quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Jornada ao Fundo do Poço

"No fundo de um buraco ou de um poço, acontece descobrir-se as estrelas." - Aristóteles (pensador grego do século V a.C.)

O assunto de hoje é um pouco desagradável, mas todos passam por isso em algum momento da vida. Falo das crises existenciais. Não aqueles pequenos contratempos que acontecem na vida de qualquer um, ou aquelas épocas mais caóticas em que temos problemas no trabalho, discussões em casa e, como se não bastasse, a geladeira para de funcionar! Claro que nada disso é agradável. Mas não são problemas que nos jogam no fundo do poço nem nos fazem pensar sobre o sentido de acontecerem na vida da gente (porque  sabemos que acontecem na vida de todos!).

A crise existencial não é isso. É uma queda, um colapso de todas as certezas que tecemos e que fazem (ou faziam!) nossa vida ter algum sentido. Não somos mais quem sempre pensamos que éramos. Você sabe bem, falo daquelas situações limite: divórcio, problemas sérios de saúde (com você ou com pessoas queridas), acidentes graves, desemprego, mortes, incêndios, inundações, violências, dívidas que levam a pessoa a perder tudo o que tinha...

Quero contar rapidamente o mito da deusa suméria Inana. Mitos são ótimas formas de conhecer a nossa realidade, pois falam diretamente para as nossas emoções, são uma porta para o inconsciente. Inana era a rainha do céu e de tudo que havia abaixo dele. Era responsável pela fertilidade, civilização e cultura. Inana tinha dois pretendentes e casou-se com um deles. Não demorou para que o marido se tornasse arrogante e quisesse o lugar dela. Ele sugeriu a Inana que ela visitasse a irmã, rainha do mundo dos mortos. Ninguém que tivesse ido até lá jamais retornou, mas Inana não tinha medo. Ela combinou com o primeiro ministro que, caso não voltasse em três dias e três noites, ele faria os ritos funerários e seu marido seria o novo rei. Em cada um dos vários portões que Inana atravessou até o submundo, ela teve que entregar aos guardiões  dos portais suas jóias, símbolos reais e roupas, despindo-se completamente de quem era, até que restasse apenas sua essência. Chegou nua ao mundo dos mortos, tal como nasceu. Ao olhar para a irmã, a deusa da morte de cabelos negros e olhos de pedra, Inana passou três dias e três noites como morta, suspensa como um cadáver. Como ela não voltou, o primeiro ministro seguiu as instruções que ela deixou. Mas o pai de Inana, que sabia de tudo, foi socorrê-la, enviando água e comida para reviver a deusa. Saindo do submundo, Inana corria com demônios em seu encalço, e por muito pouco não ficou presa lá. Ao chegar ao seu reino, ficou furiosa com a presunção do marido, que tramou para tornar-se rei. Enviou-o então para o submundo, como substituto dela e retomou seu lugar como rainha do céu.

Esse mito nos fala das crises reais de nossa vida, da experiência de sermos despidos totalmente daquilo que antes nos dava certeza de quem somos. Uma vez no "submundo", ou no fundo do poço se você preferir,  tudo o que nos resta é a nossa coragem e a nossa força interior, e é apenas com elas que poderemos contar para retornar e escapar dos "demônios" que tentam nos manter lá, pois na maioria dos casos estamos  (ou nos sentimos como se estivéssemos) sozinhos.

Como sobreviver quando parece que apenas viver se tornou impossível? Nada vive no mundo dos mortos... Mas uma certeza ainda temos: se sobrevivemos à descida, sobreviveremos ao retorno. E quando chegarmos, viveremos de maneira diferente, pois quem já foi ao "mundo dos mortos" e olhou para aquela realidade, nunca mais será a mesma pessoa. Será para sempre marcada pela experiência da descida. E, muito provavelmente, essa se tornará sua maior força e sua maior referência de sucesso e de coragem.

Talvez esse tipo de experiência seja a chance que a vida nos dá de perceber que tudo aquilo de que nos despimos e que antes pareciam ser o que somos, na realidade nem era tão importante assim. De que adianta um cargo ótimo se não temos saúde e/ou perdemos momentos importantes com pessoas queridas? Ou um relacionamento com uma pessoa "maravilhosa", porém construído com base em mentiras? Os momentos de crise nos ensinam a valorizar nossa força interior, pois ela é o que de mais nosso temos. Assim compreendemos que o mais importante na vida é a felicidade, e que a felicidade só ocorre quando estamos bem com a gente mesmo, em harmonia. Todo o resto é um cenário!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

50 Anos de Psicologia no Brasil




Hoje, dia 27 de agosto é um dia especial. É dia do psicólogo(a). Apenas isso já seria o suficiente para dar os parabéns aos colegas, que tanto se empenham para contribuir com a melhora da qualidade de vida das pessoas, escolas, instituições, comunidades...

Mas este 27 de agosto é especial. Porque em 27 de agosto de 1962 a psicologia foi oficialmente regulamentada como profissão no Brasil. Hoje, portanto, fazemos 50 anos de profissão!!

Sinceramente espero que a gente possa continuar fazendo a diferença por muitos e muitos anos, pois com certeza ainda há muito a ser feito! O campo de atuação da psicologia é muito grande. Podemos ser encontrados em clínicas, hospitais, escolas, empresas, comunidades, equipes esportivas, ONGs, no setor judiciário e em tantos outros. Onde existir o ser humano, lá estará o psicólogo. Porque independente de onde estamos ou das técnicas que utilizamos, nosso objetivo é levar as pessoas a se conhecerem e a conhecer a realidade em que vivem. Quando a pessoa conhece, pode questionar, o que viabiliza a autonomia e as transformações tão necessárias, melhorando a qualidade de vida e a relação entre as pessoas.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os vilões da sua vida: o que eles têm em comum?

"Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?" - Clarice Lispector

Talvez por eu ter feito teatro na adolescência ou por escrever quase compulsivamente, gosto muito de comparar a vida a um filme ou peça. Quando imaginamos isso, provavelmente nos vemos como as personagens principais da nossa história, pois somos (ou seria interessante que fôssemos!) a principal personagem da nossa vida. Muito bem! E quem é o vilão?

Você o conhece muito bem... talvez melhor do que gostaria. Muitas vezes o vilão toma a forma daquela pessoa que compete com a gente, não necessariamente de maneira desleal. Outras vezes era aquela professora que nos "perseguia" na escola ou o chefe  que pega no seu pé. Também pode aparecer como alguém que nos trata mal: de antipáticos de plantão a agressores ou estupradores. O colega que você tem certeza que morre de inveja de você. Ou apenas aquela pessoa com quem nunca falamos mas que só de olhar já não fomos com a cara! Uma forma muito comum do vilão de hoje em dia é o outro: aquele que vem de outro lugar, o morador de rua, o usuário de drogas, o homossexual, o doente mental... Afinal, pensam as pessoas de hoje "nós sabemos como somos mas os outros... Na certa vão nos fazer mal!" Esquecem apenas que, para os outros, nós somos o outro... e talvez o vilão!

Não encontrou o vilão lá fora? Convido a procurar lá dentro! Pense nos seus sonhos, por exemplo. Freud já disse em seu livro A interpretação dos sonhos, publicado em 1900, que apenas 02% dos sonhos que temos são agradáveis. Isso mesmo, você leu certo, dois! Os outros 98% são geradores de medo, angústia, raiva, tristeza, tédio ou algum outro tipo de desprazer. Quem são seus vilões? Monstros e fantasmas? Bandidos e assassinos? Desconhecidos que nos perseguem sem sabermos a razão? Alienígenas? Animais ferozes? Uma pessoa misteriosa que força o sonho numa sequência de acontecimentos desagradáveis ou tediosos?

É importante conhecermos nossos vilões, pois isso nos ajudará a conhecer mais sobre nós mesmos. Que tipo de vilões você atrai para sua vida (incluindo para os seus sonhos, pois eles também são parte da sua realidade!)? O que eles têm em comum? Cargos de poder? Atitude prepotente? O olhar? Não assumem as responsabilidades deles? Ou será que chamam você a assumir as suas responsabilidades? São controladores? Cada um encontrará as características dos seus vilões. E, junto com elas, encontrará suas próprias características. Por que será que pessoas em posição de autoridade te fazem sentir aquele mal estar? Por que as responsabilidades corriqueiras da vida são tão pesadas? Por que colocar a sua vida em discussão, permitindo que o outro exerça controles sobre você?

O psicólogo suíço Carl Jung (1875 - 1961) dizia que todos temos em nossa personalidade um arquétipo chamado sombra. Ela guarda tudo aquilo que resistimos a ver em nós mesmos - mas que, muitas vezes, não perdemos tempo em ver no outro! Guarda também características e habilidades que poderíamos ter desenvolvido mas que ainda não tivemos a oportunidade. Jung diz ainda que, para manter-se psicologicamente saudável, é importante trazer a sombra para a luz, isto é, conhecê-la e integrá-la à nossa personalidade. Olhar para os vilões é uma das boas formas de fazer isso.

Questione-se! Por que a notícia sobre aquele crime te causou tanta indignação? Por que aquela pessoa (que, em muitos casos, você mal conhece e/ou está apenas cumprindo o trabalho dela) te faz sentir raiva/medo/angústia/etc.? O que isso diz sobre você? Sobre o seu jeito de ser, suas memórias, seus planos e receios... Existem pessoas que quando olham para trás vêem um histórico de abandonos em suas vidas, ou de abusos e assédios, de agressões, de bullying, de perseguições, de exclusões... Se for o seu caso, cabe refletir: o que essas experiências (e os participantes) tiveram em comum? E, mais do que isso, por que a mesma história se repete tantas vezes na vida da mesma pessoa?

Não existe aventura sem desafios. E quando aparecem os desafios, junto vêm os vilões. Todos eles são maus? Nem sempre. Na vida real, geralmente não. Primeiro porque, muitas vezes, a coisa não é pessoal. A vendedora mal humorada trataria qualquer cliente mal, calhou de ser você. Segundo porque, muitas vezes, a pessoa está apenas cumprindo a tarefa dela. Professores cobram a lição de casa e chefes exigem um trabalho bem feito, não estão te perseguindo quando fazem isso, nem decidiram ao levantar da cama que passariam o dia te chateando. Terceiro, muitas vezes a pessoa nem mesmo sabe que o comportamento dela te atinge. Seu concorrente não compete com você para atormentar sua vida, assim como você, ele também depende desse trabalho para se manter! Talvez seu familiar coma sempre a parte crocante do pão porque imagina que você goste mais do miolo! Mudando a forma de perceber essas situações da vida, a coisa muda... e talvez os antigos vilões se tornem aliados e até bons amigos!

O caso é outro? Você sofre abusos, assédios e agressões? Nesses casos não cabem rodeios, minha opinião se resume a uma só palavra: DENUNCIE!!!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Por que viver em paz é tão difícil?

"A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos." - Albert Einstein

Há algum tempo venho pensando sobre a paz. Hoje gostaria de compartilhar essas idéias com meus leitores. Por que é tão difícil viver em paz? Pelo corre corre de todo dia? Pelas situações em que a vida nos coloca, às vezes sem nos pedir licença? Ou simplesmente gostamos de "viver perigosamente"?

Antes de responder por que é difícil viver em paz, o lógico é pensar um pouquinho sobre o que é viver em paz. Quero contar uma história. Em 29 a.C., o imperador romano Augusto declarou o fim das guerras em que o Império Romano estava constantemente envolvido, pois Roma já havia conquistado todos os territórios ao redor do Mar Mediterrâneo, na Europa, norte da África e Oriente Médio. Essa fase de calmaria ficou conhecida como Pax Romana e durou até 180 d.C. Bom ter paz, não é? Para os romanos não foi um negócio muito bom não! Sem inimigos de fora para combater, começaram a aflorar muitas tensões internas (lembre-se que havia no Império Romano muitos povos vivendo juntos, com línguas e costumes bem diferentes uns dos outros). Logo o exército romano, muito conhecido por suas estratégias e eficácia militar, não combatia povos inimigos. Ao invés disso lutava com a própria população romana, numa tentativa de instituir a mesma língua e cultura (o que, podemos imaginar, não era uma ordem executada de forma tranquila pelos soldados... e nem recebida de bom grado pela população). O que existia era uma paz armada, uma paz forçada, sempre lutando para abafar (e não para resolver de forma harmoniosa) os conflitos interiores do império.

Em diferentes culturas empilhar pedras enquanto se reflete 
sobre um tema ou questão é uma atividade usada para 
encontrar a paz interior e o equilíbrio. Vamos tentar?
Mas o que um bando de romanos que viveram há 2 mil anos tem a ver com a gente? Não somos romanos! Mas podemos usar essa história como exemplo. Viver em paz requer coragem. Muito mais coragem do que viver em meio aos conflitos da nossa realidade exterior. Porque, assim como aconteceu com os romanos, se tentarmos ficar em paz, irão surgir uma série de conflitos internos, dos mais variados tipos. E é preciso resolvê-los (e não apenas abafá-los!) com cuidado e diplomacia.

Quando falo em viver em paz não quero dizer viver um marasmo, como muita gente pensa logo que começo a colocar essas ideias. Viver em paz é manter uma postura interna voltada para a paz, para a harmonia, para o que será melhor para nós e para o todo do qual somos parte e ao qual estamos conectados. A vida ainda terá problemas, conflitos e atribulações? Claro que sim! Basta estar vivo para ter problemas. O que quero dizer é que, vivendo em paz, mantendo esse sentimento (ou essa atitude?) dentro de nós, podemos olhar para os problemas e conflitos da nossa vida de maneira mais tranquila e harmoniosa. E assim podemos ganhar mais qualidade de vida, inclusive evitando doenças que, estando em paz com a gente mesmo, não precisaremos somatizar.

Por que viver em paz é tão difícil? Por muitos motivos. Cada um tem o seu. O que quer dizer que cada um terá de responder a essa questão por si mesmo. Proponho, então, outra pergunta: por que não tentar viver em paz? Vamos nos dar uma chance! Como manter a paz interior? 

Existem muitas técnicas que podemos usar para nos ajudar a manter a paz interior. 
- Exercícios de respiração (para saber mais sobre eles, clique aqui!). 
- Meditar todos os dias, dar um tempinho para você mesmo, para refletir sobre algo que toque o seu coração ou que de alguma forma te afete. Ou "apenas" para esvaziar a cabeça! 5 minutinhos ao acordar ou antes de ir para a cama já fazem muita diferença! 
- Procurar manter relações saudáveis e que nos fazem bem. 
- Resolver nossos conflitos em lugar de apenas "colocar o pino na panela de pressão". 
- Conhecer e respeitar nossas necessidades. Será que precisamos de mais tempo de sono? Ou de mais exercícios físicos? Ou um trabalho mais estimulante? De que você precisa?
- Colocar com clareza e respeito o que pensamos, sentimos ou precisamos, evitando assim muitos conflitos (internos e externos!). 
- Em diversas culturas antigas, orientais e ocidentais, existia o hábito de empilhar pedras enquanto se pensa sobre uma situação, um problema ou mesmo um tema que venha à mente. Que tal reservar um tempinho, pegar algumas pedrinhas e tentar? Qualquer pedra serve! Com certeza você as encontrará em praças ou mesmo na rua.

Mas, principalmente e antes de tudo, é preciso ter em mente a intenção de se manter em paz, e permitir que essa intenção governe os nossos pensamentos, atos e palavras, harmoniosamente, como um maestro que rege sua orquestra. Uma boa forma de conseguir isso é questionando-se antes de agir ou falar por impulso: em que (o que você pretende fazer/falar) fará de seu mundo um lugar melhor e/ou de você uma pessoa melhor, mais harmoniosa? Em nada? E será que vale mesmo a pena ou precisamos repensar nossas atitudes??

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Arte de Construir Pontes

"Através dos outros nos tornamos nós mesmos." - L. Vygotsky (psicólogo russo do século XX)

Já falamos em outros textos sobre a importância de ouvir o outro. Hoje falaremos sobre algo que tem muito a ver com isso: relacionamentos. Muitas vezes os nossos relacionamentos são fonte de alegria, dão um colorido especial às nossas vidas. Outras vezes, podem gerar conflitos e dúvidas. Gosto de pensar em pessoas como seres que trazem dentro de si um mundo inteiro, o mundo delas, que não é igual ao de mais ninguém pois é construído ao longo da história de vida de cada um, influenciado pela maneira como a gente se percebe e pelas interações que temos com o outro e com o mundo externo, por costumes e tradições da cultura em que vivemos, da nossa cultura de origem, entre muitas outras coisas. Se cada pessoa é diferente da outra, é claro que, por mais parecidas que sejam e por mais boa vontade que tenham, as pessoas (amigos, familiares, casais, colegas, etc.) nem sempre concordam em tudo. Aliás, na maioria das vezes não concordam, embora nem sempre assumam isso. Muitas vezes nem ao menos perguntam o que o outro acha, e já saem imaginando a resposta. E acreditando naquilo que imaginaram. E é aí que começa a nossa conversa.

Um relacionamento nunca é verdadeiro quando não existe um esforço de compreender o mundo do outro. Sair do nosso mundinho e se aventurar por mundos desconhecidos. Não esperando que o outro nos complete, mas que venha a somar. Para isso acontecer, é preciso respeito. Antes mesmo do amor, da amizade, da compreensão, da paciência, do companheirismo... porque quando não tem respeito, nada disso existe. Pelo menos não de forma sincera.

É preciso construir pontes que nos levem até o mundinho do outro. E que permitam que o outro visite o nosso mundo. Podemos tentar entender o outro. É claro que nem sempre vamos conseguir. E aí chegamos à questão dos preconceitos. É fato, todos temos nossos preconceitos. Não me refiro a não gostar de alguém apenas pela aparência pessoal, como muita gente imagina quando falamos em preconceito. Este é um conceito que vai muito além disso. Temos um preconceito sempre que fazemos suposições sobre o outro. Se é loira, deve ser burra. Se é religioso, é um fanático ignorante. Se trabalha bastante, não deve ter muitos amigos. Se vem de outro estado ou país, é estranho e não sabe se portar aqui onde vivemos. Se mora na favela, é um maloqueiro. Mas também existe o preconceito positivo, que é tão ruim quanto o negativo: se é japonês, claro que vai entrar na faculdade! É gringo, deve ser rico! Está de terno, deve ser importante! Se a criança está com a mãe, então é bem cuidada! O que quero dizer é que nunca sabemos da vida do outro, a não ser que façamos um esforço para conhecê-lo, com a mente aberta para percebê-lo da maneira como a pessoa se apresenta, não como achamos que ela deve ser ou como queremos que ela seja.

Um ponto interessante é que, entrando em relacionamentos (seja do tipo que for) com o outro, conhecemos mais sobre nós mesmos. Conhecemos sobre nós antes mesmo de começar a construir a ponte. Que preconceito temos? O que será que nos espera no mundo do outro? Que tipos de coisas supomos sobre o outro e a vida dele? Isso nos diz muito sobre a maneira como a gente se coloca para o mundo e para o outro, afinal, o mundo é uma grande sala de espelhos! Mais uma coisa para pensar: como abordamos o outro? Muita gente que se queixa de dificuldades de manter relacionamentos passa a supor que é uma pessoa chata, que tem habilidades sociais horríveis e por aí vai. Muitas vezes o problema é apenas a forma como nos colocamos, como abordamos as pessoas. O relacionamentos dos pais e mães com seus filhos adolescentes, por exemplo, pode melhorar bastante se os filhos sentirem que são tratados como adultos, como iguais, e não como crianças.

Construiu a ponte? Muito bem! O outro quer que a gente entre no mundo dele? Nem sempre. E também isso precisa ser respeitado. Antes de supor que é um antissocial fechado demais, pare e observe. Algumas vezes a pessoa só não está tendo um bom dia ou está num momento mais reflexivo. Às vezes esse é o único NÃO que ele ou ela pode dizer na realidade em que vive. Às vezes essa pessoa tem uma história de vida que a levou a evitar a proximidade do outro. Respeite. O outro aceita sua presença no mundo dele/a? Que bom! Respeite também, se colocando com sinceridade, sendo você mesmo (porque no fim, isso também é questão de respeito - com o outro e com você mesmo!) e respeitando os limites de cada um.

Quando temos relacionamentos verdadeiros, isto é, quando construímos a ponte e nos permitimos perceber o outro como realmente é e deixar com que nos percebam como somos, crescemos muito. Amadurecemos. Porque aprendemos que não existe certo ou errado, apenas o jeito de cada um. E que está tudo bem em sermos como somos se isso nos deixar felizes e não fizer mal para nós ou para a realidade a nossa volta. Percebemos que existem muitos jeitos diferentes de ver e de enfrentar situações parecidas, e que todos esses jeitos tem sua eficácia e suas falhas (inclusive o nosso próprio jeito!). Mas aprendemos principalmente que estar com o outro é uma coisa que vai muito além do físico, é emocional. Um grupo, família, casal, não é um bando de pessoas colocadas juntas fisicamente, mas pessoas que, emocionalmente, se permitem criar e atravessar pontes com respeito, sinceridade e delicadeza.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Buscar Aquilo que nos Faz Bem

"Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo." - F. Nietzsche (filósofo alemão do século XIX)

Hoje vamos conversar um pouco sobre buscar o que nos faz bem. Quando digo isso na clínica, quase sempre as pessoas começam a listar coisas: um carro novo, uma casa na praia, um video game de última geração. Mas a coisa é muito mais ampla, porque aqui vale tudo, não apenas coisas, mas pessoas, situações, metas, sentimentos...

Parece uma coisa muito fácil. Afinal, quem não sabe o que é bom para si? Mas será que aquilo que parece tão maravilhoso realmente é o que nos faz bem? Para saber essa resposta, precisamos pensar nos nossos valores, porque são eles que, sem a gente nem se dar conta, direcionam as nossas escolhas. Não, não me refiro a valores financeiros, mas a outro sentido dessa palavra. Em latim, valere significa "passar bem". Então é fácil concluir que nossos valores são tudo aquilo que nos faz bem. Falam muito sobre ter valores. Mas quais?? Se valor é o que nos faz bem, é claro que os valores podem variar bastante de pessoa para pessoa, pois somos todos diferentes, cada um com suas preferências, seu jeito de ser, sua história...

Por exemplo, para muitas pessoas a família é um valor. Mas e alguém que sofria/sofre de maus tratos, violência doméstica, abusos dentro da família? Nem sempre essa pessoa consideraria a família (ou a família da qual fez/faz parte) um valor. Outro exemplo: muitos valorizam viajar, conhecer o mundo e novas pessoas... a mídia e a sociedade nos incentivam e encorajam a fazer isso. Já para outros, a ideia de viajar pode ser indiferente ou mesmo repulsiva e angustiante, talvez para essa pessoa tenha mais valor poder estar na casa dela, próxima das pessoas e situações mais típicas do dia a dia. O que quero dizer é que o tema "valores" é um assunto em que não existe certo ou errado, bonito ou feio. Cada um é como é e gosta do que gosta!

Mas para que conhecer seus valores? Muito simples! Apenas porque para buscar o que nos faz bem precisamos saber o que estamos procurando! Senão nosso comportamento cai num vazio, pois passamos a buscar (pessoas, coisas, situações sentimentos...) que nós, ou pior, que os outros pensam que deveria nos fazer bem e que nem sempre faz. E aí começamos a nos sentir um peixe fora d'água! "Poxa, finalmente vou fazer aquela viagem / comprei a roupa da moda / estou namorando com uma pessoa legal... mas ainda me sinto frustrado/a!" Pois é... pode até ter/fazer o que todos (pensam) que querem (ou pensam que deveriam querer)... mas será mesmo que é o que você quer?? Será que você sempre escolhe o que você valoriza, o que te faz sentir-se bem? Meio óbvio, mas se não se sente bem, você provavelmente não escolheu algo que você valoriza.

E se os valores podem ter tanta influência na nossa vida, como saber quais são os nossos? Costumo propor uma reflexão muito simples. Normalmente as pessoas pensam no que é mais importante para elas, no que faz a vida valer a pena. Proponho fazer o caminho contrário: o que é tão importante para você a ponto de fazer sua morte valer a pena?? O que vale seu sacrifício?? A família? O amor? O trabalho bem feito? A carreira?  O reconhecimento? O dinheiro? Os momentos de lazer e diversão? Agir de acordo com suas escolhas? A ética? Você logo vai perceber que algumas coisas que pareciam fundamentais na sua vida nem são tão importantes assim... e outras que algumas vezes pareciam ser nada demais tem uma importância imensa. Procure criar uma escala desses valores que aparecerem na sua reflexão. Alguns são muito importantes para você, outros menos, mas ainda assim todos os nossos valores nos ajudam a saber quem somos e onde queremos chegar.

Pare e pense nas escolhas que faz. Suas escolhas e atitudes estão de acordo com os seus  valores? A vida da gente só tem sentido, só vale a pena quando nossas escolhas são reflexos dos nossos valores, pois apenas assim buscaremos aquilo que nos faz bem de verdade.