quarta-feira, 25 de julho de 2012

Saber Ouvir

"O ouvido do Homem é o caminho para aprender" - Aristóteles (pensador grego do século IV a.C.)

Já notou como é importante saber falar bem no mundo em que vivemos? Isso não é de hoje. Na Grécia Antiga, séculos antes de Aristóteles falar sobre ouvir ser o caminho para conhecer, muitos outros louvavam os bons oradores. Oradores eram pessoas que sabiam falar bem em público, entretendo e informando as pessoas com a sua fala. E até hoje muitas pessoas buscam cursos de oratória para falar melhor, fazem teatro buscando aprender a se expor e a falar bem em público. E quando nada mais resolve, muitas buscam ajuda de psicólogos para superar o medo de falar em público.

Falar é mesmo muito importante! Afinal, quem não se comunica está, muitas vezes, fora do mercado de trabalho, fora do grupo de amigos, é visto como alguém fora da realidade, um antissocial! O curioso é que não tem sentido nenhum em falar bem e fazer um discurso bonito se ninguém estiver lá para ouvir. O som das palavras morre sem que ninguém tenha escutado. E ainda assim, ninguém fala da importância de ouvir. Nunca na clínica um paciente me procurou queixando-se de não conseguir ouvir o outro, mas muitos já se queixaram de não conseguir falar em público, de dificuldade para falar de si, de medo de se expor...

Sempre que se fala sobre ouvir, é de um jeito quase pejorativo, ressaltando a importância da fala do outro. Vamos ver alguns exemplos comuns nas nossas expressões do dia a dia. Há várias frases sobre burros que abaixam as orelhas enquanto outro burro fala. Há também aquela que diz que, quando todos falam juntos, o lugar fica como um mercado de peixes. E uma que eu costumava ouvir muito na infância sobre o porquê de termos duas orelhas e apenas uma boca. E a coisa não para por aí! Quem ouve o outro, com atenção, sem interromper, sem "atropelar" a outra pessoa, muitas vezes é até visto como tímido, apático. "E você, não tem nada pra dizer? Deve ter algum problema para ficar quieto..." Talvez tenha apenas delicadeza e respeito pelo outro.

Muitos conflitos e problemas de relacionamentos começam assim. Todos querem falar e contar a sua versão da história, mas ninguém se ocupa de ouvir o que é dito. Se a fala é uma das formas que mais usamos para nos comunicarmos, o jeito mais eficiente de saber o que passa na cabeça do outro é ouvindo. O problema começa porque a maior parte das pessoas não ouve. E aí começa a supor, começa a criar histórias que expliquem as razões e comportamentos do outro, sem nem se dar conta do que está fazendo. E aí a briga começou!!

Tem gente que diz que ouvir é uma arte. Toda arte envolve técnica. Assim, ouvir o outro é uma habilidade que pode ser aprendida, treinada e melhorada! Comece ouvindo os sons no local onde você está. Tente diferenciá-los. Numa conversa, procure perceber se você realmente ouve o outro ou se atropela, se fala junto. Mas não basta apenas escutar. Presta atenção ao que o outro diz? Não apenas nas palavras, mas na entonação da voz, nas expressões faciais... Todo o conjunto ajuda a dizer. E também a ouvir.

Ouça. Ouvindo a gente permite que pedacinhos do outro e pedacinhos do mundo em que vivemos faça parte de nós. Ouvindo ficamos mais presentes no aqui e no agora. Não tenha medo. Ninguém vai te manipular com um discurso, a não ser que você permita. Afinal, ouvir não é ser uma esponja, podemos (devemos!) usar nossa crítica e nosso questionamento quando ouvimos algo que nos parece absurdo. Ouvir não significa concordar com tudo, afinal, todos temos o direto de ter a nossa própria opinião sobre todas as coisas. Mas só conseguimos concordar ou discordar depois de conhecer a ideia do outro, depois de ouvir. De preferência, ouvir muitas e muitas versões da história, muitas e muitas opiniões! Ouvindo, saímos de uma conversa com, no mínimo, uma ideia a mais do que tínhamos antes da conversa começar: a nossa e a do outro. E sabe lá quantas mais duas cabeças não podem ter juntas!



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Não transforme suas qualidades em problemas

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." - Clarice Lispector

Você já deve ter notado isso. Talvez já tenha acontecido com você ou com alguém que você conhece. Transformar qualidades em problemas.

O filósofo francês Michel Foucault (1926 - 1984) pensava que um mesmo discurso pode ser tanto libertador quanto opressor, ou seja, pode ser usado para os mais diferentes fins, e muitas vezes os fins parecem opostos uns aos outros. O que isso tem a ver com qualidades e defeitos? Simples! Pense num defeito que uma pessoa pode ter. Pode ser insegura, por exemplo. Alguém pode reclamar "ele é um covarde, nunca vi pessoa mais insegura!" Talvez, se ele viver em condições em que a insegurança dele se destaque mais, até o encaminhem para fazer terapia! E quem sabe, após alguma reflexão, ele consiga usar isso a favor dele. E, de inseguro, passa a uma pessoa precavida e cautelosa. Quem sabe até mesmo um estrategista, que consegue perceber o todo de uma situação, inclusive as possibilidades ruins (e que tem tanta possibilidade de acontecer quanto as boas...).

O ponto é: todos nós temos nossas características. Somos como um pote cheio delas. Se são boas ou ruins, isso depende apenas das circunstâncias e da forma como usamos nossas qualidades. Outros diriam que se nossas qualidades são boas ou ruins depende dos olhos de quem vê, e isso também é muito verdadeiro. Tudo na vida da gente se apresenta para cada um da forma como escolhemos ver.

Mas voltando ao assunto de qualidades transformadas em problemas, os exemplos são muitos. A pessoa criativa, que sempre encontra soluções diferentes para as situações da vida, pode ser taxada de desajustada, aérea e, quem sabe, até receba um diagnóstico de déficit de atenção. A pessoa cuidadosa, é insegura. Aquela que respeita o outro e sabe ser boa ouvinte é tímida e não sabe se impor. O que analisa cuidadosamente as situações que vive é indeciso e não sabe o que quer da vida. A pessoa que gosta de ajudar e é cooperativa, muitas vezes é vista como alguém que não sabe viver num mundo competitivo, ou como uma pessoa dependente. O crítico é um reclamão. O sociável é um fofoqueiro que gosta de se aparecer. O reflexivo é um deprimido. E o tranquilo é um alienado. Qualquer um deles poderia, quem sabe,  receber algum diagnóstico de algum distúrbio mental. E, se bobear, até tomar medicamentos!

Claro que existem muitas situações e existem pessoas que, de fato, tem um distúrbio e devem fazer tratamento. Mas não é delas que estou falando. Falo de pessoas que não estão doentes. Na psicologia, uma situação é doentia sempre que traz ao sujeito algum tipo de sofrimento e/ou quando coloca a vida dele (ou a dos outros!) em risco. Você está passando por uma situação assim? Sim? Então o passo agora é buscar tratamento. Não? Muito bem, a situação que você vivencia provavelmente não é doentia no ponto de vista psicológico. Quem sabe você (ou outras pessoas de seu convívio) não estejam apenas transformando suas qualidades em problemas. E, acredite, isso pode trazer muitos problemas!!

Por que, então, não usamos o lado bom das nossas características? Cada um tem seu jeito de ser, que nunca é igual ao de mais ninguém. Por que não procurar tarefas em que podemos usá-las a nosso favor? A pessoa criativa do exemplo provavelmente seria uma contadora horrível, se distrairia muito e erraria ainda mais. No entanto, poderia ser uma ótima artista, arquiteta, escritora, terapeuta... 

Hoje convido o leitor a escrever uma pequena lista de características. Aliás, pequena não! Uma grande lista, quanto maior melhor! Escreva toda característica que se lembrar, independente de você se identificar com elas ou não. O passo seguinte é ler a lista e (com muita sinceridade, nada de tapear, hein?!) ver quais delas se aplicam a você. E, então, tentar se imaginar com aquelas características que você não tem. Como é ser uma pessoa nervosa? Como é ter habilidades musicais? Você pode descobrir coisas muito interessantes sobre si mesmo. Depois, tente agrupar características. Por exemplo, ser cauteloso, estrategista e ser inseguro podem ser visões/expressões diferentes de uma mesma coisa, dependendo de quem vê, da situação que se apresenta e da maneira como a pessoa vivencia essa característica em seu dia a dia. Esta é uma ótima atividade para a gente se conhecer melhor.

Pra terminar o texto de hoje, um pedido. Não deixe que ninguém transforme suas qualidades em problemas! Todas as suas qualidades são pedras preciosas, pois contam sua história e mostram quem você é. Não deixe que os outros transformem seus diamantes em cacos de vidro. E, principalmente, não seja você a fazer isso consigo mesmo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Artigo sobre História das Religiões e Mídia

Este não é exatamente um texto como os que venho publicando aqui no blog. Este é só para contar uma novidade! Como já comentei com vocês em outras ocasiões, fiz mestrado em Ciências da Religião na PUC-SP. (pois é, a novidade não era essa!). 

Lá cursei uma disciplina muito interessante chamada História das Religiões. E nessa disciplina deveríamos escrever um artigo sobre um tema de nosso interesse. O historiador Fernando Tetsuo Miyahira e eu escrevemos sobre a presença religiosa na mídia, mais especificamente a presença do pentecostalismo.

Então, a novidade é que o artigo acaba de ser publicado no blog Novum Religionis e quem se interessar por história das religiões, mídia ou pentecostalismo pode ler nosso artigo clicando aqui!

A mídia é, no mundo de hoje, uma instituição muito presente e de grande destaque, pois transforma idéias, conceitos, discursos, ideologias (e até pessoas!) em imagens e então em produtos, que podem ser consumidos pelo leitor/ouvinte/espectador. Em textos futuros  falarei mais sobre este tema que muito me encanta!

Espero que gostem do artigo.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

De quem é o "seu" tempo?

"O tempo que você gosta de perder não é tempo perdido." - Bertrand Russell (matemático e filósofo britânico)

Hoje em dia a falta de tempo é uma reclamação (ou uma desculpa?) muito comum. Sem tempo de fazer esportes, sem tempo para brincar com os filhos, sem tempo para ler aquele livro ou ver aquele filme ótimo,  sem tempo para fazer algo que goste, sem tempo de estudar, sem tempo de ver os amigos ou apenas telefonar, sem tempo! E assim, enquanto estão "ocupados" a vida passa, as tarefas são cumpridas, mas o que realmente nos importa, aquilo que nos deixaria felizes, não é feito.

Algumas pessoas atribuem esse fato ao estilo de vida corrido das grandes cidades. Outras dizem ser falta de organização. O pensador grego Pitágoras costumava dizer que com tempo e organização tudo pode ser bem feito. Outros responsabilizam a atual organização do trabalho. O sociólogo Zygmunt Bauman, em seu livro Comunidade: a busca por segurança no mundo atual, diz que hoje o empregador já não tem necessidade de fiscalizar seus funcionários. A quantidade de pessoas em busca de um emprego é grande, assim, os funcionários buscam provar seu valor às empresas constantemente. Com isso, o empregador paga as horas trabalhadas, mas em troca exige todas as demais horas do funcionário, seus pensamentos e sua personalidade, enfim, sua vida.

De quem é o seu tempo? De repente nos sentimos quase ingênuos de ousar dizer que nosso tempo é nosso. Não. Somos muito ocupados!

Sabe aquela outra realidade? Aquela cena do jantar tranquilo em família, da conversa agradável com os amigos, das caminhadas no parque numa manhã de sol... Para muita gente, esses pequenos prazeres são limitados aos finais de semana. Já outras não encontram tempo para si nem mesmo nos finais de semana. Quando foi a última vez que você teve seu tempo?

O ser humano sempre desejou a liberdade e, com ela, a autonomia, ou seja, o poder de fazer suas próprias escolhas. Mas sem tempo para nós mesmos, como podemos ter autonomia? Não podemos, talvez apenas de forma muito limitada, na melhor das possibilidades.

De quem é o seu tempo? Claro que não podemos simplesmente largar tudo. Mas tampouco podemos largar a nós mesmos. Quando nunca fazemos o que gostamos, nem mesmo vez ou outra dentro do possível, as nossas escolhas nos são negadas. E aí murchamos, perdemos a alegria de viver e, de repente, tudo que resta dentro de nós é um grande vazio. A felicidade que podia ter sido e não foi. O projeto que nunca nem sequer começamos a realizar se torna apenas um sonho distante, e o que era a semente de uma nova realidade vai apodrecendo dentro de nós até virar uma massa estranha e irreconhecível.

Como lutar contra isso? Escolha! Não tenha medo, ouse ser quem você é. Vamos pensar em algumas estratégias. O primeiro passo é seguir o conselho de Pitágoras, organizar. Tenha uma agenda e respeite-a. Não marque compromissos nos mesmos horários (ou em horários tão próximos e em lugares tão distantes que você ficará ansioso e estressado por correr o risco de não poder cumpri-los). Crie prioridades em sua vida. E seja você mesmo a sua prioridade número 1. 

Com isso, vem o respeito. O respeito a si mesmo. Dê tempo a você. Dê tempo para almoçar sem ter que apenas engolir a comida. Dê tempo para acordar com calma. Em muitos casos vale a pena acordar alguns minutos mais cedo, com tempo, do que ter de apenas pular da cama e já começar o dia na pressa. Faça pausas. Tempo perdido? Não, nosso organismo precisa de pausas para funcionar bem, e quando fazemos pausas, erramos menos e somos mais eficientes. Levante-se, caminhe um pouco, estique o corpo, converse com um colega, ouça uma música...

Olhando com cuidado o seu dia, provavelmente você encontrará tempinhos em que pode incluir atividades que goste. Uma pessoa muito atarefada que goste de plantas provavelmente não terá tempo de cuidar de um pomar. Mas certamente encontrará 3 minutinhos para regar seu vasinho de flores e apreciar sua beleza. Uma mãe ou um pai pode não ter como passar o dia todo com sua criança, mas provavelmente, se quiser, tem alguns minutos para uma brincadeira ou uma historinha... 

O tempo passa e vamos envelhecendo. E aos poucos percebemos que o que sustenta aquilo que somos não são nossos feitos grandiosos, nem a nossa capacidade de cumprir tarefas bem e no prazo. O que nos faz sermos quem somos são as nossas lembranças e os nossos sonhos para o futuro. O desafio é viver de um jeito que nos permita ter boas lembranças e, ao mesmo tempo, cultivar e realizar os nossos sonhos.