimento do ser humano. De tempos em tempos pais me procuram horrorizados porque o filhinho pequeno, que até então era um doce, passou a xingar. Chama os amiguinhos de bobos, a professora da escolinha de feia e até a mãe de chata. E se é repreendido faz birra! Que horror, doutora! Costumo reagir dando os parabéns. Porque isso quer dizer que a criança começou a perceber seus desejos e necessidades, notando que é alguém autônomo e separado das outras pessoas. Começou também a superar aquela fase em que dá um tapa ou uma mordida quando é contrariada, agora ela começa a expressar suas frustrações com palavras (nem sempre palavras muito bonitas). Ah, sim, claro que a partir daqui ela precisa aprender a se expressar com outras palavrinhas...

Acredito que, em algum momento da vida, todos nós já ouvimos uma daquelas historinhas cheias de magia e acontecimentos fantásticos. E muitos já devem ter percebido como as palavras são importantes nas histórias de imaginação. Era uma vez... e as palavras ditas pelo outro ou lidas num livrinho fazem a história passar a existir e também fazem uma série de imagens vivas e coloridas se desenrolarem como um filme na nossa mente. E lembre-se da palavra mágica que resolve todos os problemas. Ou então da senha secreta super poderosa que faz com que a caverna cheia de tesouros se abra. Por que quando crescemos um pouco teimamos em achar que estamos velhos demais para essa "magia" das palavras?

Vamos lá! Quais são as palavras mágicas que transformam a sua história em algo vivo e brilhante? Costumo pedir aos meus pacientes que prestem atenção às palavras que usam. Como você se descreveria (seu corpo, seu jeito de ser, etc.)? Agora, como você se descreveria sem utilizar palavras pejorativas? Isso muda muito a forma como nos vemos, a nossa identidade. Há uma grande diferença entre dizer "sou a pessoa mais distraída do mundo, nem sei como fui terminar o colégio!" e dizer "sou super criativa, consigo perceber o que poucos notam porque sei desviar meu olhar do foco principal dos acontecimentos!" Enquanto a primeira pessoa tem um problema, a segunda tem uma solução! Já falamos sobre o perigo que pode ser transformar nossas qualidades em problemas. Para recordar essa conversa, clique aqui. E quando brincar com palavras mágicas, permita-se ser livre e sair do seu mundinho por alguns momentos. Por exemplo, como descreveria seu companheiro/a, sua família, seus superiores ou subordinados, seu vizinho...? O garotinho que é "uma peste, a cruz que por azar temos que carregar" vai agir como tal. Mas se for descrito como "uma criança vivaz que está apenas vivendo sua infância", a coisa certamente muda de figura, pois nossa postura frente a ele será outra. Indo além: como você descreveria sua casa? E a casa dos seus sonhos? Como seria o trabalho dos seus sonhos ou as melhores férias da sua vida? Mais um pouquinho: como você descreveria sua vida, como contaria a sua história? E quais "palavras mágicas" poderiam ser usadas para deixar a sua história mais com o seu jeito? Por que não arriscar contá-la sob outro olhar e viver a vida que você gostaria de viver?

Certa vez um adolescente me contou o quanto ficava triste com as brigas que aconteciam na casa dele. Porque palavras são ditas no momento da raiva, no calor da discussão. E, continuou ele, algumas palavras mesmo depois de ditas e ouvidas, podem continuar machucando por anos e anos. Sócrates, o pensador grego do século V a.C., costumava dizer que palavras podem agir como o mais milagroso dos remédios ou o mais cruel dos venenos, dependendo de como são ditas. Eu sei que em muitas situações da vida precisamos dizer (ou ouvir!) coisas desagradáveis. Mas também sei que existem muitos jeitos de dizer algo, por mais desagradável que seja. Por que não optar pelo jeito harmonioso? Ele sempre existe e geralmente é mais eficaz que o jeito agressivo e faz menos estragos (em quem ouve e em quem diz).

O nosso discurso, as palavras que usamos no nosso dia a dia, são pontos fundamentais do nosso ser, contam muito sobre o olhar que damos à nossa realidade e a nós mesmos. Por que não ousar perceber a vida por um olhar que nos faça bem? O sentido que damos para a nossa existência está escrito, como que por mágica, nas palavras que usamos para contar nossa história. E escrevemos conforme vivemos e contamos (mesmo que para nós mesmos) aquilo que vivenciamos, sentimos, pensamos, percebemos... As palavras são realmente mágicas. Use-as com sabedoria.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Os muitos Eus que habitam em nós

"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou o que? Um quase tudo." - Clarice Lispector

Existem muitos Eus dentro de nós. Cada um tem seus próprios valores, seus próprios modos de agir, suas próprias metas e intenções. Todos estão lá dentro, como personagens esperando por um sinal para entrar no palco e se mostrar ao mundo. O Eu que trabalha duro e honra todos os compromissos. Mas também o Eu que não quer nem saber. O Eu que ama festas, amigos, multidões e bagunça. Mas também o Eu que não vê a hora de chegar em casa, tomar um banho quente, vestir o pijama e ficar por algum tempo sozinho com seus pensamentos. O Eu que gosta de cuidar e o que gosta de ser cuidado. O Eu que quer a liberdade de um pássaro, vivendo bem ao lado do Eu que quer apenas a segurança de um abraço.

Não, (ainda) não fiquei louca! O que quero dizer é que existem muitos Eus, muitas personagens dentro de cada um de nós. É como uma orquestra em que a confiante talvez toque piano, a ousada toque bateria, a que valoriza tradições toque sanfona, a que gosta de contar histórias toque flauta, a que tem medo toque pequenos guizos muito baixinho, a que quer ser aceita toque um sambinha no pandeiro... cada Eu no seu ritmo, cada Eu tocando sua própria música. Bagunça? Na verdade não. Porque entre todos esses Eus que habitam em nós, existe o maestro, ou o ego, falando em termos psicológicos. Esse é o Eu que organiza os demais, mostrando quando é a vez de cada um deles se destacar, quando dois ou mais Eus precisam tocar suas músicas juntos para superar alguma dificuldade. "Ah, mas eu não! Eu sou eu mesmo, sou verdadeiro!" Não estou falando de falsidade. Porque todas as personagens são você, são parte de quem você é. E por isso, tem o potencial para agir de maneira autêntica. Complicado? Não. Olhe para a sua vida: provavelmente você não trata seus superiores no trabalho ou os seus professores da mesma maneira como trata sua avó. Nem trata os seus alunos ou pacientes da mesma maneira como trata um filho, por mais carinhosa e maternal que você seja. Também não trata um desconhecido na fila do banco como trata um amigo querido. Porque em cada um desses momentos estamos em um papel diferente. Em cada um deles o maestro nos orienta dizendo que um certo personagem é quem deve se destacar naquele momento. Além disso, é importante lembrar que existem tantas personagens quanto existem situações na vida (e formas de agir em cada situação).

Procure prestar atenção em você. Quem são as personagens que têm mais liberdade para "sair" e se mostrar ao mundo tal como são?  Alguma personagem gera conflitos (internos, com você mesmo; ou externos, com as outras pessoas)? Por exemplo, procure imaginar de que outras maneiras essa personagem conflitante poderia mudar a performance para que as coisas fiquem mais harmoniosas? A confiante não precisa atropelar todo mundo nem bater de frente com agressividade, pode dizer para que veio com calma e com respeito. Afinal, é "a confiante", não "o rolo compressor"!

Procure perceber também quais são as personagens que quase nunca (ou nunca) aparecem. Será que existem áreas da sua vida onde essas personagens "secundárias" poderiam trazer mais vivacidade e harmonia? Algumas pessoas já me disseram que gostariam de ser mais otimistas, ou mais tranquilas, ou mais extrovertidas, mas "acho que não tenho essa personagem em mim". Como não? Somos um kit completo! Estão todas aí. Talvez algumas estejam mais enferrujadas do que outras por falta de atuação ou mesmo por falta de prática. Talvez estejam tão no fundo que quase não podemos ouvir sua música. Mas estão todas aí. Convide-a para sair e tocar sua música, dançar sua dança ou apenas dizer o que gostaria de dizer.

Outra atividade interessante para conhecer suas personagens é imaginar como cada personagem reagiria a determinada situação. O que cada uma delas faria num dia de folga na praia? Como cada personagem reagiria a uma crítica? Certamente a prudente não reage a uma discussão com o companheiro/a da mesma forma que a agressiva. Nem a tímida reage a uma cena engraçada da mesma maneira que a criança interna.

Outra coisa interessante. Você vai reparar depois de alguns dias prestando atenção a isso que apesar de todos termos as mesmas personagens, elas são diferentes em cada pessoa, vão vestindo roupagens e fantasias de acordo com a forma como escrevemos sua (nossa!) história. A confiante talvez tenha se tornado "aquela que aprendeu a ser ela mesma superando dificuldades". A medrosa talvez se apresente como "aquela que, por sofrer violências, decidiu que era melhor se retrair". A personagem agressiva talvez seja "a pessoa que ataca por medo de ser atacada" ou apenas "a pessoa que precisa de afeto mas não sabe como conseguir". Cada personagem tem sua própria história. Ou melhor, cada personagem conta a nossa história de um jeito. Converse com as suas personagens. As que estão sempre aí e as que estão lá no fundo, quase caladas. Pergunte-lhes como poderiam se expressar mais harmoniosamente, em que tipo de situação cada uma delas poderia ajudar. Peça-lhes que contem suas histórias de vida, seus medos e desejos. E, acredite, elas contam mesmo! Lembre-se que para que o maestro escolha com sabedoria e eficiência qual personagem irá atuar numa situação, ele precisa conhecer muito bem a todas elas. O contato mais estreito com as personagens que habitam em nós nos dá dicas valiosas de como viver com mais harmonia e de como ser quem realmente somos.

sábado, 6 de outubro de 2012

1000 Visitas!!!


Hoje não é um texto como os outros. Hoje é um agradecimento e também um compartilhar de sentimentos. O que eu gostaria de compartilhar com vocês é a alegria de ligar o computador num belo dia e ver que já recebemos mais de 1000 visitas! Quero aproveitar para agradecer, pois sem vocês isso não seria possível.



Quando criei este blog, em meados de junho, eu não imaginava tamanha repercussão. Sinceramente. E é claro que isso me deixa muito feliz.
Nestes poucos meses de blog recebi várias mensagens de amigos antigos e dos novos, que acabei conhecendo por aqui, e que contavam como os textos os tem feito repensar a própria postura no caminhar da vida. E isso é fantástico, a ideia é bem essa! Afinal, buscar se conhecer para ter uma vida mais saudável e equilibrada nunca é demais. E por que não usar a internet, uma ferramenta que chega a tanta gente e a tantos lugares, a favor de algo que leve as pessoas a buscarem ser elas mesmas e assim terem maior autonomia, vivendo uma vida que faça sentido para elas? Talvez vocês me achem sonhadora demais, mas... por que não??
Por que contei isso? Porque vocês são parte dessa conquista!! MUITO OBRIGADA!!!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Ser o melhor X Ser Feliz

"Nunca imites ninguém. Que a tua produção seja como um novo fenômeno da natureza." (Leonardo da Vinci - século XV)

Vivemos num mundo altamente competitivo. Isto não é uma novidade, basta olhar em volta: o funcionário do mês tem sua foto exibida em local de destaque na empresa. Um motorista fica irritado de um jeito fora do normal quando outro o ultrapassa num engarrafamento (ficando à frente incríveis dois metros!). Muitos colégios organizam as turmas de acordo com as notas dos alunos. E, em muitos deles, as turmas são rearranjadas segundo o mesmo critério após cada prova ou atividade. Boa parte dos jogos e brincadeiras são baseados em competição, um ganha e os demais perdem, mas o importante, tentam consolar, é se divertir. Até mesmo a conversa com os amigos e familiares deixa de ser uma troca afetiva para ser reduzida a contar vantagens e mostrar como somos "bons", ou pior, a falar mal de alguém (que geralmente não está lá) numa tentativa de convencer a si mesmos de que são melhores que a pessoa sobre quem se fala. E assim passamos boa parte da vida tentando mostrar para todos (ou para nós mesmos?) como somos "melhores".

Mas para que competir? A competição saudável move o nosso mundo, alguém pode responder. Isso até pode ser verdade no mundo empresarial, se bem que hoje em dia boa parte das empresas vem repensando essa postura. A competição, seja no mundo do trabalho ou no dia a dia, geralmente surge das comparações. Vejo muito isso nas famílias quando os pais comparam seus filhos/as: "Joaninha é mais esperta que o Bruninho, veja só como lê bem e é mais nova que ele!" Esquecem de comentar que o Bruninho tem outras qualidades ou outros interesses ou talvez não leia tão bem porque precise de óculos. Quando as comparações são frequentes, a pessoa que é diminuída acaba por acreditar que não deve mesmo ser muito "boa" e que precisa se esforçar ao máximo para alcançar os demais, muitas vezes sem questionar se é isso o que ela realmente gostaria. Talvez, se os próprios pais ou pessoas queridas fazem esse tipo de comentário, a pessoa comece a sentir que vive num meio muito exigente e que lhe oferece poucos apoios, não lhe permite ser como é. E temos aí os ingredientes perfeitos para uma competição desenfreada, acompanhada de sentimentos de baixa autoestima, estresse e, com o tempo, depressão ou mesmo doenças psicossomáticas. Precisamos mesmo disso? "Ah, mas competindo aprendemos a ganhar e perder, a lidar com sucessos e frustrações!", alguém pode comentar. Sim, de fato aprendemos, desde que essa competitividade se mantenha em níveis saudáveis e em contextos apropriados. O valor da pessoa não pode ser reduzido ao desempenho dela no trabalho, num jogo, num esporte, nos estudos ou no que for. Um desempenho "bom" ou "ruim" é apenas uma informação sobre uma tarefa ou atividade. É algo que aconteceu e passou, nunca algo que determina o valor de uma pessoa ou quem ela é. 

Costumo dizer na clínica que a vida não é uma corrida, é um caminho a ser percorrido com prazer, apreciando a paisagem e os bons encontros. Para pensar nesta semana: quais competições são saudáveis e quais não têm sentido na sua vida? Procure identificar com quem você compete (colegas, familiares, amigos, desconhecidos ou com você mesmo?) e se a outra pessoa realmente está competindo com você ou está apenas vivendo a vida dela, muitas vezes sem perceber suas intenções competitivas. Como disse certa vez um professor meu, procure perceber se você não estaria competindo com pessoas que cooperam com você. Mais uma: analise em quais áreas da sua vida você tende a competir mais e em quais áreas você se permite viver com maior tranquilidade. Quando competimos procuramos corresponder ao que esperam de nós, ao que "deveríamos ser" ao invés de ser a gente mesmo. Quando aceitamos entrar numa competição sem sentido, trocamos a oportunidade de escolher como gostaríamos que a nossa vida fosse, escolher o que nos deixa feliz, para apenas corresponder a um padrão. É "o melhor" em algo que não faz sentido algum medir como melhor ou pior? Meus pêsames, acabou de trocar a sua originalidade para entrar num modelinho pronto!

Que alternativas nos restam? A cooperação! Como chegar a ela? Em primeiro lugar tendo essa intenção, tendo consciência de que as outras pessoas não estão aqui para te dar rasteiras. Rubem Alves certa vez escreveu um texto muito bonito sobre relacionamentos, no qual ele diz que um relacionamento (de qualquer tipo) para ser saudável deve ser como um jogo de frescobol, em que o objetivo é não deixar a bola cair, e não como um jogo de tênis, em que os jogadores jogam bolas quase impossíveis de pegar. Aliás, jogos cooperativos são ótimas opções para exercitar a nossa cooperatividade, o frescobol é um deles, e você pode encontrar vários na internet ou livros próprios sobre este assunto, com variado número de participantes. Se você tiver crianças, elas costumam gostar bastante desse tipo de jogo, que ensina o valor da amizade, a confiança e a conviver bem com as diferenças de cada um. E por que não jogar entre adultos também? Certa vez uma paciente me ensinou algo lindo quando disse que queria jogar um jogo em que ninguém perde ou ganha, a gente apenas joga juntas e se diverte porque é gostoso ter companhia e poder contar com alguém. Experimente. A cooperação nos ajuda a nos sentirmos amados e valorizados, parte de um todo que vai muito além do nosso próprio umbigo.